Léopold Sédar Senghor

Léopold Sédar Senghor

1906–2001 · viveu 95 anos SN SN

Léopold Sédar Senghor foi um poeta, escritor e político senegalês, conhecido como um dos maiores intelectuais africanos do século XX. Foi um dos fundadores do movimento da Negritude, que celebrava a identidade cultural africana e a herança negra. A sua obra poética é marcada por uma profunda musicalidade, influências da tradição oral africana e da poesia francesa, explorando temas como a terra natal, a identidade africana, o amor e a espiritualidade. Senghor desempenhou um papel crucial na independência do Senegal e tornou-se o seu primeiro presidente, liderando o país durante mais de duas décadas. Como estadista, promoveu a cooperação cultural entre a África e a Europa e defendeu uma visão de civilização universal. A sua vasta obra literária e o seu legado político fazem dele uma figura de relevo incontornável na história de África e na literatura mundial.

n. 1906-10-09, Joal-Fadiout · m. 2001-12-20, Verson

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Máscara negra

a Pablo Picasso

Ela dorme e repousa sobre a candura da areia
Kumba Tam dorme. Uma palma verde vela a febre dos cabelos, a fronte curva cobre
As pálpebras fechadas, corte duplo e fontes seladas.
Esse estreito crescente, este lábio mais negro e até pesado
– onde o sorriso da mulher cúmplice?
As patenas das faces, o desenho do queixo cantam o acordo mudo.
Rosto de máscara fechado ao efêmero, sem olhos sem matéria
Cabeça de bronze perfeita e sua pátina de tempo
Que não suja ruge nem rubor nem rugas, nem marcas de lágrimas nem de beijos
Oh rosto tal como Deus te criou antes da própria memória das eras
Rosto do amanhecer do mundo não te abra como um colo terno para emocionar a minha carne.
Eu te adoro, oh Beleza, com meu olho monocórdio!

(tradução de Leo Gonçalves)

:

Masque nègre
a Pablo Picasso

Elle dort et repose sur la candeur du sable.
Koumba Tam dort. Une palme verte voile la fièvre des cheveux, cuivre le front courbe
Les paupières closes, coupe double et sources scellés.
Ce fin croissant, cette lèvre plus noire et lourde à peine
– où le sourire de la femme complice?
Les patènes des joues, le dessin du menton chantent l’accord muet.
Visage de masque fermé à l’éphémère, sans yeux sans matière
Tête de bronze parfaite et as patine de temps
Que ne souillent fards ni rougeur ni rides, ni traces de larmes ni de baisers
O visage tel que Dieu t’a créé avant la mémoire même des ages
Visage de l’aube du monde, ne t’ouvre pás comme um col tendre pour émouvoir ma chair.
Je t’adore, ô Beauté, de mon oeil monocorde!


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Biografia

Identificação e contexto básico

Léopold Sédar Senghor foi um poeta, escritor, político e estadista senegalês. Nasceu a 9 de outubro de 1906 em Joal, Senegal, e faleceu a 20 de dezembro de 2001 em Verson, França. Foi um dos intelectuais africanos mais influentes do século XX e um dos principais promotores do movimento cultural e ideológico da Negritude. Foi o primeiro presidente do Senegal, cargo que ocupou de 1960 a 1980. Senghor escreveu predominantemente em francês, mas a sua obra está profundamente enraizada na cultura e nas línguas africanas. O contexto histórico em que viveu foi o da descolonização de África e da afirmação da identidade africana no cenário mundial.

Infância e formação

Senghor nasceu numa família cristã sérere, numa região onde o Islão era predominante. A sua origem familiar, embora de uma etnia africana com forte identidade cultural, inseria-se numa sociedade colonial marcada por tensões sociais e culturais. Recebeu uma educação primária numa escola católica e, posteriormente, frequentou o liceu em Dakar, onde se destacou academicamente. Em 1928, partiu para Paris para prosseguir os seus estudos na Sorbonne, onde se licenciou em Letras. Durante a sua formação em França, absorveu influências da literatura clássica francesa, da poesia simbolista e surrealista, e do pensamento filosófico existencialista. Foi em Paris que conheceu Aimé Césaire e Léon-Gontran Damas, com quem viria a fundar o movimento da Negritude.

Percurso literário

O início da escrita de Senghor remonta à sua juventude, mas foi em Paris, durante os anos 30, que o seu percurso literário se consolidou. Publicou os seus primeiros poemas em revistas literárias francesas, como a *Esprit*. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, passando por diferentes fases, mas mantendo sempre uma forte ligação com a identidade africana e a sua herança cultural. A sua obra poética principal inclui "Chants d'ombre" (1945), "Hosties noires" (1948), "Éthiopiques" (1956) e "Paroles poétiques" (1961). Para além da poesia, Senghor foi também ensaísta e político, e a sua atividade literária esteve intrinsecamente ligada à sua luta pela independência e pela afirmação da África.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Senghor é caracterizada pela celebração da beleza e da riqueza da cultura africana, a exploração da identidade negra, o amor, a terra natal e a espiritualidade. Os temas dominantes incluem a diáspora africana, a saudade da terra, a reconciliação entre África e o Ocidente, e a afirmação da dignidade humana. Formalmente, Senghor combinou elementos da poesia tradicional africana, com a sua musicalidade e oralidade, com as formas poéticas ocidentais, como o verso livre e, por vezes, o soneto. Utilizou recursos poéticos como a metáfora, o ritmo e a musicalidade de forma proeminente, criando uma linguagem densa e imagética. O tom da sua poesia é frequentemente lírico, elegíaco e, por vezes, épico, transmitindo uma voz poética que é simultaneamente pessoal, universal e profundamente enraizada na sua identidade africana. A sua linguagem é erudita, mas acessível, e o seu estilo procura a harmonia e a beleza. Senghor é associado ao movimento da Negritude, mas também dialogou com o Surrealismo e o Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Léopold Sédar Senghor viveu num período crucial da história, marcado pela Segunda Guerra Mundial, pela luta anticolonial e pela descolonização de África. Como político, foi uma figura central na luta pela independência do Senegal e um dos principais expoentes do panafricanismo. Pertenceu a uma geração de intelectuais africanos que procuraram definir e afirmar a identidade cultural africana face ao domínio colonial. A sua obra reflete as tensões e os diálogos entre a cultura africana e a cultura ocidental, e a sua posição política foi sempre a de defender a dignidade e a igualdade dos povos africanos. A sua relação com outros escritores e intelectuais da época, como Aimé Césaire e Léon-Gontran Damas, foi fundamental para o desenvolvimento do movimento da Negritude. A sua influência estendeu-se para além da literatura, impactando a política e a diplomacia africana.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Senghor foi marcada pela sua dedicação à escrita, à política e à família. Casou-se três vezes e teve filhos, que foram uma fonte de inspiração. As suas amizades com outros intelectuais e artistas foram importantes para a sua formação e para o desenvolvimento das suas ideias. Senghor foi um homem de profunda fé e espiritualidade, o que se reflete na sua obra. A sua carreira política exigiu grandes sacrifícios pessoais, mas ele sempre soube conciliar as suas responsabilidades de estadista com a sua paixão pela poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Léopold Sédar Senghor obteve um vasto reconhecimento nacional e internacional. Foi laureado com inúmeros prémios e distinções, incluindo o Prémio da Academia Francesa e o Prémio Goethe. A sua obra poética foi traduzida para diversas línguas e ele é considerado um dos maiores poetas de língua francesa do século XX. A sua popularidade como líder político contribuiu para a difusão da sua obra literária, e o seu reconhecimento académico é incontestável. Foi eleito para a Academia Francesa em 1983, sendo o primeiro africano a integrar esta prestigiada instituição.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Senghor foi influenciado pela poesia francesa clássica e moderna, em particular por poetas como Baudelaire, Rimbaud e os surrealistas. Recebeu também influências da tradição oral africana e da filosofia africana. O seu legado é imenso, tanto na literatura como na política. A Negritude, movimento que ajudou a fundar, teve um impacto profundo na afirmação da identidade africana e na luta contra o racismo. Os poetas e escritores africanos e da diáspora negra que o sucederam foram influenciados pela sua obra e pelo seu pensamento. Senghor é considerado um dos fundadores da literatura africana moderna e a sua obra continua a ser estudada e a inspirar novas gerações.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Senghor tem sido objeto de inúmeras interpretações críticas. Alguns analisam-na sob a perspetiva da Negritude, destacando a sua importância na afirmação da identidade negra. Outros focam-se na sua dimensão universalista, na sua busca por uma civilização mundial que integre as diferentes culturas. A sua relação com a França e com a cultura ocidental tem sido também um tema recorrente de análise, explorando a complexidade da sua identidade e da sua obra. As suas posições políticas e a sua relação com o poder também geraram debates.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua faceta de poeta e estadista, Senghor era também um apaixonado pela música e pelas artes. Tinha um profundo conhecimento da cultura africana e europeia. Uma curiosidade é que, apesar de ser o primeiro presidente do Senegal, manteve sempre uma forte ligação com a sua aldeia natal, Joal. Os seus hábitos de escrita eram regulares, dedicando tempo à poesia mesmo durante os seus mandatos presidenciais. Há registos de que escrevia em cadernos, por vezes à mão, e que revia os seus poemas com grande cuidado.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Léopold Sédar Senghor faleceu pacificamente na sua residência em Verson, França, em 2001, aos 95 anos. A sua morte foi lamentada em todo o mundo, especialmente em África. Após a sua morte, a sua obra continuou a ser publicada e estudada. A sua memória é celebrada através de instituições, prémios e eventos que levam o seu nome, perpetuando o seu legado como poeta, intelectual e líder político.

Poemas

3

Máscara negra

a Pablo Picasso

Ela dorme e repousa sobre a candura da areia
Kumba Tam dorme. Uma palma verde vela a febre dos cabelos, a fronte curva cobre
As pálpebras fechadas, corte duplo e fontes seladas.
Esse estreito crescente, este lábio mais negro e até pesado
– onde o sorriso da mulher cúmplice?
As patenas das faces, o desenho do queixo cantam o acordo mudo.
Rosto de máscara fechado ao efêmero, sem olhos sem matéria
Cabeça de bronze perfeita e sua pátina de tempo
Que não suja ruge nem rubor nem rugas, nem marcas de lágrimas nem de beijos
Oh rosto tal como Deus te criou antes da própria memória das eras
Rosto do amanhecer do mundo não te abra como um colo terno para emocionar a minha carne.
Eu te adoro, oh Beleza, com meu olho monocórdio!

(tradução de Leo Gonçalves)

:

Masque nègre
a Pablo Picasso

Elle dort et repose sur la candeur du sable.
Koumba Tam dort. Une palme verte voile la fièvre des cheveux, cuivre le front courbe
Les paupières closes, coupe double et sources scellés.
Ce fin croissant, cette lèvre plus noire et lourde à peine
– où le sourire de la femme complice?
Les patènes des joues, le dessin du menton chantent l’accord muet.
Visage de masque fermé à l’éphémère, sans yeux sans matière
Tête de bronze parfaite et as patine de temps
Que ne souillent fards ni rougeur ni rides, ni traces de larmes ni de baisers
O visage tel que Dieu t’a créé avant la mémoire même des ages
Visage de l’aube du monde, ne t’ouvre pás comme um col tendre pour émouvoir ma chair.
Je t’adore, ô Beauté, de mon oeil monocorde!


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eu imagino ou sonho de menina

imagino que você está ali
tem o sol
e este pássaro perdido de trinado tão estranho
diríamos uma tarde de verão
clara. sinto que estou ficando tola, tão tola
tenho imenso desejo de me deitar entre o feno,
com manchas de sol sobre a pele nua
asas de borboleta em largas pétalas
e toda espécie de insetos do planeta
ao meu redor
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Je m’imagine (Rêve de jeune fille)
Léopold Sédar Senghor
Je m’imagine que tu es là.
Il y a le soleil
Et cet oiseau perdu au chant
Si étrange.
On dirait une après-midi d’été,
Claire. Je me sens devenir sotte, très sotte.
J’ai grand désir ‘être couchée dans les foins,
Avec des taches de soleil sur ma peau nue,
Des ailes de papillons en larges pétales
Et toutes sortes de petites bêtes de la terre
Autour de moi.
1 331

Pérolas

pérolas brancas
lentas goteletas
goteletas de leite fresco,
luzinhas fugitivas ao longo dos fios do telégrafo,
ao longo dos longos dias monótonos e grises!

a qual paraíso? a qual paraíso?
luzinhas primeiras da minha infância
jamais reencontrada...

:

perles

perles blanches,
lentes gouttelettes,
gouttelettes de lait frais,
clarets fugitives le long des fils télégraphiques,
le long des longs jours montones et gris!

à quel paradis? à quel paradis?
clartés premières de mon enfance
jamais retrouvée...)
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Comentários (1)

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Carlos Silva

A poesia de Senghor deveria estar emitidas as salas de aulas do mundo. No nosso programa, exibido pelo nosso canal YARDE COM POESIA que vai ao ar as segundas e quintas pelo YouTube a partir das 16:00 horas, Apresentei três poesias dele, inclusive, AO MEU IRMAO BRANCO. 75 99838 5777