Poema da Alemanha
Os mortos dos campos da Alemanha crescem
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
Escurecer o Quarto
Quero fechar as janelas, estancar o vento,
esconder o sol em anéis de nuvens cinza
escurecer paredes onde mora o corpo.
Anoitecer a respiração dos móveis
guardar os relógios no mar.
- Meu espírito precisa de silêncio -
Palavras
O vegetal que me cerca e envolve meu corpo arreia as correntes dos braços. Deixaremos vidros quebrados nas manhãs e o sol brotará sementes de milho. Chegará a época de recriarmos o solo da terra, de aleitarmos a infância. Deve existir uma mudança cósmica neste pó que habitamos. Sorveremos água das pedras e as montanhas que nos cercam perderão a chave. Ao abrir as portas, a palavra chegará na ponta do mar. A areia quente das praias vai sorver borboletas. Descobrirão que a poesia chega no vento. Ela precisa de olhos além do infinito. O poeta não deve sair de sua solidão. Quieto em seu canto, armazena a alquimia. Existem palavras que são lâminas cortando veias. E essas veias sangrarão as faces nodosas. Destruiremos o lodo, mas a erva continuirá crescendo nas noites. Jogaremos margaridas brancas, poucos estenderão as mãos para colhê-las.
Juízo Final
Segurando em minhas mãos
olhos prisioneiros, mudarei
o mundo, antes de um anjo de palha
anunciar o fim.
Água da Chuva
Muitos homens rastejam como a serpente
envenenam a água da chuva
esquecem que existe um rosto no cosmo.
Meninas de Tamancos
Cirandas jogando tempo
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol
O barulho da memória acorda a alma.
O Retrato de Biel
(Em memória do Poeta e Professor
Gabriel Archanjo de Mendonça)
Vestia o inverno, na foto marcando viagem. Os olhos vinham das águas, do rio, dos pássaros que voavam em seu corpo. A voz cantava uma canção. Canção embrenhada na distância. No silêncio, a risada de Biel. Existia um olhar aberto à procura dos seres que formavam o caule da vida. Reencontro de amigos. O mistério do espírito se preparando ao hiato da ausência. Biel desenhava no porão. Os olhos em vigília. Olhava os campos calcinados, onde borboletas secas dormiam. Biel, inflexão do corpo criando versos de origem, criando grãos no espaço. Biel menino. Ah, os cabelos de Biel! O canário nos dedos trazia o sol. Biel, viajante de tudo que já foi visto. Rindo, rindo, rindo, do barco à espera. Tantas flores chegando. A festa de Biel
O desamparo arrastando o sino. Formigas retalhando memórias. O desgaste no oco dos olhos. Poemas guardados em álbuns amarelados, trazendo emoções. Fazia frio no dia 31 de julho de 1996. Tarde de Biel. De poemas. À margem da praia distante vejo o texto crescendo. Uma flor azul entre as pedras dorme o fim. Biel menino, poeta, desenhista, cantor de canções perdidas. Nada explica o professor do vento da velha São João Nepomuceno.
Leio sua poesia, vejo o retrato vestido de inverno. Encarno a geografia de sua vida. O vôo não foi rasteiro. Plantaram a semente. Depois o pânico do silêncio. Lá fora a chuva marca o nascimento do poeta.
A Voz de Meus Cata-ventos
"A Voz de Meus Cata-ventos", de Marco Antonio Souza, traz o vento de um bom texto. O interesse pela leitura, a liberdade ornamental das palavras formam poemas sínteses onde o ordinário da vida cresce a árvore da criatividade. Os elementos usados na composição são de uma solidez unânime. O fluir da filosofia veste de linho as palavras. Marco Antonio se põe a pintar o avô no poema "Morto": "Avô Alírio e as nódoas roxas/ no cavo rosto e flácido corpo,/ deitado e sem siso,/ mais agônico, mais morto." Daí decorre o domínio da pintura abrindo os olhos para o "eu" do poeta. Este "eu" transfigura o irreal no real das coisas perenes.
Marco Antonio faz um seletivo de temáticas abrindo um leque transcendental de conhecimentos exigidos na arte poética. Se de todo os poemas não se mostram na primeira leitura, o leitor descobre a evolução de imagens, a paisagem, a captação mineral silábica dos versos. Do poema "Hora Absurda": "Certos anzóis/ fisgam almas como a servidas hóstias: / Satã." A expressão absurda é uma constante na poesia de Marco Antonio Souza. Uma alquimia descobre o avesso da alma, do corpo, das mãos do poeta. Os vegetais estão presentes e germinam nos lábios. Símbolos, o arbitrário, o inovado, cromatizam a fala. O livro é invadido pelo estado de consciência. O breve poema "O Doente" é de uma realidade tocante: "Cosme cruel, o náusea,/ vestia-se de sujo e já era morto/ com assombradas luas revisitadas pela loucura.
Abandono da pessoa humana ganha amplitude e dualização visual na estrutura poética. Anjos, quintais, horas, avô, flores, figuras, alma, náuseas, sonhos criam uma anatomia. O retrato do poeta já marca o artista dentro do texto. "A Voz de Meus Cata-ventos" indaga o tempo no relógio da sala. Banha o mar interior do leitor, caracterizando um discurso a que não podemos ficar indiferentes. A solidão que encontramos na leitura dos poemas é um exemplo de forma aberta a muitas releituras. A palavra deve ser recebida no silêncio. Almejamos, de certo modo, um andamento ao livro em toda sua conclusão.
Imagem
Vestida de branco, olho borboletas
voando flores vermelhas do jardim:
lagarta na folha do antúrio.
Há alguém na nuvem despertando o cansaço
das mãos.
O pássaro de Pedra
(... sucumbiremos para renascer sem calendário e roda de fiar.)
Sérgio Campos
Era dezembro. O anjo vestido de açafrão
voava na Estrada da Bica. O flamboyant
florido. O poeta recolhia o silêncio nos olhos.
Pastorava poemas o rosto perdido no tempo.
Ouvia os pardais na janela. Longe, o sonho derretendo
no último verão. O pássaro se esconde do dilúvio.
Os escorpiões estancam o relógio de marrom glacê.
O sal nas paredes, vultos alastram lembranças.
O poeta sente as vértebras soterradas. A liberdade
da mão forma concha e asas morrem no pórtico da casa.
Era dezembro. O anjo vestido de açafrão sangrou a túnica
do poeta. Levou os pardais. O vento sopra na noite os lábios
de pedra.
Vejo a tocha da poesia no caminho. Coloco âncoras,
os sinos dobram, escuto ladainhas de Ouro Preto.
A clarineta veste a alma e papoulas enfeitam nuvens.
Viaja para o equinócio. Seu corpo é o mito da linguagem.
Coloco o manto de lã repleto de memórias. O vôo leva os pardais.