Lista de Poemas

Farmácia

Eu nada sei
do mal de que padeço

e todavia confesso
o que me aflige

Sinto dores fortes
quando vejo o azul

a beleza me fere
espanta e fascina

o passar do tempo
me dá vertigem

e me prende
em suas teias irreversíveis

os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso

e quando vejo seu rosto
meu coração dispara

Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
744

Autopoema

Marco lucchesi
é o nome
de uma nuvem

árdua pluriforme
ligeira
e imperscrutável

que se desmancha
na medida
em que se mostra

Tão maleável
como
um serafim

tão
orgulhoso
como um paquiderme

Um poço
estranho
mudo
e longilíneo

O medo para
fora                     e o grito
para dentro

Marco lucchesi
nuvem
paquiderme

fera abismo
sem fundo
anjo da terra

Monstro de
cega e fatal
contradição
847

Orquídeas

Orquídeas
        resplandecem
                  no quintal

a geometria
  de fogo
            de suas pétalas

e a forma
   do silêncio
            em que se apóiam

trago
             o coração perdido
    e os olhos tersos
             da breve epifania

toda flor
   desponta
    no seio do silêncio

e ao seio
     do silêncio
     acorre e se dissolve

lembro
             de Hardy  
indo  ao  
                           fundo
silêncio
          dos  gregos

teoremas
          cheios

      do  frescor e da beleza

            de quando foram descobertos

dois mil anos
            e sequer
    uma ruga

            em seu  puro semblante  

(Euclides
       e a infinidade

       dos números primos


Pitágoras
       e  a raiz quadrada
irracional de dois)

os desenhos
              do matemático
e do poeta devem
                               ser belos

                       flores
                      teoremas
desmaiam  
                         em súbitos
  jardins

orquídeas
              e bromélias

florescem
              em crepúsculos  
fugazes  

- a beleza é a  primeira prova
              da matemática
744

Ubi es, Vita

O sono de Leopardi
o verbo de Clarice
e a sombra de Cioran

Vida vida
eis o botim
dos que reclamam vida
724

Marco lucchesi

Marco lucchesi
                    é o nome
         de uma nuvem
              
  árdua  pluriforme
        ligeira
e imperscrutável

  que se desmancha
                         na medida
em que se mostra
tão maleável
   como
             um serafim  

tão   
     orgulhoso
     como um paquiderme
                         um poço
estranho
     mudo
           e longilíneo

o medo para
  fora              e o grito
        para dentro

marco lucchesi
                                 nuvem   
paquiderme

             fera abismo
   sem fundo  
                 anjo  da terra

monstro de
         cega  e cabal
                           contradição
699

Como dizer Villaça

Como dizer Villaça
                os medos
     que devastavam teu coração?  
o mosteiro errante
              ao qual pertencias
    e para o qual não sabias  voltar  
monge sem mosteiro
        saltimbanco de um
   circo místico  
o perene abandono
         de deus
    e dos homens
sob cuja
         sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
             não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
                  e terra  pecado
e salvação
essa memória
            impenitente
            era teu  inefável luminoso labirinto
a luz
           de que surgiam
           os mortos
para tomar café
          todas as tardes
   na praia do flamengo
teu coração
     feroz
   e compassivo  
e os mortos devastados
          redivivos  pelo deus cruel
          e solitário da memória
das sentenças
           de Abelardo aos livros
           de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
        aos poemas
        de Drummond
   um deus que não sabia
         nada de si mesmo
     preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
       que impuseste  para  esconder
       as formas frágeis de teu  rosto
tuas palavras tendiam
           ao silêncio  transformadas
de há muito  em estrelas  
e um anjo precisaria
             arrancá-las de teus olhos
    antes que se dissolvessem
na luz
    das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
    e te salvaste apenas
          das atrocidades do mundo

não do abismo
                 de tua vasta
       mortal  delicada  inocência
700

Santa Cruz

Constança foi ao céu me visitar
           seu vestido era verde
como as pedras
            de Itacoatiara
trazia nos olhos
             um canarinho
um buquê de flores
             e os seios de minha mãe  
soprou em meus pulmões
            como quem salva um

            afogado

nas terras ínvias do coração

inundadas
         de pranto e algaravia  
deitou ali todas as flores
           como se fosse o Éden  
num céu terrivelmente
            azul
(havemos
             todos de  ressuscitar
um dia  sob esse mesmo
     
            azul )
o vento de meus pulmões
    
       canta e silencia  
recua e avança

não escondo minhas lágrimas
       Jesus também chorou
no Jardim das Oliveiras
a vida é um  arquipélago
           de amor atormentado
uma Roma
         
          que se debate em delírios
enquanto espera
         
          a chegada dos bárbaros
ou a vinda
    
        fulminante  do Messias
802

Vestígios de mar

Vestígios de mar
      na cerração do hospital
   vejo as costas de Benin e
                  Moçambique

sou um navio
  
          desapossado
    
preso a liames

     e cordoalhas
   

içam
da garganta
      a âncora
que baixaram de madrugada

a voz
      do médico
                          ao longe  

você  sabe
                    onde está?  

claro que sim
            estou
em mar português

e o  Patriarca de Lisboa
        manda lembranças
            ao  Samorim

                       para Marcos Mendonça
711

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Identificação e contexto básico

Marco Lucchesi nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. É poeta, ensaísta, tradutor e professor universitário. É membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a Cadeira 23. Sua obra se insere no contexto da poesia contemporânea brasileira, marcada pela busca de novas formas de expressão e pela reflexão sobre a linguagem, a memória e a experiência humana.

Infância e formação

Lucchesi formou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e obteve mestrado e doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Sua formação acadêmica, aliada a um profundo interesse por filosofia e artes visuais, moldou seu percurso intelectual e sua produção literária.

Percurso literário

Iniciou sua carreira literária com a publicação de livros de poesia que rapidamente chamaram a atenção pela originalidade e pela força imagética. Além de sua obra poética, Lucchesi tem uma vasta atuação como tradutor, tendo vertido para o português obras de autores como Rainer Maria Rilke, Friedrich Nietzsche e William Shakespeare. É também autor de diversos ensaios sobre literatura, filosofia e artes.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Marco Lucchesi é marcada pela densidade, pela musicalidade e pela exploração da relação entre o verbo e a imagem. Seus poemas frequentemente abordam temas como a memória, o tempo, a finitude, o corpo, a cidade e o sagrado. A linguagem é precisa e evocativa, construindo um universo de profunda sensibilidade e questionamento existencial. Obras notáveis incluem "O Óbvio Ululante", "A Última Porta" e "Diante de Tudo". Ele experimenta com a forma poética, mesclando verso livre com estruturas mais tradicionais, e demonstra um domínio impressionante dos recursos da língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Marco Lucchesi emerge na cena literária brasileira em um período de renovação e diversidade, dialogando com diferentes vertentes da poesia contemporânea. Sua obra se conecta com discussões sobre a identidade brasileira, a memória cultural e as transformações sociais e tecnológicas do mundo atual. É um nome que se destaca no cenário intelectual brasileiro, participando ativamente de debates sobre literatura, cultura e educação.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe publicamente sobre a vida pessoal de Marco Lucchesi, pois ele tende a manter um perfil discreto. Sua dedicação à escrita, à tradução e ao ensino universitário parece ser o centro de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Marco Lucchesi é amplamente reconhecido no meio literário brasileiro e internacional. Recebeu diversos prêmios importantes, como o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa. Sua obra tem sido objeto de estudo acadêmico e é traduzida para diversas línguas, atestando seu alcance e relevância.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra demonstra influências de poetas como Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Rainer Maria Rilke. O legado de Lucchesi reside na sua capacidade de renovar a poesia em língua portuguesa com uma linguagem sofisticada e uma profunda reflexão sobre a condição humana. Sua poesia é um convite à contemplação e ao mergulho nas complexidades da existência.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Críticos destacam em Lucchesi a capacidade de aliar rigor formal a uma exploração profunda do inconsciente e da subjetividade. Sua poesia é vista como um espelho das angústias e anseios do homem contemporâneo, mas também como um espaço de transcendência e beleza.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Além de sua atividade como poeta e ensaísta, Lucchesi é conhecido por seu trabalho como curador de exposições de arte e por sua paixão por gravuras e objetos antigos, que frequentemente inspiram sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória (Não aplicável, pois o autor está vivo).