Lista de Poemas

Hipótese de Maio

Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.

1 014

Recém-casado

É pelos corpos que nos perdemos
de nós mesmos, para nos ganharmos.
É pelos beijos que nos despedimos
para nos encontrarmos pelos olhos.
É pela pele que escaldamos
o que em nós havia de secreto:
e é o nosso corpo entregue um corpo
estranho
pois pertence só a quem amamos
por quem morosamente devassamos
o alheamento da carne -
o barqueiro, o pastor que a atravessa
num profundo arremesso vagaroso
levantando ondas, ondas, ondas e
ervas
a subir e descer vagas e montes
levando-me com ele à raia clara
onde água a quebrar-se eu me
constele
na sua barca, conduzida à praia.

1 055

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Lélia Coelho Frota foi uma proeminente antropóloga, escritora e pesquisadora brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro e dedicou grande parte de sua vida ao estudo e à produção intelectual no Brasil. Sua obra é fundamental para a compreensão de temas relacionados à antropologia social, cultura brasileira, estudos de gênero e representações sociais. A língua em que produziu a maior parte do seu trabalho foi o português.

Infância e formação

Lélia Coelho Frota formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e posteriormente obteve o título de Doutora em Antropologia Social pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Sua formação acadêmica sólida, aliada a um olhar aguçado sobre a realidade brasileira, moldou sua trajetória intelectual e sua produção científica e literária.

Percurso literário

O percurso literário de Lélia Coelho Frota é intrinsecamente ligado à sua atuação como antropóloga. Seus livros, embora muitas vezes classificados como ensaios acadêmicos, possuem uma qualidade literária notável, com uma linguagem envolvente e uma profunda capacidade de análise. Ela publicou obras que se tornaram referências em seus campos de estudo, abordando temas de forma inovadora e provocativa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Lélia Coelho Frota abrange temas como a imagem do corpo feminino na mídia, as representações sociais, a cultura popular brasileira e as manifestações culturais. Seu estilo é caracterizado pela erudição, clareza expositiva e uma forte capacidade de articulação entre o pensamento antropológico e a crítica social. Utiliza recursos como a análise de discursos, a interpretação de imagens e a contextualização histórica para desvendar as complexidades das sociedades que estuda. Uma de suas obras mais emblemáticas é "O Brilho das Próprias Estrelas", na qual discute a representação da mulher no cinema e na cultura de massa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Lélia Coelho Frota produziu sua obra em um período de intensas transformações sociais e culturais no Brasil, marcado por debates sobre identidade nacional, representatividade e os estudos de gênero. Sua pesquisa se insere em um contexto de expansão das ciências humanas no país e de uma crescente crítica às visões hegemônicas sobre a sociedade brasileira. Ela dialogou com outros intelectuais e pesquisadores de sua geração, contribuindo para a renovação do pensamento antropológico e social no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de Lélia Coelho Frota, como detalhes de sua vida familiar ou relações interpessoais específicas, não são o foco principal de sua biografia pública, que tende a se concentrar em sua produção acadêmica e literária. Contudo, é sabido que sua dedicação à pesquisa e ao estudo da cultura brasileira foi uma marca de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lélia Coelho Frota obteve reconhecimento significativo no meio acadêmico e entre críticos literários por sua contribuição para a antropologia social e os estudos culturais no Brasil. Suas obras são frequentemente citadas e utilizadas em cursos universitários e pesquisas, consolidando sua importância como intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra é influenciada por correntes da antropologia social e pelos estudos culturais, assim como pela crítica feminista. O legado de Lélia Coelho Frota reside na profundidade de suas análises sobre a cultura brasileira, especialmente no que diz respeito às questões de gênero e representação, abrindo caminhos para novas pesquisas e debates.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Lélia Coelho Frota tem sido objeto de análise crítica que ressalta sua capacidade de desmistificar representações sociais e culturais, especialmente aquelas relacionadas ao universo feminino. Suas contribuições permitem compreender as complexas relações de poder e as construções de identidade na sociedade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspecto interessante da sua atuação é a forma como ela transita entre o rigor acadêmico e uma escrita acessível e cativante, tornando temas complexos compreensíveis para um público mais amplo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Lélia Coelho Frota faleceu em 2020. Sua memória é preservada através de sua vasta obra, que continua a inspirar e a orientar estudos sobre a cultura e a sociedade brasileira.