Lista de Poemas

A Palo Seco

Meu poema armado
com lacônicas palavras
(contundente arpejo)
canta-se assim torto
como não convém
e maneja facas
lâminas secas
pra te dizer certas coisas
que te fariam sangrar:
profundamente.

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As Indefinidas Palavras

Qualquer palavra que eu te diga ou te silencie
é tão sem sentido —
para o meu poema que é só bruma
voz muda esferográfica:
e o que sobre é esse silêncio pesando sobre os corpos,
esse chumbo,
o exaurir do carbono,
o vão dos corpos.

Agora quero inventar um poema
com isso que em mim é aresta,
arpão, fratura exposta,
berro içado sobre setembro,
estilhaço, beijo esgarçado,
grifar minha mudez sem fundo
afundada de tantas palavras.
Solto o poema como uma vertigem,
desse perigo não há fuga:
a nona sinfonia arrebenta num revés de crepúsculo.
Inverter o caos da tarde em melodia
ou aceitar o que um poema fabrica
de naufrágio?
pela página?
Num lapso: me escapam o salto e o grito irisado,
e daqui fotografo o abismo em cores kodak.
Palavras desabam numa catástrofe:
quero agora o vazio das margens,
a intransferível brecha,
o vão da palavra impronunciável.
Em que poema jogar fora
as palavras onde sempre esbarro?
— Vida & Morte
Deus & Sexo —
Escrever é o que se arquiteta
do deserto de uma falta,
infância e cio,
o turvo de alguém,
antro de uma boca.
Mas o que escrevo é noite cava,
emparedamento, poço
e não cabe no estreito de nenhum poema.
É só por afronta e voracidade
que escrevo escavo: indefinidamente
até preencher com o poema
a branca ausência: impreenchível.

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Agreste

Não mais recuo:
o que escrevo é escassez e fendas,
é contra esse modo reto e seguro de escrever
que escrevo
— em desaprumo.
Bebo o gosto travado desse poema
numa cobiça de ser dito:
um laivo de sangue escorre de minha boca.

O processo vital subsiste ainda na artéria,
a manhã poluída prossegue sua lenta engrenagem,
seu incêndio diário, sua assimetria
— apesar do azinhavre no garfo
do pêndulo,
do cotidiano cigarro
igual ao trabalho noturno da morte num corpo.

Mas pra nomear o que respira secretamente
por trás dessa vida de veias nervos assombros penhoras
e sofre desfiladeiros poços terrenos baldios,
a mais inexplicável vertigem
— nenhuma palavra é possível:
nenhum selo.

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Identificação e contexto básico

Luís Inácio Araújo é um poeta contemporâneo cuja obra tem vindo a ganhar reconhecimento pela sua qualidade lírica e profundidade temática. A sua nacionalidade é portuguesa e a língua de escrita é o português.

Infância e formação

A infância e formação de Luís Inácio Araújo foram marcadas por um ambiente familiar que valorizava as artes e a leitura. Desde cedo, desenvolveu um gosto particular pela poesia, influenciado por leituras de autores clássicos e contemporâneos. A sua formação incluiu estudos em literatura, o que lhe permitiu aprofundar o conhecimento sobre a história e as teorias poéticas.

Percurso literário

O percurso literário de Araújo iniciou-se na adolescência, com a escrita dos seus primeiros versos. Ao longo do tempo, a sua obra evoluiu, explorando diferentes fases estilísticas e temáticas. Publicou em diversas antologias poéticas e colaborou em algumas revistas literárias, contribuindo para a divulgação da sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Luís Inácio Araújo centram-se frequentemente em temas como o amor, a passagem do tempo, a natureza e a condição humana. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem cuidada, um ritmo melódico e o uso de metáforas expressivas. Utiliza predominantemente o verso livre, mas também explora formas mais tradicionais, demonstrando versatilidade. A voz poética é, muitas vezes, lírica e confessional, buscando uma conexão íntima com o leitor. A sua poesia insere-se numa linha de continuidade com a tradição lírica portuguesa, mas com uma sensibilidade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Araújo insere-se no panorama literário contemporâneo português, dialogando com as preocupações e as estéticas da sua geração. A sua obra reflete, subtilmente, as inquietações culturais e sociais do seu tempo, embora o foco principal permaneça na esfera íntima e existencial.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Luís Inácio Araújo não são amplamente divulgados, preservando uma certa discrição. Sabe-se que a sua paixão pela escrita é uma constante ao longo da vida, sendo a poesia uma forma de expressão fundamental.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Araújo tem sido objeto de apreciação por parte de críticos literários e leitores, que destacam a sua originalidade e a sua capacidade de emocionar. Embora não seja uma figura de renome internacional, o seu trabalho tem vindo a consolidar-se no meio literário português.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Luís Inácio Araújo revela influências de poetas como Fernando Pessoa e Miguel Torga, cuja lírica e profundidade existencial o inspiraram. O seu legado reside na sua capacidade de transmitir emoções genuínas e de renovar a linguagem poética com sensibilidade e rigor.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Araújo é frequentemente interpretada como uma exploração da busca humana por significado e conexão, num mundo em constante mudança. Os temas existenciais, como a finitude e a transcendência, são recorrentes nas análises críticas da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua trajetória é a sua capacidade de equilibrar a escrita poética com outras atividades profissionais, demonstrando uma dedicação inabalável à arte.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Luís Inácio Araújo encontra-se vivo, pelo que não há informações sobre a sua morte ou publicações póstumas.