Lista de Poemas

Quando um dia estiver morta

Quando um dia estiver morta
e sobre mim caírem os adjetivos mais ternos,
não vou mover um dedo
de dentro do meu silêncio:
vou desdenhar do eterno
o que sempre chegou tarde,
demais, quando já nem era preciso.

1 274

Pior que o cão é sua fúria

Pior que o cão é sua fúria,
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.

1 228

Parecia um pássaro

Parecia um pássaro, um frêmito
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.

1 237

Não conheci o desterro

Não conheci o desterro,
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?

1 165

Eu tão prepositiva, desfaleço

Eu, tão prepositiva, desfaleço,
na contorção do que se me propõe:
o mundo não se esquiva à inquisição,
o medo não é bom amigo, o medo
indica a minha forma de não ver
a vã provocação.
Que estreito este caminho, que murado!
Tão pouco que eu ousasse e já seria
talvez o passo necessário
no sentido de ter ou de abster-me,
mas sempre um passo, um movimento,
a voz, um surdo grito, sussurrando
o enleio que o amor conhece,
entretecendo com a hera que cobre o corpo
a matéria do meu espírito,
o seu sigilo, a disputa, os meus dispersos sentidos.

1 158

Minha felicidade vem de quando estou só

Minha felicidade vem de quando estou só
e ninguém me interrompe no poema,
essa espécie de transfusão
do sangue para a palavra,
sem qualquer estratagema.
A palavra é meu rito, minha forma
de celebrar, investir, reivindicar:
a palavra é a minha verdade,
minha pena exposta sem humilhação
à leitura do outro,
hypocrite lecteur, mon semblable.

1 234

Perdi a capacidade de assombro

Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.

1 384

Natal

Natal. Nesta província não neva,
mas a chuva anda constante,
e anda tão longe, perdido,
o que a alma busca na treva.

Que me ficou do ano findo?
Que se pode aprender neste Natal?
A renascer, gritam os sinos,
embora todos saibam que é mortal
aprendizagem essa, sem sossego.

Nasce um deus de palha que o cerca
e nos convida a reviver sua paixão,
já não a cada ano, a cada instante
renovada. E o sangue se rebela
e tem vontade de dizer-lhe não.

1 373

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Marly de Oliveira foi uma escritora e poeta brasileira. Nasceu em Cataguases, Minas Gerais, e viveu a maior parte da sua vida no Rio de Janeiro, onde faleceu. Escreveu em língua portuguesa.

Infância e formação

Passou a infância e a juventude em Minas Gerais, numa cidade do interior que marcou a sua sensibilidade. A sua formação literária foi em grande parte autodidata, nutrida por leituras extensas de poesia e prosa, o que lhe conferiu uma vasta cultura literária. Absorveu influências de diversos autores e correntes literárias, que soube reelaborar de forma muito pessoal.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se com a publicação de poemas em jornais e revistas literárias. A sua obra poética evoluiu ao longo do tempo, demonstrando uma maturidade crescente na exploração de temas e na depuração do estilo. Marly de Oliveira participou ativamente em círculos literários e culturais, contribuindo para a renovação da poesia brasileira. Também exerceu atividade como crítica literária e tradutora.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras poéticas incluem "O Nome das Coisas" (1967), "O Livro do Tempo" (1973), "A Dança das Sombras" (1977), "O Caçador de Melodias" (1981) e "Os Olhos de Verão" (1984). Os temas centrais da sua obra são a memória, o tempo, o corpo (especialmente o feminino), a sensualidade, a efemeridade da vida, a solidão e a busca por sentido. O seu estilo é marcado por uma linguagem lírica e precisa, pela musicalidade do verso, pela contenção expressiva e por uma profunda capacidade de introspeção. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com um rigor formal notável, explorando a sonoridade das palavras e a força das imagens. A voz poética é, na maioria das vezes, pessoal e confessional, mas com uma ressonância universal. A sua obra dialoga com a tradição, mas insere-se claramente no contexto da poesia brasileira contemporânea, com ecos do modernismo e de outras correntes.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Marly de Oliveira produziu a sua obra num período de intensas transformações sociais e políticas no Brasil, incluindo a ditadura militar e o período de redemocratização. Foi contemporânea de muitos dos grandes nomes da literatura brasileira, com quem partilhou debates e influências. A sua poesia reflete, de forma subtil e pessoal, as angústias e as reflexões do seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Marly de Oliveira, embora discreta, foi marcada pela sua intensa dedicação à escrita e à arte. As suas experiências e vivências, especialmente a sua sensibilidade para as questões femininas e existenciais, moldaram a sua obra, conferindo-lhe uma profundidade e uma autenticidade notáveis.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Marly de Oliveira é amplamente reconhecida como uma das vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea. A sua obra tem recebido o elogio da crítica e conquistado um número crescente de leitores, que apreciam a sua sensibilidade lírica, a sua inteligência poética e a sua capacidade de abordar temas universais com uma linguagem pessoal e cativante.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por poetas como Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, Marly de Oliveira legou à literatura brasileira uma obra de grande originalidade e sensibilidade. A sua poesia continua a inspirar novas gerações de escritores, que encontram nela um modelo de rigor estético e profundidade existencial. O seu legado reside na capacidade de traduzir a complexidade da experiência humana em versos de grande beleza e rigor.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Marly de Oliveira é frequentemente analisada sob a ótica da exploração da memória, do tempo e da corporeidade. As críticas destacam a sua mestria na construção de imagens poéticas, na exploração da fragilidade humana e na busca por um sentido na existência, tudo isso expresso numa linguagem depurada e musical.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Era conhecida pela sua discrição e pela sua dedicação intensa ao ofício da escrita. A sua relação com a natureza e com os objetos do quotidiano era fonte de inspiração para a sua poesia, que sabia extrair beleza e significado do aparentemente banal.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Marly de Oliveira faleceu em 2010. A sua obra permanece viva, sendo objeto de estudo e leitura, e a sua memória é honrada como a de uma das grandes poetas brasileiras do século XX e XXI.