Marina Tsvetaeva

Marina Tsvetaeva

1892–1941 · viveu 48 anos RU RU

Marina Tsvetaeva foi uma das mais proeminentes e originais poetisas russas do século XX, cuja obra é marcada por uma intensidade emocional avassaladora, um lirismo impetuoso e uma linguagem inovadora. Sua poesia, profundamente pessoal e universal ao mesmo tempo, explora temas como amor, exílio, solidão, a relação com a Rússia e a busca pela identidade. Marcada pelas turbulências históricas e pessoais de seu tempo, Tsvetaeva desenvolveu um estilo único, caracterizado por ritmos vigorosos, experimentação formal e uma voz poética inconfundível, que lhe garantiu um lugar de destaque na literatura russa e mundial.

n. 1892-09-26, Moscovo · m. 1941-08-31, Ielabuga

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Poetas

Poetas
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas… Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio… Porque a roda dos cometas –

É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.

É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde…-
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!

8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)

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Biografia

Identificação e contexto básico

Marina Ivanovna Tsvetaeva nasceu em 1892, em Moscou, na Rússia, e faleceu em 1941, em Elabuga, União Soviética. Foi uma das mais importantes e influentes poetisas russas do século XX, conhecida por sua poesia lírica intensa e sua vida marcada pelo exílio e pelas convulsões políticas de sua época. Sua nacionalidade era russa e a língua principal de escrita, o russo.

Infância e formação

Filha de um professor de história da arte e de uma pianista, Tsvetaeva cresceu em um ambiente intelectual e artístico. Desde cedo, demonstrou talento literário, escrevendo poesia em diversas línguas (russo, francês, alemão). Sua formação incluiu estudos musicais e literários, absorvendo as tendências culturais e artísticas de seu tempo, como o Simbolismo russo e a poesia europeia.

Percurso literário

O percurso literário de Tsvetaeva começou na juventude, com a publicação de seu primeiro livro, "O Álbum da Noite", em 1910. Sua obra evoluiu em fases distintas, refletindo suas experiências de vida, especialmente o exílio após a Revolução Russa. Atuou como tradutora e participou ativamente de círculos literários na Rússia, na Alemanha, na França e na Tchecoslováquia.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Tsvetaeva incluem "A Criação do Mito", "Poemas para Blok", "Canção da Montanha" e "Amores de Meu Marido". Seus temas centrais são o amor (muitas vezes trágico e intenso), a Rússia, o exílio, a solidão, a identidade e a relação entre a artista e o mundo. Seu estilo é notável pela força lírica, ritmos vigorosos, experimentação métrica e sintática, uso expressivo da pontuação e da acentuação para criar efeitos musicais e emocionais. Sua linguagem é densa, imagética e carregada de pathos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Tsvetaeva viveu durante um período de imensas mudanças: a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, o período de entreguerras e a Segunda Guerra Mundial. O exílio a afastou de sua terra natal por muitos anos, mas a Rússia permaneceu um tema central em sua obra. Sua geração, que incluía poetas como Anna Akhmatova e Osip Mandelstam, é frequentemente associada ao período de efervescência e tragédia da poesia russa.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Tsvetaeva foi marcada por intensas paixões, perdas e dificuldades. Seus relacionamentos amorosos foram tumultuados e inspiraram muitos de seus poemas. A separação de seu país, a morte de sua filha Irina, a ausência de seu marido Sergei Efron e a perseguição política somaram-se a um fardo emocional que se refletiu em sua obra. Viveu em pobreza e isolamento durante grande parte de seu exílio.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora admirada por muitos de seus contemporâneos, Tsvetaeva enfrentou dificuldades de publicação e reconhecimento oficial em vida, especialmente durante o período soviético. Sua obra começou a ser amplamente redescoberta e celebrada após sua morte, consolidando-se como um dos pilares da poesia russa e mundial.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por poetas como Blok e Baudelaire, Tsvetaeva, por sua vez, exerceu grande influência sobre gerações posteriores de poetas russos e internacionais. Sua força expressiva, a originalidade formal e a coragem em expor suas emoções a tornaram um ícone da literatura moderna.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tsvetaeva é frequentemente analisada sob a ótica de sua intensidade emocional, sua relação com a linguagem e a busca por liberdade artística e existencial. As interpretações críticas exploram a universalidade de sua experiência de exílio e a complexidade de suas representações do amor e da identidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é que Tsvetaeva, em seu exílio, desenvolveu uma forte amizade com o poeta Rainer Maria Rilke. Sua letra manuscrita, com suas características maiúsculas e pontuações expressivas, é um reflexo visual da força de sua voz poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Marina Tsvetaeva cometeu suicídio em 1941, em Elabuga, enquanto fugia da Segunda Guerra Mundial e enfrentava severas dificuldades. Suas obras foram gradualmente publicadas e reconhecidas na Rússia e no exterior, garantindo sua imortalidade literária.

Poemas

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Poetas

Poetas
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas… Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio… Porque a roda dos cometas –

É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.

É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde…-
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!

8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)

1 941

Tentativa de ciúme

Como vai você com a outra?
Fácil, não é? — Um golpe de remo! —
E de pronto a linha da costa
Se foi e você já nem se lembra
De mim, ilha flutuante
(No céu, por certo, não no mar)!
Almas! Almas! — antes amar
Como irmãs, não como amantes!
Como vai você com a mulher
Comum? Sem nada de divino?
Sem soberana, sem sequer
Um trono (você foi o assassino),
Como vai, meu bem? Tudo a gosto?
E o dia-a-dia — sempre igual?
Como você se arranja com o imposto
Da banalidade imortal?
"Mil sobressaltos, incertezas —
Basta! Vou arrumar um teto!"
Como vai, com quem quer que seja —
O eleito pelo meu afeto?
A comida é melhor, mais familiar?
Diga a verdade. Como vai
Você com a imitação vulgar —
Você, que subiu ao Sinai?
Como é viver com uma estranha?
Você a ama? Não disfarce.
O chicote de Zeus da vergonha
Nenhuma vez lhe zurze a face?
E a saúde, vai bem? Que tal
A vida — uma canção? A ferida
Da consciência imortal
Como a suporta, meu querido?
Como vai você com o adereço
De feira? A taxa é muito cara?
Como é aspirar o pó do gesso
Depois do mármor de Carrara?
(Deus talhado em barro, termina
Em pedaços!) Como é o convívio
Com a milionésima da fila
Pra quem já conheceu Lilit?
As novidades de feira
Se acabaram? Farto de portentos,
Como é a vida corriqueira
Com a mulher terrena, sem sexto
Sentido? Vamos, tudo cor
De rosa? Ou não? Aí, nesse oco
Sem fundo, amor, como vai? Pior
Ou igual a mim com outro?
(tradução de Augusto de Campos)
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Ensaio de ciúme

Como vai indo com a outra?
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,

vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!

Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa

de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?

"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?

Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa

da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?

Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?

Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?

(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?

Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?

Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?

(tradução de Décio Pignatari)

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Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.

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