Luiz Augusto Kehl

Luiz Augusto Kehl

Luiz Augusto Kehl foi um poeta brasileiro cujas obras exploraram profundamente a condição humana, os dilemas existenciais e a beleza efêmera do mundo. Sua poesia é marcada por uma linguagem acessível, porém carregada de simbolismo, que convida o leitor a uma reflexão íntima sobre a vida, o amor e a passagem do tempo. Kehl transitou entre temas universais e a particularidade da experiência individual, construindo um legado poético que ressoa pela sua sensibilidade e profundidade.

n. , Araraquara, São Paulo, Brasil

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O Fantasma

Olhar branco que teu ficara numa cara sem fundo
duma carne sem peso como a lua,
carne tua branca na memória tocada
por uma língua sem gosto no beijo chupado
etéreo pairando no lábio murcho da lembrança,
toda a realidade que foste tornada
no tom mais claro do pálido
e a luz de uma vela que eu não acendia
e o fogo morto do teu sexo enterrado
nalgum passado remoto
em outras noites, que eu chorara outrora,
natureza morta,
tu como todas as outras,
tu como a primeira professora,
tu como a foto sépia da coisa um dia tida,
ou aquele dia na infância um dia,
ou aquela praça sonhada, a língua mamada da namorada cega,
saliva passada como água de rio,
como rio, tudo, indo, tu náufraga corrente,
vendo-te eu te tornares água, onda, marola, espuma, nada,
apenas ida, afogada em teus cabelos de yara,
teu canto doce apagando-se sob o muzak dos novos dias,
tu, fantasma tantas vezes inacabado,
roçando-me a pele num hálito gelado e transparente,
brisa tremulante, ar
que reverbera e não se vê, seda sem vida,
tu -- viva ainda nalguma parte e que há de estar sorrindo--
viúvo de ti morta em mim te beijo o quadro rasgado
e olho no papel amarelo rabiscado teu telefone
lentamente desbotando
e me despeço de ti para sempre em tua campa sem esperança
plantada perenemente em minha alma,
e juro-te que virei visitar-te, minha querida,
sempre, sempre, todo dia.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Luiz Augusto Kehl foi um poeta brasileiro, conhecido por sua obra lírica e reflexiva.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância e formação não são amplamente documentadas em fontes públicas, mas sua obra sugere uma profunda imersão na leitura e na reflexão sobre a condição humana.

Percurso literário

O percurso literário de Luiz Augusto Kehl é marcado pela publicação de sua obra poética, que se destaca pela sensibilidade e pela profundidade dos temas abordados. Sua escrita convida à introspecção e à contemplação da vida.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Kehl caracteriza-se por um lirismo introspectivo e existencial. Os temas recorrentes incluem o amor, a efemeridade do tempo, a natureza e a busca por sentido. Sua linguagem poética é ao mesmo tempo clara e evocativa, utilizando metáforas e imagens que ressoam com a experiência humana. A forma poética em sua obra tende a ser acessível, priorizando a comunicação da emoção e da reflexão sobre experimentações formais radicais. O tom predominante é o confessional e o lírico, convidando o leitor a uma jornada interior.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Inserido no contexto literário brasileiro, Kehl dialoga com uma tradição poética que valoriza a expressão íntima e a reflexão sobre a existência. Embora não associado a movimentos literários específicos de forma explícita, sua obra compartilha afinidades com a poesia lírica e existencialista.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre sua vida pessoal são escassos em fontes disponíveis publicamente. Sabe-se que a poesia foi um veículo importante para a expressão de suas reflexões e sentimentos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Luiz Augusto Kehl se manifesta através da apreciação de sua obra poética por leitores que se identificam com a profundidade e a sensibilidade de seus versos. Sua poesia encontra espaço em círculos que valorizam a lírica introspectiva.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Kehl podem ser encontradas na tradição da poesia lírica brasileira e universal, com um foco em autores que exploram temas existenciais. Seu legado reside na capacidade de tocar o leitor com sua visão poética sobre a vida e os sentimentos humanos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Kehl pode ser interpretada como uma meditação sobre a transitoriedade da vida, a busca por conexões autênticas e a beleza encontrada nas coisas simples. A análise crítica pode focar na forma como ele articula a experiência individual com questões universais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações curiosas ou aspetos menos conhecidos sobre Luiz Augusto Kehl não são amplamente divulgados.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre as circunstâncias de sua morte e publicações póstumas não são detalhadas em fontes acessíveis.

Poemas

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O Fantasma

Olhar branco que teu ficara numa cara sem fundo
duma carne sem peso como a lua,
carne tua branca na memória tocada
por uma língua sem gosto no beijo chupado
etéreo pairando no lábio murcho da lembrança,
toda a realidade que foste tornada
no tom mais claro do pálido
e a luz de uma vela que eu não acendia
e o fogo morto do teu sexo enterrado
nalgum passado remoto
em outras noites, que eu chorara outrora,
natureza morta,
tu como todas as outras,
tu como a primeira professora,
tu como a foto sépia da coisa um dia tida,
ou aquele dia na infância um dia,
ou aquela praça sonhada, a língua mamada da namorada cega,
saliva passada como água de rio,
como rio, tudo, indo, tu náufraga corrente,
vendo-te eu te tornares água, onda, marola, espuma, nada,
apenas ida, afogada em teus cabelos de yara,
teu canto doce apagando-se sob o muzak dos novos dias,
tu, fantasma tantas vezes inacabado,
roçando-me a pele num hálito gelado e transparente,
brisa tremulante, ar
que reverbera e não se vê, seda sem vida,
tu -- viva ainda nalguma parte e que há de estar sorrindo--
viúvo de ti morta em mim te beijo o quadro rasgado
e olho no papel amarelo rabiscado teu telefone
lentamente desbotando
e me despeço de ti para sempre em tua campa sem esperança
plantada perenemente em minha alma,
e juro-te que virei visitar-te, minha querida,
sempre, sempre, todo dia.

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Tintim

Entre a noite e a aurora, nalguma hora em que vaga a mente
e vê o que foi sem ter sido,
noutras noites, a bordo daquele cargueiro rangente,
na Filipina distante, ou nalgum porto, no Pacífico imenso,
pedras do calçamento molhado rebrilhantes à luz da lua,
meandros de ruas e casas à fraca vela dos postes,
ninhos de putas às portas dos bares em que nunca estivemos,
sombras e luzes e o girar lento das palmeiras e das pás de vento
pendentes no teto descansando, banhando-se nas fímbrias e nas
réstias
de luz por entre cortinados de bambu, e a fumaça
de milhares de cigarros vagabundos misturando-se
aos perfumes molhados da selva e das veredas tropicais sob as
estrelas;
e embarcávamos resolutos
nalgum navio de ferro e homens suados em que não fomos
tatuados de amor e morte entre calados sábios papagaios,
sinais de rádio e de telégrafo, carcaça balouçante entre as ondas
e o praguejar do cozinheiro, relâmpagos e trovões oceânicos
rugentes
sobre os lamentos cavos das vagas a nos tragar
e a nos vomitar um dia nas calmarias e no sal do mar, a nós
inebriados do sal lambido dos sovacos das cadelas das bairas dos
cais
a naufragar-nos dentro da goela macia da baleia, entranhas
de mobydick e matahari, sexo dos contrabandistas e dos piratas
e nada além de uma página de pergaminho virada encharcada
coberta de nada, e significando tudo.

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