Lista de Poemas

Colar da Pomba de Damasco

alif .?
em Damasco
_____ as pombas voam
__________ sobre uma cerca de seda
_______________ duas
____________________ a duas
bâ' .?
em Damasco
_____ vejo toda a minha língua
______escrita num grão de trigo
______com agulha de mulher
______e corrigiu-a a perdiz da Mesopotâmia.
tâ' .?
em Damasco
_____ estão bordados os nomes dos cavalos dos árabes
_____ desde os Dias da Ignorância1
______até ao Fim dos Tempos
______ou depois
______com fios de ouro
?â' .?
em Damasco
_____ o céu anda
_____ pelas ruas velhas
_____ descalço, descalço
_____ acaso precisam os poetas
_____ de inspiração
_____ ou de metro
_____ ou de rima?
jîm .?
em Damasco
_____ dorme o estrangeiro
_____ de pé em cima da sombra
_____ como minarete no leito da eternidade
_____ sem saudade de país nenhum
_____ ou de ninguém
?â' .?
em Damasco
_____ prosegue o verbo no imperfeito
_____ as suas ocupações omíadas2:
_____ caminhamos para o nosso amanhã confiantes
_____ no Sol do nosso ontem.
_____ nós e a eternidade,
_____ habitantes deste lugar!
?â' .?
em Damasco
_____ rodam as conversas
_____ entre o violino e o alaúde
_____ à volta das questões das existências
_____ e dos fins:
_____ àquela que matou um amante renegado,
_____ para ela o Limite da Árvore de Lótus3!
dâl .?
_____ em Damasco
_____ Iussuf rasga
_____ com o nei4
_____ as suas costelas
_____ por nada
_____ senão que
_____ não achou com ele o seu coração
?âl .?
em Damasco
_____ voltam as palavras à sua origem,
_____ a água:
_____ não é poesia a poesia
_____ e não é prosa a prosa
_____ e tu dizes: não te deixarei
_____ mas toma-me para ti
_____ e toma-me contigo!
râ' .?
em Damasco
_____ dorme uma gazela
_____ ao lado de uma mulher
_____ em cama de orvalho
_____ e então tira-lhe a roupa
_____ e cobre-se com o Barrada5!
zay .?
em Damasco
_____ um pardal pica
_____ o trigo que deixei
_____ sobre a minha mão
_____ e deixa-me um grão
_____ para me mostrar amanhã
_____ a minha manhã!
sîn .?
_____ em Damasco
_____ um jasmim namorisca comigo.
_____ não me deixes
_____ e anda nas minhas pegadas
_____ e então o jardim tem cíumes de mim.
_____ não te aproximes
_____ do sangue da noite na minha Lua.
šîn .?
em Damasco
_____ passo a noite com o meu sonho leve
_____ sobre uma flor de amendoeira que graceja:
_____ sê realista
_____ para que eu floresça segunda vez
_____ à roda da água do nome dela
_____ e sê realista
_____ para que eu atravesse o sonho dela!
?âd .?
em Damasco
_____ apresento a minha alma
_____ a si mesma:
_____ aqui mesmo, sob dois olhos amendoados
_____ voamos juntos gémeos
_____ e adiamos o nosso passado comum
?âd .?
em Damasco
_____ suavizam-se as palavras
_____ e então ouço a voz do sangue
_____ em veias de mármore:
_____ arranca-me ao meu filho,
_____ diz-me a cativa,
_____ ou tornar-te-ás comigo em pedra!
?â? .?
em Damasco
_____ conto as minhas costelas
_____ e faço voltar o meu coração ao seu trote
_____ talvez a que me fez entrar
_____ na sua sombra
_____ me tenha matado
_____ e não me dei conta
?a? .?
em Damasco
_____ a estrangeira devolve a sua liteira
_____ à caravana:
_____ não regressarei à minha tenda
_____ não pendurarei a minha guitarra
_____ depois desta tarde
_____ na figueira da família
?ayn .?
em Damasco
_____ os poemas são translúcidos
_____ não são palpáveis
_____ e não são mentais
_____ mas o que diz o eco
_____ ao eco
gayn .?
em Damasco
_____ a nuvem secaem uma época
_____ e cava um poço
_____ para o Verão dos amantes na várzea do Qâsyûn6
_____ e o nei cumpre os seus usos
_____ na saudade que nele há
_____ e chora em vão
fâ' .?
em Damasco
_____ registo no caderno de uma mulher:
_____ todos os
_____ narcisos que há em ti
_____ te desejam
_____ e não há muro à tua volta que te proteja
_____ da noite do teu encanto excessivo
qâf .?
em Damasco
_____ vejo como se encolha a noite de Damasco
_____ devagarinho devagarinho
_____ e como com as nossas uma deusa se torna
_____ una!
kâf .?
em Damasco
_____ canta o viajante em segredo:
_____ não voltarei de Damasco
_____ vivo
_____ nem morto
_____ mas nuvem
_____ que alivia o peso de borboleta
_____ da minha alma fugitiva.
(tradução de André Simões, publicada originalmente na revista portuguesaÍtaca.)
Para ler mais traduções do árabe feitas por André Simões, visite seu espaço SOBRE AS RUÍNAS.
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Identificação e contexto básico

Mahmoud Darwish (محمود درويش) foi um dos mais importantes e prolíficos poetas palestinianos do século XX e XXI. Nasceu em 1941, na aldeia de Al-Birwa, na Galileia, que viria a ser destruída e transformada em moshav israelita, forçando a sua família ao exílio interno. Viveu grande parte da sua vida no exílio, residindo em vários países, incluindo o Líbano, Chipre, França e Egito, antes de se estabelecer finalmente em Ramallah, na Cisjordânia, onde faleceu. Escreveu em árabe e a sua obra tornou-se um símbolo da identidade e resistência palestiniana. Foi também editor e ativista político.

Infância e formação

A infância de Darwish foi marcada pela Nakba (a catástrofe), o êxodo palestiniano de 1948, que resultou na perda da sua casa e terra natal. A sua família integrou-se na comunidade árabe dentro de Israel, mas vivia sob um regime militar que impunha restrições significativas. A educação formal de Darwish foi influenciada por este contexto de deslocamento e pela necessidade de afirmar uma identidade cultural num ambiente hostil. Desde cedo, a leitura e a poesia tornaram-se refúgios e formas de expressão, absorvendo influências da rica tradição poética árabe e, mais tarde, da poesia moderna ocidental.

Percurso literário

Darwish começou a escrever poesia na adolescência. A sua primeira coleção, 'As Meninas aos meus Braços', foi publicada em 1960. A partir daí, a sua produção poética foi extraordinariamente vasta e consistente. Os seus primeiros poemas eram marcadamente nacionalistas e líricos, refletindo a dor da perda e a resistência à ocupação. Com o tempo, a sua obra evoluiu, tornando-se mais filosófica, universal e introspectiva, embora sem nunca abandonar as suas raízes palestinianas. Foi editor de importantes publicações palestinianas, como as revistas 'Al-Jadid' e 'Shu'un Filastiniya' (Questões Palestinianas), e dirigiu a Casa Editorial de Jerusalém. Foi também membro do Comité Executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais importantes contam-se 'Cartas de um Exilado' (1966), 'Os Amantes em Oliveirais' (1968), 'O Canto de Mim Mesmo' (1970), 'Nada no seu Lugar' (1971), 'Eu Sou de Lá e Tu És de Aqui' (1982), 'Sob o cerco de Ghaznavides' (1995), 'Um Estado de Saudade' (2000) e 'Não te desculpes' (2004). Os temas centrais da sua obra são a terra (especialmente a Palestina), o exílio, a identidade, a memória, o amor, a morte e a busca pela liberdade. O seu estilo caracteriza-se pela musicalidade, o uso de metáforas poderosas e a capacidade de fundir o lirismo com a denúncia social e política. Utilizou frequentemente o verso livre, mas também explorou formas tradicionais. A sua linguagem é ao mesmo tempo simples e profunda, acessível mas carregada de simbolismo, com um tom que varia entre a melancolia, a esperança, a revolta e a contemplação.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mahmoud Darwish viveu e escreveu durante um dos períodos mais turbulentos da história moderna do Médio Oriente. A sua obra está intrinsecamente ligada à questão palestiniana, às guerras árabe-israelitas, ao exílio e à ocupação. Pertenceu à chamada "geração do exílio" ou "geração da resistência" palestiniana. Foi um dos porta-vozes literários da sua nação, dialogando com outros intelectuais e artistas árabes e internacionais que se solidarizavam com a causa palestiniana. A sua poesia tornou-se uma forma de manter viva a memória e a identidade cultural palestiniana face à tentativa de apagamento histórico.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Darwish teve uma vida marcada pelo exílio e pela causa palestiniana. Casou duas vezes, mas nenhum dos casamentos durou. As suas relações pessoais foram, por vezes, complexas, influenciadas pela sua dedicação à poesia e à política. Manteve amizades com importantes figuras intelectuais e artísticas, mas também enfrentou críticas e pressões. A sua saúde foi debilitada nas últimas décadas de vida, culminando na cirurgia cardíaca que o levou à morte.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Mahmoud Darwish é amplamente considerado um dos maiores poetas árabes contemporâneos e uma figura literária de renome mundial. Recebeu inúmeros prémios literários em todo o mundo árabe e internacionalmente. A sua obra foi traduzida para mais de 40 línguas. A sua poesia é ensinada em universidades e é popular entre estudantes e leitores em todo o mundo, sendo aclamada tanto pela sua qualidade literária quanto pelo seu engajamento social e político.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Darwish foi influenciado pela tradição poética árabe clássica, bem como por poetas modernos árabes como Badr Shakir al-Sayyab e Mahmoud Salem, e por poetas ocidentais como T.S. Eliot e Pablo Neruda. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações de poetas árabes e de outras nacionalidades. A sua poesia continua a ser uma referência incontornável para a literatura em língua árabe e para a literatura mundial focada em temas de identidade, exílio e resistência. A sua obra é estudada em contextos académicos e continua a inspirar movimentos artísticos e de solidariedade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Darwish tem sido amplamente interpretada como uma elegia à terra perdida, um hino à resiliência humana e uma exploração profunda da condição do exilado. A sua poesia é frequentemente analisada em termos do seu papel na construção de uma identidade nacional palestiniana e como uma forma de resistência cultural. Debates críticos giram em torno da relação entre a sua poesia e a política, a sua capacidade de transcender o particular para alcançar o universal, e a sua evolução estilística ao longo da carreira.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Mahmoud Darwish era conhecido pela sua calma e elegância, mesmo em situações de grande pressão. Apesar de ser uma figura política, procurou sempre separar a sua vida política da sua vida artística. Era um leitor voraz e um grande admirador de literatura russa. Contou-se que, quando lhe perguntaram sobre o seu lugar favorito, ele respondeu que era "o lugar para onde a alma pode voar". A sua casa em Ramallah tornou-se um centro cultural e um museu.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Mahmoud Darwish faleceu em 9 de agosto de 2008, em Houston, Texas, EUA, após uma cirurgia cardíaca. A sua morte foi sentida como uma perda imensa para o mundo árabe e para a literatura mundial. Foi enterrado com honras de Estado em Ramallah, com um túmulo no centro cultural que leva o seu nome. Publicações póstumas continuaram a emergir, revelando facetas da sua vasta obra e pensamento.