Lista de Poemas

Érato

"por detrás o prazer é diferente
do gozo pela frente" (diz) e a boca
suplica ("mais") aí toda a carne é pouca
para todo o desejo (pela frente
o amor no Próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás
da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de pegar os cabelos quando ondulam
suas crinas) que o gozo insatisfeito
precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude ou gozar mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)

1 851

A Pedra Lavrada

1 - A mão que lavra a pedra
A pedra a mão esgota,
No chão de pedra o grão
De pedra em pedra brota.
A mão sacode o grão
No chão de pedra morta,
De pedra em pedra o grão
Da própria pedra brota.

2 - A mão fecunda a pedra
Nos ossos do seu ventre,
O grão nasce do chão
Da pedra em seu deventre.
A mão conhece o chão
Onde desceu por entre
O grão que vem da pedra
Aberta, do seu ventre.

3 - Se a chuva molha não
O grão na pedra, ovo
No ninho, pedra aberta
Que se fecha de novo.
A mão que sabe o grão
Que falta à mão do povo,
Espera o sol, a ave,
Que choca o grão, o ovo.

4 - O sol, ave-de-fogo,
Não queima o grão que choca,
Porém nascido ao sol
O grão já nasce soca.
Mas, sim ou não, o grão
Da pedra se desloca
Chocado pelo chão
Depois que a mão o choca.

5 - O grão não sabe o chão
Por isso a mão prepara
O grão para viver
Na pedra que escancara.
Se mesmo farto o grão
A safra é sempre avara,
Na pedra, o grão em flor
E fruto se escancara.

(...)


Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.17-18. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 20 oitava
2 118

Da Prosa e da Poesia

A prosa e a poesia se diferem
pelo mistério:
a casa era sem portas e janelas (...)
isto é prosa
a casa era de vidros e silêncios (...)
isto é poesia
pela música:
era uma vez um eco que dizia (...)
isto é prosa
era uma vez a vez a vez a vez (...)
isto é poesia
pela forma:
sob a luz apagada ele dormia (...)
isto é prosa
sob o peso da treva era o seu sono (...)
isto é poesia
pelo motivo:
a infância veio visitá-lo um dia (...)
isto é prosa
a infância acordou-se nos seus olhos (...)
isto é poesia
pela pintura:
o seu rosto era branco como o mármore (...)
isto é prosa
o seu rosto era um pássaro de nuvem (...)
isto é poesia
pelo equilíbrio:
o sol estava vertical no céu (...)
isto é prosa
o sol caía sobre a própria sombra (...)
isto é poesia
pelo movimento:
a flecha arremessada pelo arco (...)
isto é prosa
a flecha além do arco era uma asa (...)
isto é poesia
pelo ritmo:
era no dia o sol — na noite a lua (...)
isto é prosa
era no sol o sol — na lua a lua (...)
isto é poesia
pela força:
a lâmina brilhou sobre seus olhos (...)
isto é prosa
a lâmina de luz cegou seus olhos (...)
isto é poesia
pelo assombro:
o chicote vibrou como uma cobra (...)
isto é prosa
o chicote vibrou como um relâmpago (...)
isto é poesia
pela imagem:
dentro do rio era canção das águas (...)
isto é prosa
dentro do rio era a canção dos peixes (...)
isto é poesia
etc etc etc
(...)


In: ACCIOLY, Marcus. Poética: pré-manifesto ou anteprojeto do Realismo Épico (época-épica). Recife: Ed. Universitária, 1977

NOTA: Poema composto de 3 partes
2 321

Predamar

Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.

Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.

Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.

Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.

O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.

O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.

O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.

O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios

(...)


Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 572

Os Bichos

O Jumento

I — Pestanas de nuvens no olhão do sol vivo
Um céu de dragões entre espadas vermelhas
As folhas de abano das grandes orelhas
Os cascos rachados no solo exaustivo
A seca o nordeste o oceano arbustivo
O poço das águas que a sede descobre
Os ossos debaixo dos pêlos de cobre
A sempre-odisséia do audaz-andarilho
O pasto de areia e sabugo de milho
E o zurro-relógio do horário de pobre.


Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.65. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 8 décimas, cada uma dedicada a um animal: A Onça, O Boi, O Cavalo, O Jumento, O Carneiro, A Cabra, A Cobra e O Cachorr
1 794

A Terra

O Sertão

A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.

E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.

Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.

Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.

E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.


Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
3 123

XVIII - Do Improviso

— Vamos rimar pé quebrado?
— Rima o pé que eu rimo a mão.
— Começa a dar seu recado.

— Eu comprei um caminhão
de lata e outro de flandre,
era um pequeno e outro grande,
mas depois...

— Eu vim e comprei os dois,
tirei as latas de doce
cortei o arame e acabou-se
tal estória...

— Nasceu outra da memória:
meu canário de gaiola
negociei numa bola
de jogar...

— E quando ela se furar,
corto da bola a borracha
faço um badoque de caça
e com um seixo...

— Ele se parte em teu queixo,
tu ficas de cara inchada
sem mais badoque nem nada.
Ainda rimas?

— Rimo rimas com meninas,
meninas feias com belas.
Vamos brincar nas janelas
de mangar?


In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.43-44. (Série biblioteca juvenil
1 368

Prosação

— Senhores, vou lhes contar
Uma conversa ligeira
Que tive, faz muito tempo,
Num dia de quarta-feira
Do mês de outubro de um ano,
Do qual não me lembro a data,
Na mais agreste caatinga,
Depois da zona da Mata.
Havia fome na terra
E o povo se retirava
Levando os últimos bichos
Que a seca aos poucos matava.
Para esquecer essas coisas
Fui palestrar com Quintão,
Um cego que tinha fama
De sábio, em todo Sertão.

— "Já desde que tempo é tempo
E o mundo é mundo, que eu ouço
Muitas histórias contadas
Por retirantes, seu moço.
Histórias que falam sempre
Das secas com seus rigores,
Dos homens virando lendas
Na boca dos cantadores.
Histórias que a gente encontra
Escritas, de outra maneira,
Em verso e não mais em prosa,
Nesses folhetos de feira.
Histórias que são as mesmas
Que a gente sabe de cor,
Mas finge que nunca sabe
Para escutá-las melhor.

— Dessas estórias, lhe digo,
Me causa admiração
A vida do Padre Cícero
E a lenda de Lampião
Que tinha o corpo fechado
E um olho cego que via,
Por isso fechava o outro
Para fazer pontaria.
Pois que bastava somente
Para enxergar o perfil
Da tropa que o perseguia,
O olho do seu fuzil.
E que bastava o soldado
Sentir seu faro real,
Para vestir-se de terra
Após vestir seu punhal.

— Não sei se é lenda ou verdade,
Seu moço, falo por mim,
A lenda sempre começa
Quando uma história tem fim.
Pois se a história nos conta
Que Virgulino nasceu,
A lenda logo acrescenta
Que Lampião não morreu.
Além da história e da lenda
Existe o sonho do povo,
Que entre o que houve e não houve
Inventa tudo de novo.
Por isso a lenda é mais certa
Do que o sonho e a história,
Pois Lampião anda vivo
Dentro de cada memória.

(...)

Imagem - 01360004


Poema integrante da série Sertão-Sertões - Canto II.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.118-119. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 13 estrofes de 16 verso
1 903

21 [Quase uma cobra com pés

Quase uma cobra com pés
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.


In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
1 251

LXXIX - Do Meio-Termo

Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.

Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.

Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.

Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.

Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.

Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.


In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 443

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Marcus Accioly foi um poeta brasileiro, conhecido por uma obra marcada pela espiritualidade e pela profundidade existencial. Nasceu no Rio de Janeiro e a sua escrita está associada a uma busca pelo transcendente e pela beleza intrínseca da existência.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a sua infância e formação de forma detalhada em fontes públicas. No entanto, a erudição presente na sua obra sugere uma formação cultural sólida e um interesse precoce pela literatura e pela filosofia.

Percurso literário

O percurso literário de Marcus Accioly é caracterizado por uma produção poética contínua e aprofundada ao longo do tempo. A sua obra evoluiu dentro de uma linha estética coesa, mantendo um foco constante em temas espirituais e existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Marcus Accioly é notável pela sua linguagem densa, repleta de simbolismo e musicalidade. Os temas dominantes incluem a espiritualidade, o amor, a morte, a solidão e a efemeridade da vida. Utiliza frequentemente recursos poéticos elaborados e um vocabulário erudito, criando uma atmosfera de introspeção e transcendência. A sua voz poética é lírica e, por vezes, confessional, convidando o leitor a uma profunda reflexão. A relação com a tradição poética é visível na sofisticação formal, mas o seu estilo é marcadamente pessoal e inovador.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Marcus Accioly insere-se no panorama da poesia brasileira contemporânea, dialogando com a tradição literária, mas também com as inquietações do seu tempo. A sua obra reflete uma busca por sentido num mundo em constante mudança.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Marcus Accioly são escassos em fontes amplamente disponíveis. Contudo, a natureza da sua poesia sugere uma personalidade introspectiva e sensível.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Marcus Accioly é reconhecido pela crítica especializada como um poeta de grande valor, apreciado pela originalidade do seu estilo e pela profundidade dos seus temas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências diretas possam não ser explicitamente detalhadas, o seu estilo sugere uma familiaridade com a poesia lírica e espiritual. O seu legado reside na contribuição para a diversidade e profundidade da poesia brasileira contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Accioly é frequentemente interpretada como uma jornada espiritual e filosófica, explorando os dilemas da existência humana e a busca por um sentido maior.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser um autor de natureza mais reservada, muitos aspetos da sua vida e dos seus hábitos de escrita permanecem menos conhecidos pelo público em geral.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre a data e circunstâncias da sua morte não são amplamente divulgadas em fontes públicas, mas a sua obra continua a ser estudada e apreciada.