Lya Luft

Lya Luft

1938–2021 · viveu 83 anos BR BR

Lya Luft foi uma escritora, tradutora e lexicógrafa brasileira de origem alemã, conhecida por sua vasta obra literária e ensaística. A sua escrita, marcada pela inteligência, pela profundidade psicológica e por uma prosa envolvente, abordou temas como as relações familiares, a condição feminina, a memória e a identidade. Como tradutora, teve um papel fundamental na divulgação da literatura em língua alemã no Brasil. A sua obra, que inclui romances, contos e ensaios, reflete uma perspetiva crítica e uma profunda sensibilidade para as complexidades da vida humana. Faleceu em 2018, deixando um legado intelectual e literário significativo.

n. 1938-09-15, Santa Cruz do Sul · m. 2021-12-30, Porto Alegre

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Mirada Secreta

Foram-se
os amores que tive
Ou me tiveram. Partiram
Num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
A não acreditar na morte
Nem demais na vida: cultivo
Segredos num jardim
Onde estamos eu, os sonhos idos,
Os velhos amores e os seus recados,
E os olhos deles que ainda brilham
Como pedras de cor entre as raízes.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Lya Luft, nascida como Hedwig Margarethe Guttman, foi uma escritora, tradutora e lexicógrafa brasileira. Nasceu em Balneário Camboriú, Santa Catarina, em 14 de dezembro de 1938, e faleceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 30 de dezembro de 2018. Originária de uma família judia alemã que emigrou para o Brasil antes da Segunda Guerra Mundial, Lya Luft cresceu num ambiente bilíngue e cosmopolita, o que influenciou a sua formação e a sua obra. Sua nacionalidade era brasileira, mas a língua alemã foi fundamental na sua infância e juventude, sendo o português a língua da sua escrita literária e ensaística. Viveu num período de importantes transformações sociais e políticas no Brasil, desde a ditadura militar até à redemocratização.

Infância e formação

A infância de Lya Luft decorreu em Santa Catarina e, posteriormente, no Rio Grande do Sul. O ambiente familiar, com fortes laços com a cultura alemã, proporcionou-lhe um contacto precoce com a literatura e a língua alemã. Foi educada no Brasil, tendo mais tarde concluído o curso de Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Obteve o grau de mestra em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorou-se em Linguística pela UFRGS. O seu percurso académico e a sua imersão em diferentes culturas e línguas moldaram a sua visão crítica e a sua capacidade analítica.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se através da tradução. Lya Luft tornou-se uma das mais importantes tradutoras de língua alemã para o português, vertendo para o Brasil obras de autores como Günter Grass, Franz Kafka, Bertolt Brecht, Thomas Mann, entre outros. A sua entrada na escrita de ficção ocorreu mais tarde, com a publicação do seu primeiro romance, "O Fugitivo" (1979). Ao longo das décadas seguintes, consolidou-se como romancista, contista e cronista, explorando temas de grande profundidade humana. Paralelamente à sua obra literária, desenvolveu uma intensa atividade ensaística, comentando a realidade social, política e cultural do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Lya Luft abrange romances, contos, crónicas e ensaios. Entre os seus romances mais importantes destacam-se "O Fugitivo" (1979), "A Asa de Arara" (1985), "O Silêncio dos Amantes" (1991) e "O Vento Leste" (2004). Os temas dominantes na sua escrita incluem as relações familiares, especialmente as dinâmicas complexas entre pais e filhos, a condição feminina, a solidão, a memória, a identidade, a violência, a ditadura e a busca por sentido na vida. A sua prosa é conhecida pela clareza, pela inteligência e pela capacidade de penetração psicológica. O seu estilo é direto, mas elegante, evitando excessos retóricos e focando-se na exploração das emoções e das motivações humanas. A voz poética, quando presente, é frequentemente tingida de melancolia, mas também de uma esperança resiliente. Lya Luft não se filiou a um movimento literário específico, mas a sua obra dialoga com a tradição realista e psicológica, ao mesmo tempo que se enquadra na literatura que reflete sobre as questões sociais e existenciais do Brasil contemporâneo.

Contexto cultural e histórico

Lya Luft produziu a sua obra num período de grande efervescência cultural e de profundas mudanças sociais no Brasil. Viveu a ditadura militar e testemunhou o processo de redemocratização, temas que, de forma direta ou indireta, permearam a sua escrita, especialmente nos seus ensaios. Manteve um diálogo crítico com a sociedade brasileira, comentando a política, a cultura e os costumes. Sua ligação com a comunidade intelectual e literária brasileira foi intensa, participando ativamente do debate público.

Vida pessoal

Lya Luft foi casada e teve filhos, e a experiência familiar foi uma fonte inesgotável de inspiração para a sua obra ficcional, explorando as complexidades das relações parentais e afetivas. Manteve uma postura pública ativa e interventiva, expressando as suas opiniões sobre diversas questões sociais e políticas. A sua perspicácia e a sua franqueza marcaram a sua intervenção pública. Foi também uma defensora fervorosa da liberdade de expressão e dos direitos humanos.

Reconhecimento e receção

Lya Luft foi uma escritora amplamente reconhecida e lida no Brasil. Recebeu diversos prémios literários e o seu nome tornou-se sinónimo de inteligência e profundidade na literatura brasileira. A sua obra foi objeto de estudo académico e a sua figura foi respeitada tanto pelo público como pela crítica. A sua importância como tradutora também lhe conferiu um lugar de destaque no panorama cultural.

Influências e legado

Influenciada por autores da literatura alemã e por escritores que exploraram a profundidade psicológica, Lya Luft, por sua vez, influenciou muitos leitores e escritores pela sua lucidez e pela sua capacidade de desnudar as complexidades da alma humana. O seu legado reside na sua obra literária e ensaística, que continua a ser relevante para a compreensão das relações humanas e da sociedade brasileira. A sua extensa lista de traduções contribuiu para enriquecer o acervo literário em língua portuguesa.

Interpretação e análise crítica

A obra de Lya Luft tem sido interpretada sob diversas perspetivas, destacando-se a análise das suas personagens como espelhos das angústias e dilemas contemporâneos. As críticas apontam para a sua habilidade em dissecar as relações familiares, muitas vezes com um olhar crítico sobre as convenções sociais e as expectativas de género. A sua produção ensaística oferece um panorama crítico e interventivo da sociedade brasileira.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Para além da sua prolífica carreira literária e de tradução, Lya Luft era conhecida pela sua paixão por jardinagem e pela sua ligação com a natureza. A sua casa em Porto Alegre era um refúgio onde cultivava plantas e encontrava inspiração. Sua perspicácia e senso de humor eram frequentemente evidentes em suas entrevistas e crónicas.

Morte e memória

Lya Luft faleceu em 30 de dezembro de 2018, após uma longa batalha contra o cancro. A sua morte foi amplamente noticiada e lamentada, reforçando o seu estatuto como uma das mais importantes vozes da literatura e do pensamento crítico no Brasil. A sua memória é perpetuada através da sua vasta obra, que continua a ser publicada, lida e estudada.

Poemas

7

Mirada Secreta

Foram-se
os amores que tive
Ou me tiveram. Partiram
Num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
A não acreditar na morte
Nem demais na vida: cultivo
Segredos num jardim
Onde estamos eu, os sonhos idos,
Os velhos amores e os seus recados,
E os olhos deles que ainda brilham
Como pedras de cor entre as raízes.
3 359

Todos esses Anjos

Todos esses
Anjos que à noite
agitam cortinas e sussurram frases
que temes entender:
se te tomarem nos braços
se te beijarem na boca,
se te entrarem no corpo,
não te darão certeza de que morrer, viver,
são igualmente suaves e difíceis
loucos e sensatos , e urgentíssimos?

Poderás enfim amar, rendendo-te aquilo
que te aflora com suas asas,
te chama com suas vozes,
te vara constantemente com essa luz,
essa dor.

1 399

Estranho também esse amor

Estranho também esse amor,
com hora marcada para a mutilação
da morte, o minuto acertado,
e o fim consultando o relógio
para nos golpear.

Estranho esse amor de agora,
com meu amado atrás de um espelho baço
onde às vezes penso divisar seu vulto
como num aquário.
Enrolado em silêncio,
mais que nunca o meu amor comanda a minha vida.

1 449

Guardei-me para Ti

Guardei-me
para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.

É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.
3 388

Tão Sutilmente

Tão subtilmente
em tantos breves anos
Foram se trocando sobre os muros
Mais que desigualdades, semelhanças
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
O filho que se faz, uma arvore plantada,
O tempo gotejando no telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
O pó de um cotidiano desencanto..

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
Que uma em outra pode se trocar,
Sem que alguém de for a o percebesse nunca.

1 526

Canção desse Rumor

Quem - estando
ausente - entra no quarto
Quem deita ao lado meu, quem passa
No meu coração seus lábios quentes, quem
Desperta em mim as feras todas
Quem me rasga e cura
Quem me atrai?

Quem murmura na treva e acende estrelas
Quem me leva em marés de sono e riso
Quem invade meu dia após a noite
Quem vem – estando ausente -
E nunca vai?
1 726

Tão sutilmente em tantos breves anos

do livro Mulher no Palco
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.

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Comentários (1)

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Sarah
Sarah

Lindos demais, dencanse em paz ????