Somos Poucos no Mar
Estamos apanhando mariscos nas pedras
água verde vai e vem jogando espuma.
Gaivotas voam, bicam peixes.
Somos poucos, quase nada na imensidão
humana.
Nossos corpos vestem roupas diferentes.
Enfeitamos os pêlos e músculos.
O choro sai das unhas
mas temos asas para fugir dos abismos.
Aclive da Encubadeira
À Laene Teixeira Mucci
Ao seu livro Aldelin, feito
no computador (Encubadeira)
A emanação das águas nos arrozais
onde pássaros cansados buscam
a semente. O aclive da linguagem
no oxigênio do tempo guarda tâmaras
de verdes Natais. A colagem dos sóis
traz o mercúrio da virada do século.
São teclas mágicas, duendes da alma.
Vento brando acordando moléculas na tarde.
Será o aclive memória das folhas ou memória
das gaivotas em mares antigos. O poeta aprisiona
anéis na encubadeira e escolhe os dedos. Sopra
o giz das palavras. Aldelin, terra sem dono.
Aldelin, território que Marco Polo não viu.
Ar, água, fogo, no solo bruto da terra.
Ternuras vindas do cerne de outras peles.
Cheiro de figo do pomar do avô.
Arco de cobre em Aldebarã.
Aldelin, aclive na encubadeira.
Ilha do corpo ou mariposa voejando.
Filtro do cosmo em noite de jejum
Onde os insetos banham os olhos.
Aldelin, a palavra morre. Meu canto
é o nada diante de seus símbolos.
Imagem
Vestida de branco, olho borboletas
voando flores vermelhas do jardim:
lagarta na folha do antúrio.
Há alguém na nuvem despertando o cansaço
das mãos.
Retrato do Poeta
Companheiro do vento, rosto de sal.
Ontem existia energia nos olhos.
O pórtico do tempo aberto ao silêncio
da alma.
Nossos fracassos nossos fracassos
desenhados na imaginação.
Homens de Lã
Todos os limites planaram
na linha do infinito. Descobrirei
o segredo das sementes, a calma
de suas raízes. O peixe, o barco
no mar. Anjos mergulhando sorrisos
no rosto. Terra orvalhada de chuva.
Montanhas vasando imagens do vento.
Antes da queda do poeta,
carneiros não deixarão os homens
roubar a lã.
O vento nas Folhas
Converso com o tamarindo e escuto
o vento nas folhas.
A palavra cobre a terra, cobre
as mãos inquietas. A idade é remota.
Longe ficaram as sementes.
A idade cega os olhos e invade a morte.
Não tenho o sono do limbo. O muro nasce
a erva no pôr-do-sol. A árvore vem do tempo
das águas e traz a maresia dos cardumes.
O silêncio das nascentes guarda a lonjura
da canção. O mesmo silêncio no verde pinheiro.
O verso perdeu o sol. Quero falar da criança
da rosa do último adeus da velha casa.
Sombras habitam o âmago do texto.
Converso com o tamarindo a história da alma.
A alma se esqueceu das estrelas. O medo
das confissões e o desespero da fala abrigam
um século de vida nos dedos nodosos de sonhos.
Meninas de Tamancos
Cirandas jogando tempo
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol
O barulho da memória acorda a alma.
Simples Cerejas
Eram apenas cerejas na cesta
ao sorvê-las senti
algo dentro de mim.
Um sino libertando os olhos
do velho telhado.
Juízo Final
Segurando em minhas mãos
olhos prisioneiros, mudarei
o mundo, antes de um anjo de palha
anunciar o fim.
Água da Chuva
Muitos homens rastejam como a serpente
envenenam a água da chuva
esquecem que existe um rosto no cosmo.