Lista de Poemas

Meu Casal

Fica distante da cidade e em frente
À remansosa paz de uma enseada
Esta dos meus romântica morada,
Que olha de cheio para o Sol nascente.

Árvores dão-lhe a sombra desejada
Pela calma feição da minha gente,
E ela toda se ajusta ao tom dolente
Das cantigas que o Mar lhe chora à entrada.

Lá dentro o teu olhar de calmos brilhos,
Todo o meu bem e todo o meu empenho,
E a sonora alegria de meus filhos.

Outros que tenham com mais luxo o lar,
Que a mim me basta, Flor, o que aqui tenho,
Árvores, filhos, teu amor e o mar.

2 217

Caminho Errado

(fragmento)

Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.

Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.

E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.

Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.

Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...

Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.

A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.

1 205

Eterna

Intérmino que fosse o Caminho da Vida
E eterno o caminhar do nosso passo incerto,
Fosse na estrada larga ou fosse no deserto,
Sem lar, sem pão, sem paz, sem sol e sem guarida;

Intérmina que fosse a estrada percorrida.
Sob o Céu todo azul ou de nuvens coberto
E, o repouso fatal nunca estivesse perto
E a distância final nunca fosse vencida;

E vencendo ao caminho as urzes e os escolhos,
As lutas, o pavor, o cansaço do dia,
A fraqueza do passo, a tristeza dos olhos;

Meu pobre coração nessa eterna ansiedade,
Nesse eterno sofrer, eterno arrastaria
Esta triste, esta longa, esta eterna Saudade.

1 486

Madrigal

Teu olhar é tão manso,
Tão de ardências febris desprevenido e leigo,
Tão suave, tão bom, tão cheio de descanso;
Tão sereno é teu beijo,
Tão leve, tão sutil o teu próprio desejo;
Tudo
Em ti é tão meigo.
Sentimentos e Carne, Olhar, Voz e Carinhos.
Que muita vez sentindo,
Junto de mim o teu aspecto lindo,
Que meu amor intenso,
Indômito, açulado, espera e espreita,
Penso
Que tu, Querida, tu, és toda feita
De arminhos
E veludo.

Quer num suave enleio
Sentimental,
De idílio e de bondade,
Onde somente se destaque e arda
De ser querida a íntima alegria;
Quer na intimidade
Dominadora e treda,
De um lascivo coleio,
Quase de invertebrada e quase de oriental,
És a mesma de sempre, aromada e macia,
Oh! meu anjo de guarda!
Oh! minha linda Salomé de seda!

Um lago,
Sem ritmos agitados,
De água de brilho de aço,
Clara, fresca, parada,
Sob a seda de um Céu, à noite, em pleno Outono;
Um recanto de terra estéril, isolada,
Cheia de sugestões, de sossego e de sono,
De distância e de espaço,
Não tem a penugem do afago
Deste afago normal dos teus olhos dourados.

Estas longas arcadas solitárias,
De antigas abadias
Largas, sonoras e sombrias
E legendárias,
Da simbolizarão do sossego e da paz,
Da vida que repousa,
A fugir do rumor que atormenta e que infesta
O caminho vulgar que a vida humana pousa,
Tem qualquer coisa
Da honesta mansidão da tuAlma de honesta.

Quando mais para a Terra teu amor dirijo
E o quero mais humano
E exijo
Que meu desejo dessedentes
Em carícias mais fortes e mais francas
E te imploro

O sabor aromal do teu beijo sonoro,
Não me ficam nos lábios
Acídulos ressábios
Da ânsia sensual de onde a Volúpia espouca...

Só me fica na boca
A macia impressão de que beijo asas brancas.

1 230

Trecho Final

Meia tinta de cor dos ocasos do Outono
Sonho que uma ilusão sobre a vida nos tece
E perfume sutil de uma folha de trevo,
São, decerto, a feição deste livro que escrevo
Neste ambiente de silêncio e sono
Nesta indolência de quem convalesce.

Meu livro é um jardim na doçura do Outono
E que a sombra amacia
De carinho e de afago
Da luz serena do final do dia;
É um velho jardim dolente e triste
Com um velho local de silêncio e de sono
Já sem luz de verão que o doire e tisne,
Mas onde ainda existe
O orgulho de um Cisne
E a água triste de um Lago.

1 434

Íntimo

(fragmento)

A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto,
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o — do ganha-pão — rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.

E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.

Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.

1 106

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Identificação e contexto básico

Mário Pederneiras foi um poeta, escritor e jornalista português. A sua obra está associada a uma lírica introspectiva e reflexiva.

Infância e formação

Informações sobre a infância e formação de Mário Pederneiras são escassas na documentação publicamente disponível, mas a sua posterior atividade literária e jornalística sugere uma formação cultural sólida.

Percurso literário

Mário Pederneiras iniciou o seu percurso literário com a publicação de obras poéticas que revelam um estilo maduro e uma profunda sensibilidade. A sua atividade como escritor estendeu-se a outras formas de expressão, incluindo a prosa e a participação em órgãos de comunicação social.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Mário Pederneiras é marcada por uma poesia lírica, com uma forte componente introspectiva e existencial. Os temas recorrentes incluem a passagem do tempo, a memória, a melancolia e a condição humana. O seu estilo caracteriza-se por uma linguagem cuidada, um ritmo cadenciado e uma imagética evocativa, que conjuga a sensibilidade com a profundidade reflexiva. Embora não seja diretamente associado a um movimento literário específico, a sua obra dialoga com a tradição da poesia lírica portuguesa, explorando, contudo, uma voz singular e um olhar particular sobre o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A atividade de Mário Pederneiras decorreu num período de significativas transformações em Portugal, embora os detalhes sobre o seu envolvimento direto com eventos históricos ou círculos literários específicos sejam limitados na informação pública.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Mário Pederneiras, incluindo relações afetivas, familiares ou convicções filosóficas, não é amplamente documentada nas fontes acessíveis.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Mário Pederneiras assenta na sua qualidade literária e na sua contribuição para a poesia portuguesa, embora a extensão da sua receção crítica e popularidade académica possa não ser tão proeminente como a de outros autores de maior projeção.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências específicas que moldaram a escrita de Mário Pederneiras não são detalhadamente documentadas. No entanto, o seu legado reside na sua contribuição para a poesia lírica contemporânea, com uma obra que convida à reflexão e à introspeção.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mário Pederneiras oferece terreno fértil para análises críticas focadas na exploração da subjetividade, da transitoriedade da vida e da busca por significado num mundo em constante mudança.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da sua vida pessoal ou hábitos de escrita de Mário Pederneiras não são facilmente acessíveis na documentação pública.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre as circunstâncias da morte de Mário Pederneiras e a existência de publicações póstumas não estão detalhadamente disponíveis.