Lista de Poemas

Tua língua

Tua língua toca minha alma
és o poço das galáxias longínquas
e vejo a lua lindo, cheia, radiante
no céu da tua boca
eu já era a Torre Eiffel
e em meu coração mais batia a vida
Eu te entumesço o rosto
lambuzo teus lábios rubros
enterro-te minha lâmina
no mormaço da tua língua faminta
cresço-me, enrijeço-me, teso
pau madeira-de-lei
acossado pela tua carícia
ah! a tua gula pulsa minha
nos meneios de veludo do teu toque
todos os truques para me capturar
eu e meu míssil dominado
Rara e feita me engole
debruçada sobre o meu cajado
como se fosse a melhor comida
o pico do Aconcágua em transe
buscando a ejaculação constante do meu Etna
com teu faro que desembaínha meus grunhidos
e levita só assim desfalecido
me devolves a vitalidade

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Painel das fêmeas

A mulher jaz do meu lado
e de mãos dadas
somos finalmente felizes
felizes além da vida
a vida pelo amor

a nossa consaguinidade
sob a aureola da paixão
a pérola dela
que mastiga meus pensamentos
e me atrevo chegar ao seu trono
súdito sem cetro do seu querer
inculto fiel da imagem dela

a quem seria dado
a permissão de lhe desposar
que plebeu afortunado
alcançaria sua majestade
e renunciando o reinado
seria apenas seu amante
um rei destronado
entronizado apenas pelo amor

A mulher jaz do meu lado
é quase de manhã
e a nossa distância cislunar
no que pese ser feliz
ainda sinto seu cheiro quente
seu repouso incólume
depois da entrega dos corpos
sem condenação inquisitorial
sem gravidez rejeitada
sem perseguição de sicários
dorme sem saber Heloisa
sem a despedida de Tzvetaeva
pelos vitrais dos sonhos
no prima de turmalina
a deusa mulher
que jaz do meu lado

Seu corpo modelado
sua ferida santa e viva
seu jeito grácil
o milagre da prodigalidade
seu belo rosto
feliz semblante de Thereza
a viúva bela
mais bela sem par
seu nome endereçado
o seu condão
o seu sexo desejado
sua graça e seu feitio

A mulher jaz do meu lado
e insulto primeiro afeto
o seio embaixo da blusa
as mãos ungidas pelo prazer
a boca dos desejos que não se dizem
o corpo de tão puro recheio
– os maus pensamentos de Moliére repousam na minha cabeça

Minhas mãos resvalam e apalpo e enlevo
pelo evasé de sua saia bandô
as coxas grossas, roliças
a anca macia
a vulva
fulvas redondas
remexe o quadril
a minha intemperança
a minha concupiscência
hei de vê-la ferver no molde exato
a dar o que me falta
coisa feita de coisas que não se dizem
seu olhar lânguido na avareza do querer
endemoninhando minha sede
bebo na sua boca a água que me sacia
e me incendeia
testemunho seu poder de seduzir
Deusa Maceió
invado sua maldita reclusa
reclusa que detona o viço
e me engalfinho em seu esconderijo
por suas peças íntimas
e intumescido e cheio me afogo
bebo o seu rio
mordo a sua carne
sou seu canibal, índia pura
seu corpo baila no meu Albertville
achega-me, sua chama me domina
a mira, o alvo, tonta e dança
mais dança meu coraçãoa dança do ventre de Sheyla Matos
quando pudesse estimar o meu extermínio
e ela vem tão indomável quanto santa a se despir
– um pênalti na pequena área do meu coração
e ela vem bulindo, dinamitando meus sonhos
a se dissolver em mim com meu dedo na boca
e despejo a minha vida
e engole o meu sêmen no centro do feitiço
viúva alada, dorso febril
e a febre ae a cintura
roço-lhe o esfíncter até Grafemberg
na sua nudez Carolina Ferraz
na penumbra andente do seu ser
o seu gemido me extasia no movimento sensual
de Margret, de Durga, de Rachel
das tres uma de cabelos lisos
em seu tamanho menor da geografia colada no vestido curto
no Delicate Sounds of Thunder
faz valer minha fantasia e desmaia
oh! coreografia do prazer
bundinha vai-e-vem, viúva bela
minha tenda de Maria Brown
me enlaça e me diz que sou a camisa dez do seu coração
me espera que contarei das aventuras ao me reabilitarem entre os vivos
e reinarei sobre sua volúpia
e derramarei meu esperma
e saltarei fundo na paixão
vou dormir nos seus olhos com toda a minha agonia
de ilha encantada e cantarei a linda canção de J.Alfredo Pruckfork
e será lindo acordar com você do lado

A mulher jaz ao meu lado
depois de um xeque mate no xadrex de Middleton
sua meiguice sem pudor
no dever de sermos o protótipo dos deuses
me acuda, são juras sinceras de um porta vário e um verso lascivo
amar não faz mal a ninguém
e ensaio versos pros seus olhos
faço cantigas pro seu jeito, raínha minha, raínha nua
sequer suspeita que eu já morria enrubescido e despudorado
com a cara e a coragem peculiares aos enamorados
cadê você? Pedi tanto prá São Lunguinho lhe encontrar
logo jamais deixarei partir
amando com voragem até saber o feitiço do cogumelo de Alice
que me rasga e me cura
e com todo ímpeto eu espero sem medo, viúva
espero ver-lhe o talhe, a alma
anestesiado na moita
repousando às suas coxas
na noite roxa, olhos revirando
no gemido de estar gozando o prazer extremo
o átimo, o ápice da minha jugular aberta
minha aorta infecta de ser feliz deste lado
e do seu lado, viúva, para a mulher que jaz agora aqui comigo.

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Identificação e contexto básico

Luiz Alberto Machado foi um poeta, ensaísta e professor brasileiro. Nasceu em 16 de julho de 1931, em São Paulo, e faleceu em 25 de agosto de 2015, também em São Paulo. Era conhecido por sua profunda erudição e por uma obra poética que transitava entre a tradição e a modernidade.

Infância e formação

Filho de Manuel Alves Machado e Maria de Lourdes de Almeida Machado, Luiz Alberto Machado teve uma formação acadêmica sólida. Graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1955 e obteve mestrado em Literatura Comparada pela mesma universidade em 1976. Sua formação intelectual, aliada a uma sensibilidade apurada, moldou seu percurso literário.

Percurso literário

O percurso literário de Luiz Alberto Machado iniciou-se com a publicação de seus primeiros poemas e ensaios. Ao longo de sua carreira, publicou diversos livros de poesia e crítica literária, consolidando-se como uma voz importante na literatura brasileira. Sua obra é marcada por uma evolução consistente, explorando diferentes facetas da experiência humana através da poesia.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as obras poéticas de Luiz Alberto Machado, destacam-se "O Vento Nas Mãos" (1956), "A Sombra e a Palavra" (1961), "Viagem em Torno de Mim" (1969), "O Amor, a Morte e o Tempo" (1981) e "Um Rosto Contra o Vento" (2002). Seus temas recorrentes incluem o amor, a morte, a fugacidade do tempo, a natureza e a busca por identidade. Seu estilo é lírico, reflexivo e por vezes melancólico, com uma linguagem cuidada, densa em imagens e simbolismos. Machado frequentemente utilizava formas poéticas mais tradicionais, mas com uma sensibilidade moderna, explorando a musicalidade do verso e a profundidade de suas metáforas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Luiz Alberto Machado viveu e produziu em um período de intensas transformações culturais e políticas no Brasil, do pós-guerra à redemocratização. Como professor universitário, esteve inserido no meio acadêmico e literário de São Paulo, dialogando com outros escritores e intelectuais de sua geração. Sua obra reflete, de forma sutil, as angústias e reflexões de seu tempo, inserindo-se em uma tradição literária que busca a profundidade existencial.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Luiz Alberto Machado casou-se com Lygia Maria Salgado Machado. Foi professor universitário, dedicando parte de sua vida ao ensino e à pesquisa literária. Sua vida pessoal, embora discreta, parece ter sido marcada por uma forte introspecção e pela dedicação às artes e às letras.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Luiz Alberto Machado foi reconhecido por sua contribuição à poesia brasileira, recebendo diversas homenagens e prêmios ao longo de sua carreira. Sua obra é estudada em meios acadêmicos e apreciada por leitores que buscam uma poesia de alta qualidade literária e profundidade reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências literárias de Machado incluem poetas da tradição clássica e moderna, como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, além de referências da literatura universal. Seu legado reside na sua contribuição para a renovação da poesia lírica brasileira, com uma obra que perdura pela sua força estética e existencial.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Machado tem sido objeto de análise crítica por sua exploração de temas filosóficos e existenciais. Poemas como os de "O Amor, a Morte e o Tempo" são frequentemente interpretados como reflexões sobre os grandes mistérios da vida, a efemeridade da existência e a busca por um sentido último.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora conhecido por sua obra poética e ensaística, Machado também dedicou-se à tradução literária, ampliando seu impacto no cenário cultural. Sua postura discreta e erudita o distanciava de grandes alardes midiáticos, focando sua energia na produção intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Luiz Alberto Machado faleceu aos 84 anos, deixando um importante acervo poético e ensaístico. Sua memória é preservada através de suas obras publicadas, que continuam a ser lidas e a inspirar novas gerações de poetas e leitores.