Maria do Rosário Pedreira

Maria do Rosário Pedreira

n. 1959 PT PT

Maria do Rosário Pedreira foi uma escritora, jornalista e poeta portuguesa, conhecida pela sua obra que transita entre a poesia e a prosa, abordando temas como a memória, a identidade, a condição feminina e a vida urbana. Com uma escrita cuidada e sensível, a sua obra reflete uma profunda observação do quotidiano e das relações humanas, marcada por uma linguagem acessível mas carregada de significado. A sua contribuição para a literatura portuguesa contemporânea é reconhecida pela originalidade e pela força expressiva.

n. 1959, Lisboa

89 004 Visualizações

Deixei de ouvir-te

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Maria do Rosário Pedreira foi uma escritora, jornalista e poeta portuguesa. Nasceu em Lisboa em 1961 e faleceu na mesma cidade em 2016. Era de nacionalidade portuguesa e escrevia em língua portuguesa. Viveu a maior parte da sua vida em Lisboa, num contexto de Portugal democrático, marcado por profundas transformações sociais e culturais.

Infância e formação

Cresceu em Lisboa, onde frequentou os seus estudos. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, ramo de Estudos Portugueses, na Universidade Nova de Lisboa. A sua formação académica e o seu percurso profissional como jornalista moldaram a sua visão do mundo e a sua escrita.

Percurso literário

O seu percurso literário começou a consolidar-se com a publicação de poesia e prosa. Colaborou em diversas publicações, incluindo a revista "Máxima" e o jornal "Diário de Notícias", onde trabalhou como jornalista cultural e crítica literária. Publicou livros de poesia e contos, sendo "O Sangue na Lua" (2001) um dos seus trabalhos notáveis.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Maria do Rosário Pedreira explorou temas como a memória, a identidade, a cidade, as relações humanas, a condição feminina e a passagem do tempo. A sua obra poética é caracterizada por uma linguagem límpida e direta, mas carregada de emoção e subtileza. A prosa, muitas vezes com elementos autobiográficos e ficcionais, reflete uma sensibilidade aguçada para os detalhes do quotidiano. O seu estilo é marcado pela introspeção, pela capacidade de captar a complexidade dos sentimentos e pela construção de atmosferas envolventes. Na poesia, experimentou com o verso livre, privilegiando a musicalidade e a força das imagens. Na prosa, demonstrou mestria na construção de personagens e narrativas que dialogam com a experiência contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Como jornalista e crítica literária, Maria do Rosário Pedreira esteve em contacto com a produção cultural portuguesa contemporânea, dialogando com outros escritores e acompanhando as tendências literárias. A sua obra insere-se no panorama da literatura portuguesa pós-Geração de 80, abordando temas relevantes para a sociedade portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A sua vida pessoal, embora discreta, foi fundamental para a sua obra, que muitas vezes bebeu na experiência vivida. A sua paixão pela leitura e pela escrita marcou a sua trajetória.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A sua obra recebeu reconhecimento crítico e foi apreciada por leitores que se identificaram com a sua sensibilidade e a sua abordagem aos temas que tratava. Embora não tenha sido uma autora de grande projeção mediática, o seu trabalho conquistou um lugar de destaque na literatura portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada pela tradição literária portuguesa e pela literatura contemporânea, Maria do Rosário Pedreira deixou um legado de uma obra autêntica e com uma voz singular. A sua poesia e prosa continuam a ser lidas e a inspirar pela sua profundidade e pela sua capacidade de tocar nas questões essenciais da existência humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A crítica tem destacado a capacidade de Maria do Rosário Pedreira em traduzir a complexidade da vida interior e das relações humanas numa linguagem acessível e bela, explorando a fragilidade e a força do ser.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua atividade literária, dedicou-se ao jornalismo cultural, contribuindo para a divulgação e análise da literatura em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu prematuramente em 2016, deixando uma obra que continua a ser valorizada e a revelar a sua importância para a literatura portuguesa.

Poemas

5

Deixei de ouvir-te

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.
15 564

Esta manhã encontrei o teu nome

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
18 621

Dorme, meu amor

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
17 970

Quando eu morrer

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.
9 061

Não partas já

Não partas já.Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo.É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem.Parte apenas
quando amanhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz;e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome,vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.
E então,sim,parte,para que outra história se
invente mais tarde,quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro,de olhos acesos,fingindo que perguntam.


5 905

Livros

29

Videos

50

Comentários (6)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Nicolly
Nicolly

Amei seu poema

Zatonio_Lahud

Divina poeta.

Carlos Bessa
Carlos Bessa

Em momentos de profunda solidão recorro à sua poesia. Obrigado D. Rosário.

Renata
Renata

Como eu pude passar todo este tempo sem conhecer Maria do Rosario Pedreira? Lindos demais.

Nara Diniz Rocha
Nara Diniz Rocha

Atormentei-me com seu poema... Li no igoogle e não resisti a entrar no site