Mário Cesariny

Mário Cesariny

1923–2006 · viveu 83 anos PT PT

Mário Cesariny de Vasconcelos foi um poeta português, figura proeminente do surrealismo em Portugal. Sua obra é caracterizada pela exploração do inconsciente, do onírico e da liberdade criativa, aliada a uma linguagem rica em imagens surpreendentes e associações inesperadas. Cesariny destacou-se também como ensaísta e tradutor, sendo um dos mais importantes poetas portugueses da segunda metade do século XX.

n. 1923-08-09, Lisboa · m. 2006-11-26, Lisboa

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Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

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Biografia

Identificação e contexto básico

Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu em Lisboa em 9 de agosto de 1923 e faleceu em Lisboa em 26 de novembro de 2006. Filho de Mário Vasconcelos e Maria de Jesus de Vasconcelos. Era português e escrevia em português. Viveu a maior parte da sua vida sob a ditadura do Estado Novo, um período em que o surrealismo em Portugal, apesar de censurado, encontrou formas de expressão e resistência.

Infância e formação

Cesariny teve uma infância marcada pela doença (tuberculose), o que o levou a um longo período de convalescença. Durante este tempo, desenvolveu um grande gosto pela leitura, descobrindo a poesia e as teorias psicanalíticas, que viriam a influenciar profundamente a sua obra. A sua formação formal foi interrompida por problemas de saúde, mas foi um autodidata voraz, devorando obras de literatura, filosofia e arte. A sua aproximação ao surrealismo deu-se através de leituras e contactos com outros artistas.

Percurso literário

O início da atividade literária de Cesariny remonta à década de 1940, com a publicação dos seus primeiros poemas. Foi um dos fundadores do surrealismo em Portugal, participando ativamente na criação do movimento no país. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo sempre uma forte ligação com os princípios surrealistas de exploração do inconsciente e da liberdade criativa. Publicou diversos livros de poesia, ensaios e traduziu obras importantes para o português. A sua participação em revistas e antologias foi fundamental para a divulgação do surrealismo em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais importantes de Mário Cesariny incluem "Corpo Visível" (1950), "Los! Los! Los!" (1952), "Manual de Prestidigitação" (1956), "Pena de Perdição" (1957), "Omeros" (1959), "A Memória Sonâmbula" (1962) e "O Viratempo" (1967). Os temas dominantes na sua poesia são o amor, a morte, o sonho, o mistério, a revolta contra a opressão e a celebração da liberdade. Em termos de forma, Cesariny experimentou com o verso livre, a fragmentação e a construção de imagens oníricas e surpreendentes. Utilizou um vocabulário rico e preciso, associando palavras de forma inesperada para criar efeitos de estranhamento e beleza. A sua linguagem é densa, imagética e musical, com um forte ritmo interno. A voz poética é frequentemente pessoal e confessional, mas também universal, explorando as profundezas da psique humana. O seu estilo é marcado pela originalidade, pela subversão da lógica e pela exploração do irracional. Cesariny é um dos expoentes máximos do surrealismo em Portugal, tendo introduzido e desenvolvido os seus princípios na literatura lusófona.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mário Cesariny viveu em Portugal sob a ditadura do Estado Novo, e o surrealismo, como movimento de vanguarda e de contestação, foi muitas vezes marginalizado ou censurado. No entanto, Cesariny e outros artistas surrealistas encontraram formas de manter viva a chama do movimento, dialogando com artistas de outros países e publicando em circuitos mais restritos. A sua obra é um testemunho da resistência cultural e da busca pela liberdade num regime autoritário. A sua geração foi marcada pela necessidade de criar uma arte que transcendesse as limitações impostas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Cesariny foi marcada pela sua dedicação à arte e à poesia. Teve relações afetivas importantes que inspiraram a sua obra. A sua ligação ao movimento surrealista foi uma constante, e ele dedicou grande parte da sua vida à defesa dos seus princípios. Foi um homem de grande inteligência e sensibilidade, que soube traduzir as suas vivências e reflexões no seu universo poético.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Mário Cesariny é um dos poetas portugueses mais importantes da segunda metade do século XX. Embora o surrealismo tenha enfrentado resistências, a sua obra foi gradualmente reconhecida pela sua originalidade e profundidade. Recebeu diversos prémios ao longo da sua carreira e é objeto de estudo em universidades e centros de investigação. O seu lugar no cânone da literatura portuguesa é incontestável.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Cesariny foi influenciado por André Breton, poeta e teórico do surrealismo, e por outros artistas surrealistas europeus, bem como pela psicanálise de Freud. A sua obra influenciou gerações posteriores de poetas portugueses, especialmente aqueles que se interessaram pela exploração do inconsciente e pela liberdade formal. O seu legado é a introdução e consolidação do surrealismo na literatura portuguesa, abrindo novos caminhos para a expressão poética e a exploração da subjetividade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Cesariny é frequentemente interpretada como uma jornada ao interior do ser, uma exploração dos mistérios da mente e do universo. Os seus poemas levantam questões sobre a natureza da realidade, do amor, da liberdade e da própria existência. As análises críticas destacam a originalidade das suas metáforas, a força das suas imagens e a capacidade de criar um universo poético único e envolvente.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua vida é a sua paixão por colecionar objetos, que ele considerava dotados de uma força surreal. A sua personalidade era a de um homem culto, irónico e profundamente dedicado à causa da liberdade criativa. A sua obra, muitas vezes incompreendida na sua época, revela uma visão do mundo que antecipou muitas das preocupações contemporâneas sobre a psique humana e a busca por sentido.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Mário Cesariny faleceu em Lisboa, aos 83 anos. A sua morte foi lamentada pelo mundo cultural português, que reconheceu a perda de um dos seus mais importantes poetas. A sua memória é celebrada através de edições das suas obras, exposições e estudos que continuam a desvendar a riqueza do seu universo poético.

Poemas

27

passagem dos elefantes

Elefantes na água optimistas à solta
optimistas à solta elefantes na árvore

elefantes na árvore optimistas na esquadra
optimistas na esquadra elefantes no ar

elefantes no ar optimistas em casa
optimistas em casa elefantes na esposa

elefantes na esposa optimistas no fumo
optimistas no fumo elefantes na ode

elefantes na ode optimistas na raiva
optimistas na raiva elefantes no parque

elefantes no parque optimistas na filha
optimistas na filha elefantes zangados

elefantes zangados optimistas na água
optimistas na água elefantes na árvore

4 999

Estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te vou perdendo a noção desta subtileza. Aqui chegado até eu venho ver se me apareço e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez
vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
5 803

voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

© 1957, Mário Cesariny
inPena Capital
4 744

O jovem mágico

O jovem mágico das mãos de ouro que a remar não se cansa muito e olha muito depressa (como se fosse de moto) veio hoje ficar a minha casa
Vivia longe
longe já se sabia
tão longe que era absurdo querer determinar
metade campo metade luz
aí era a sua casa o sítio onde era longe
mesmo de olhos
fechados (como ele estava)
e de braços cruzados (como parecia dormir)
o jovem mágico das mãos de ouro
que era todo de empréstimo à minha noite
que falou
por acaso que nem se chamava assim
(segundo também contou) tinha vivido há muito
ele, que estava ali, era um falsário
um fugido de outro basta ver os meus olhos
nada sabemos
de nós a não ser que chegamos
sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados de estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso
nem há
noites assim não há encontros
ao longo das enseadas
não há corpos amantes não há luzeiros de astros

sob tanto silêncio tão duradoura treva
e não
me fales nunca eu sou surdo eu não te oiço
eu vou nascer feliz numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora?
No entanto
surgiu como simples criança
conseguia sorrir sentar-se verter águas
com as maõs na cintura livre natural
ele que era um fantasma um fugido de outro
um que nem
mesmo se chamava assim
o jovem mágico nu de todos os sítios da Terra
6 533

O Raul Leal era

O Raul Leal era
O único verdadeiro doido do "Orpheu".
Ninguém lhe invejasse aquela luxúria de fera?
Invejava-a eu.

Três fortunas gastou, outras três deu
Ao que da vida não se espera
E à que na morte recebeu.
O Raul Leal era
O único não-heterónimo meu.

Eu nos Jerónimos ele na vala comum
Que lhe vestiu o nome e o disfarce
(Dizem que está em Benfica) ambos somos um
Dos extremos do mal a continuar-se.

Não deixou versos? Deixei-os eu,
Infelizmente, a quem mos deu.
O Almada? O Santa-Ritta? O Amadeo?
Tretas da arte e da era. O Raul era
Orpheu.

4 468

Eu, Sempre

Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

Mário Cesariny

4 650

Onan dos outros!

Onan dos outros! Ó deus que dás confiança
Só a quem já confia!
E não à morrente ou garça mão que se ansa
Varonil e vazia.

O Virgem Negra, tal me descobriram
Cincoenta anos depois,
Em minha infusão estou. Tombam, deliram
Em vão quantos seguiram

Minha viagem ao nunca ser dois.
No seu andor de luto e de desgraça
O Virgem Negra passa
Maior que todos os sóis.

Mário Cesariny

3 861

Quando, em boa estação

Quando, em boa estação,
Camões, o Cavalgante Castelhano,
Ler a minha "Mensagem"
Vai ficar todo o ano
A repensar a imagem
Do galaico-português
que ele desfez
E eu não.

Mário Cesariny

3 772

Os sebastiacas trombos não deixaram partir

Os sebastiacas trombos não deixaram partir
Portugal para o Brasil.
Vagos ficamos da amurada aos tombos
Para a largada rombos
Do corpo de Portugal.

Mas a Hora deixada ao sono vil
Dos que provendo tudo podem nada
Mais que o fogo senil
Do Império Final,
Cintila na amurada:
Não há Portugal e Brasil.
Brasil é Portugal.

Mário Cesariny

3 290

ESTADO SEGUNDO

Não houve
nunca
acima do mundo
alegre aventura
de um sol militar

4 051

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Comentários (2)

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euskadia

.....reticência para me congratular com o reconhecimento da rude dor de nada saber..... CESARINY, sei do que te li o mais profundo grito duma arte que desconheço, mas sei que teu reverberar vais mais longe que um ornar. Quem dera um dia um quadro Deus mo possa mostrar, qualificação maior para uma existência que eu nunca quero surreal

Rute Zita 73

Grande poeta e autor. Amo os seus poemas e as suas pinturas