Marília Garcia

Marília Garcia

n. 1979 BR BR

Marília Garcia é uma poeta, ensaísta e tradutora brasileira, cuja obra poética se caracteriza pela inteligência, pela reflexão metalinguística e pela exploração da linguagem como ferramenta de conhecimento do mundo e de si mesma. Com um estilo que mescla erudição e informalidade, Garcia aborda temas como a memória, a identidade, a escrita e a condição humana, muitas vezes com um humor sutil e uma perspectiva crítica. Sua produção literária é marcada pela originalidade e pela profundidade das suas investigações sobre a poesia e a vida.

n. 1979-01-01, Rio de Janeiro

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UMA EQUAÇÃO NO HYDE PARK

está chovendo no
hyde park hoje
e estou do outro
lado do hemisfério
sentada ao sol
com um gato
entre meus pés
que estão descalços
e levemente
avermelhados.

está chovendo no
hyde park hoje
e lembro de ter
andado num parque
de ângulos quadrados
com o menino da caixa
preta que tinha uma foto
de uma floresta nórdica
virada de ponta-cabeça na
parede do seu quarto
e que gostava de contar
até 24 depois de cruzar
o gradil.

a gente andava
no meio-fio e sentava
no parque e depois deitava e o
roupão preto felpudo
já na casa dele
e o roommate chamado
steve que amava
uma japonesa.

está chovendo no
hyde park hoje e não sei
o que dizer a ele
que agora está sentado
algumas mesas à frente
e que dentro de um filme
seria alguém que diz sim
mas não estou dentro de um
filme — ouço a voz em eco
no buraco do real —
e me refaço pensando
que podia contar
que o gps funcionou
e indicou o ponto de encontro
mas a mensagem
só chegou depois.

está chovendo no
hyde park hoje
e podia contar que meu
coração tinha sido arrancado
pela boca e que estava
esquecido sobre uma pedra
com o sangue
ainda quente.

sim, está chovendo
no hyde park
e ao inferno
já desceram
um ou dois
ou
três
mas ele
há de subir
atravessando as curvas,
o belvedere, os espaços dirigíveis
“ogni speranza lasciate
voi che entrate”
— há mundo por vir?
ele pergunta antes de passar
e leva na mão
um gravador
e nós cruzamos o olhar
— só por um segundo —
e não lembro mais
desse dia
mas depois o
mesmo olhar
volta à memória
como a interferência
de uma voz saindo
do carro em movimento
pela ladeira.

está chovendo no
hyde park e aquele par
de olhos encontra os meus,
e esse cruzamento
de olhares me distrai
por um momento
da equação.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Marília Garcia é uma poeta, ensaísta, tradutora e editora brasileira. É conhecida por sua obra poética que se destaca pela inteligência, pela experimentação com a linguagem e pela reflexão sobre o próprio fazer literário e a condição humana. Sua poesia situa-se no panorama da literatura brasileira contemporânea, dialogando com tradições e rompendo com elas simultaneamente.

Infância e formação

Marília Garcia formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde também realizou mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada. Sua formação acadêmica sólida influenciou diretamente sua abordagem literária, marcada pela erudição e pelo rigor conceitual. O ambiente familiar e cultural em que cresceu, com forte incentivo à leitura e ao pensamento crítico, também contribuiu para o desenvolvimento de sua sensibilidade literária.

Percurso literário

O início de sua carreira literária se deu com a publicação de poemas em diversas revistas e antologias. Rapidamente, sua obra ganhou destaque pela originalidade e pela maturidade. Além de poeta, Garcia tem uma atuação significativa como ensaísta, abordando temas literários e culturais com profundidade e perspicácia. Sua atividade como tradutora também é relevante, vertendo para o português obras importantes da literatura estrangeira. Fundou e dirige a editora N-1 Edições, dedicada à publicação de livros de poesia e pensamento contemporâneo, o que demonstra seu engajamento com a cena literária e a circulação de ideias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras poéticas de Marília Garcia exploram a relação entre linguagem, pensamento e experiência. Temas como a escrita, a leitura, a memória, a identidade, o corpo e a condição social do indivíduo são centrais. Sua poesia é frequentemente metalinguística, refletindo sobre o próprio processo criativo e a natureza da poesia. O estilo de Garcia é marcado por uma inteligência aguçada, um humor sutil e uma capacidade de transitar entre o erudito e o coloquial, o pessoal e o universal. Utiliza recursos como a fragmentação, a digressão, a citação e a ironia. O verso livre é sua forma preferencial, permitindo uma grande flexibilidade na construção do discurso poético. Sua linguagem é precisa, mas também aberta a múltiplas associações, com forte densidade imagética e conceptual. Garcia inova ao incorporar o ensaístico e o crítico dentro do próprio fazer poético, questionando os limites entre os gêneros literários. Sua obra dialoga com a tradição modernista brasileira e com a poesia experimental internacional.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Marília Garcia insere-se no vibrante cenário da poesia brasileira contemporânea, participando ativamente de debates sobre linguagem, política e cultura. Sua obra reflete as complexidades e as tensões da sociedade atual, as mudanças sociais e tecnológicas, e a busca por novas formas de expressão. Sua atuação como editora a coloca em contato direto com outras vozes e movimentos literários, enriquecendo seu panorama intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Embora Marília Garcia mantenha uma certa reserva sobre sua vida pessoal, sua obra frequentemente se nutre de observações agudas sobre o cotidiano, as relações humanas e a vida urbana. Sua trajetória acadêmica e sua atividade como editora indicam uma dedicação intensa ao universo das letras e do pensamento.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A poesia de Marília Garcia tem sido amplamente reconhecida pela crítica literária e pelo meio acadêmico, que destacam sua originalidade, sua rigorosidade intelectual e sua contribuição para a renovação da poesia brasileira. Sua obra é estudada em universidades e tem recebido prêmios e distinções importantes.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Marília Garcia são diversas, abrangendo desde a poesia modernista brasileira (como Oswald de Andrade e Murilo Mendes) até poetas estrangeiros contemporâneos que exploram a linguagem. Seu legado reside na forma como expandiu as fronteiras da poesia brasileira, integrando elementos ensaísticos, críticos e experimentais de maneira inovadora, além de sua atuação fundamental na editoração e difusão da poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Marília Garcia é objeto de frequentes análises críticas que exploram sua dimensão metalinguística, sua crítica social sutil e sua investigação sobre a natureza da subjetividade em um mundo contemporâneo saturado de informações e imagens. Questiona a própria noção de autoria e de obra fechada.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua paixão pela edição e o cuidado com que seleciona e publica outros autores, muitas vezes emergentes, é um aspeto que revela seu compromisso com o desenvolvimento da literatura. Sua poesia, por vezes, incorpora elementos da cultura pop e da linguagem da internet, mostrando sua capacidade de dialogar com o mundo contemporâneo de forma irreverente.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não aplicável, pois a autora está viva.

Poemas

12

terremoto

um terremoto replicando
por vários dias,
à noite as luzes de néon paradas
e, na manhã seguinte,
a tremedeira outra vez.
você pensa que o futuro
ainda não chegou, mas
de repente o terremoto
replicando faz tremer a língua
os dentes e tudo o que é
matéria.

por mais que use as palmas
para cobrir os ouvidos,
a ternura — o que você quer dizer? —
aliás, a tremura chega
arrastando tudo.
era como um país virando mar
um terremoto replicando
sem parar. se as réplicas consistem
em tremedeiras,  e se uma língua é desenhada
fora das linhas,
como conciliar o
inconciliável?, pergunto
no momento de maior
desligamento e
ele responde:
— agora o seu wasabi
tem radioatividade.
essa cor brilhante,
de um verde quase prata,
era como a luz batendo no mar
bem na hora em que o chão —
e tudo recomeça.

quero pedir
silêncio, mas não sei lidar
com o imponderável.
um dia acordo
e não espero
mais resposta.
980

uma mulher que se afoga

coloco a mão sobre o seu joelho
e você me olha de frente
                                   mas depois vira de lado ajeitando o
retrovisor por causa da chuva e eu quero dizer que aquela
frase era de uma canção, a mesma que você tinha usado
em outro lugar, então de novo você me olha
de frente
            e sorri interrogando
minha expressão sempre confusa
e eu queria dizer que na viagem fraquejei
que tenho medo de enlouquecer
que tenho medo do que está
por vir mas acabo contando a história
do homem que perguntava
você me ama?
                        depois de anos casado com a mesma mulher
e ela dizia
                  não
e ele com aquela música repetindo na cabeça
aquela música sem parar tocando
ao fundo ecoando
e ela
            não
e ele perguntava
                                   será que eu sou louco?
perguntava depois que o barco na enseada
ela indo embora, fugindo
eu sou louco?
perguntava depois do acidente, do barco apagando
bajo la lluvia, 24 vezes a mesma carta enviada com o nome dela
e o telefone chamando
na bolsa
            hoje ela me viu na rua e veio contar
o que tinha acontecido: vontade de gritar
vai embora daqui
                                   não quero mais ouvir essa voz
e ela falando sem parar e eu
coloco a mão sobre seu joelho e você
me olha na hora e ela dizendo na rua que
não tinha me reconhecido
antes
            por que então veio falar comigo?
mas não digo só penso e aquele silêncio
e ela dizendo que foi
por acaso
            tudo bem
                        de agora em diante
e eu pensando não me lembro o que dizer
nessas horas, não suporto, será que um dia?,
e você coloca a mão sobre o meu joelho e eu
olho para você de frente, ainda ouvindo canção
pergunta gritos de
afogamento
                        será que eu sou louco?
e digo que você é uma das poucas
pessoas que quero que fiquem aqui
e você me responde
nunca sonhei em conhecer alguém
como você
e eu olho de volta e digo
                                   você sabe que ninguém nunca
segurou minha mão assim?
você vira de lado ajeitando
o retrovisor e se projeta pra ultrapassar
o carro da frente.
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