Konstantínos Kaváfis
Konstantínos Kaváfis foi um poeta grego, amplamente considerado uma das figuras mais importantes da literatura grega moderna. A sua obra é conhecida pela profundidade histórica e filosófica, explorando temas como a memória, o tempo, a identidade e o desejo, muitas vezes com uma perspetiva melancólica e irónica. Conhecido pela sua abordagem única à poesia, Kaváfis combinou um estilo clássico com uma linguagem inovadora, refletindo a complexidade da experiência humana e a riqueza da herança helénica. A sua influência estende-se para além da Grécia, sendo reconhecido internacionalmente como um poeta de profunda ressonância universal.
n. 1863-04-29, Alexandria · m. 1933-04-29, Alexandria
Biografia
Identificação e contexto básico
Konstantínos Kaváfis (em grego: Κωνσταντίνος Καβάφης) foi um poeta grego. Nasceu em Alexandria, no Egito, em 1863, e faleceu na mesma cidade em 1933. Era de nacionalidade grega e escrevia em grego moderno. Viveu num período de grandes transformações políticas e sociais no Egito e no Mediterrâneo Oriental, marcado pela presença de diversas culturas e pela influência do Império Britânico.Infância e formação
Kaváfis nasceu numa família grega abastada de Constantinopla (atual Istambul) que se mudou para Alexandria quando ele era criança. Teve uma educação esmerada, incluindo um período em Inglaterra, o que lhe permitiu um contacto com a língua e a cultura inglesas. A sua juventude foi marcada pela instabilidade financeira da família e por uma profunda ligação à cidade de Alexandria, que se tornaria o cenário central da sua poesia.Percurso literário
O início da sua atividade literária deu-se na juventude, com poemas publicados em jornais gregos no Egito. No entanto, a sua obra mais significativa e pessoal começou a tomar forma mais tarde. Kaváfis teve um percurso lento e deliberado, revisando e reescrevendo os seus poemas ao longo de décadas. Publicou apenas algumas coletâneas em vida, preferindo muitas vezes distribuir poemas individualmente. Não colaborou ativamente com revistas literárias no sentido convencional, mas a sua obra circulou e foi reconhecida gradualmente.Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias As obras mais significativas de Kaváfis incluem "Ítaca", "Esperando os Bárbaros", "A Cidade", "O Aniversário", "Alexandria, 31 a.C.", "Dez dias", "De Regresso da Grécia", "O Rei de Daphnis", "Meros", "Os Cavaleiros (de Sidon)", "O Primeiro": "Para um Deus", "Um Jovem Poeta da Ilha de Tenedos", "O Poeta", "Um Cidadão da Classe Rica, Fundador de uma Sociedade para a Ajuda de Jovens Pós-Graduados", "História". Temas dominantes na sua obra são a memória histórica e pessoal, o tempo, o desejo, a identidade, a homossexualidade, a decadência, o desapontamento, a busca por significado e a reflexão sobre a condição humana e o império. O seu estilo é marcado por um tom conversacional, por vezes irónico ou melancólico, e por uma linguagem que mescla o grego moderno com arcaísmos e termos técnicos, criando uma sonoridade única. Utiliza frequentemente a forma do verso livre, mas com um ritmo interno muito cuidado. A sua poesia é densa em alusões históricas e literárias, exigindo do leitor um conhecimento prévio ou uma atenta consulta. Kaváfis inovou ao trazer para a poesia temas e uma perspetiva histórica pouco explorados, focando-se na dimensão humana de eventos e personagens históricos, e na complexidade da vida quotidiana em contextos de declínio imperial. A sua obra dialoga com a tradição clássica grega, mas com uma sensibilidade marcadamente moderna e egípcia.Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico Kaváfis viveu numa Alexandria cosmopolita, um centro cultural e comercial do Mediterrâneo. O seu contexto histórico incluiu o declínio do Império Otomano e a ascensão do poder britânico no Egito, bem como as convulsões políticas na Grécia. Era contemporâneo de importantes movimentos literários na Europa, mas manteve uma posição relativamente isolada, desenvolvendo um estilo muito pessoal. A sua poesia reflete a tensão entre o passado glorioso e o presente melancólico, a diversidade cultural da sua cidade e a experiência de ser grego num país estrangeiro.Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal Kaváfis levou uma vida discreta e, em grande parte, solitária. Trabalhou como funcionário público e gestor de uma empresa de irrigação, o que lhe garantiu estabilidade financeira para se dedicar à poesia. As suas relações pessoais, incluindo a sua homossexualidade, são frequentemente interpretadas como uma influência subjacente na sua obra, particularmente na exploração do desejo e da intimidade.Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção Em vida, Kaváfis teve um reconhecimento limitado, principalmente nos círculos literários gregos. A sua fama internacional cresceu significativamente após a sua morte, especialmente através de traduções para o inglês e outras línguas. Hoje, é universalmente reconhecido como um dos maiores poetas do século XX.Obra, estilo e características literárias
Influências e legado Kaváfis foi influenciado pela poesia helenística, pela história bizantina e pela tradição literária grega. A sua obra, por sua vez, influenciou profundamente a poesia grega moderna e muitos poetas internacionais, como T.S. Eliot e W. H. Auden. O seu legado reside na sua originalidade temática e estilística, na sua capacidade de dar voz à memória coletiva e às experiências individuais de forma universal.Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica A obra de Kaváfis tem sido objeto de vastos estudos críticos, que exploram as suas múltiplas camadas de significado, a sua relação com a história, a sua exploração da identidade grega e a sua perspetiva sobre o tempo e a mortalidade. As interpretações sobre a sua homossexualidade e a sua representação na poesia são um campo de análise constante.Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos Kaváfis era conhecido por ser um colecionador de informações históricas e por passear frequentemente pelas ruas de Alexandria, absorvendo o ambiente e os detalhes que depois transpunha para os seus poemas. Tinha o hábito de datilografar os seus poemas e de os distribuir aos seus amigos e conhecidos, muitas vezes sem os publicar formalmente.Obra, estilo e características literárias
Morte e memória Morreu de cancro da laringe em 1933. A sua obra continuou a ser publicada e difundida, consolidando o seu lugar no cânone literário mundial.Poemas
11Ítaca
À espera dos bárbaros
Os Bárbaros, que chegam hoje.
Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?
É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.
Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?
Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.
E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?
Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.
E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?
Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.
Porque, sùbitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?
Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.
E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.
O espelho da entrada
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.
Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.
Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.
Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.
Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.
[1930]
O deus abandona Antônio
passar, invisível, um tíasos
com música soberba e cânticos,
a sorte que afinal te abandona, tuas obras
falidas, teus planos de vida
– tudo ilusório – com nênias vãs não lastimes.
Como um bravo que, há muito, já se preparava,
saúda essa Alexandria que te está fugindo.
Não, não te deixes burlar, dizendo: “foi sonho”,
ou: “meus ouvidos me enganaram”;
desdenha essa esperança vã.
Como um bravo que, há muito, já se preparava,
como convém a quem é digno desta pólis,
aproxima-te – não hesites – da janela
e escuta comovido, porém
sem pranto ou prece pusilânime,
como quem frui de um último prazer, os sons,
os soberbos acordes do místico tíasos:
e saúda Alexandria, enquanto a estás perdendo.
A Bordo
retrato dele, a lápis.
Feito num momento, no convés do barco,
numa tarde encantadora.
O mar da Jónia a rodear-nos.
Parece-se com ele. Não era ele mais belo?
Sensível era a ponto de sofrer -
o que seu rosto iluminava.
Mais belo me aparece, agora que,
fora do Tempo, eu o recordo n'alma.
Fora do Tempo. Tudo isto é muito antigo -
o desenho, e o navio, e o entardecer.
[1919]
Canção da Jónia
porque os expulsámos dos seus templos,
não morreram, não, os deuses.
A ti, terra da Jónia, ainda eles amam,
e em suas almas sempre te recordam.
Quando a manhã de Agosto é alvorada em ti,
passa em teu ar um ardor dos deuses vivos;
e às vezes uma etérea forma juvenil,
indefinida, em trânsito subtil,
teus montes sobrevoa.
[1911]
Ítaca
A Origem
Ergueram-se ambos do catre humilde.
À pressa se vestiram, sem falar.
Saíram separados, furtivamente;
e, ao caminhar inquietos pela rua,
como que receavam que algo neles traísse
em que espécie de amor há pouco se deitavam.
Mas quanto assim ganhou a vida do poeta!
Amanhã, depois, anos depois, serão
escritos os versos de que é esta a origem.
[1921]
Nos Arrabaldes de Antióquia
com as últimas façanhas de Juliano.
Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.
Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória -
Babilas, santo e triunfante mártir.
O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)
O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."
E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.
A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.
Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr -
- que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.
[1933]
NUM LIVRO VELHO
Num livro velho - mais ou menos de há cem anos -
por entre as suas folhas esquecida,
encontrei uma aguarela sem assinatura.
Devia ser a obra de artista assaz forte.
Levava por título, «Apresentação do Amor».
Mas antes lhe convinha, «- do amor dos ultra estetas».
Pois era evidente quando se via a obra
(com facilidade se sentia a ideia do artista)
que para quantos amam um tanto higienicamente,
mantendo-se dentro do permitido de todas as maneiras,
não era destinado o adolescente
da pintura - com olhos castanhos de cor profunda;
com a beleza selecta do seu rosto,
a beleza das atracções perversas;
com os seus lábios ideais que levam
o prazer a um corpo amado;
com os seus membros ideais moldados para leitos
a que chama depravados a moral corrente.
Videos
50
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.