Lista de Poemas

Minha Mãe

Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma
Para me abençoar e proteger,
Teu puro amor o coração me acalma;
Provo a doçura do teu bem-querer.

Porque a mão te beijei, a minha palma
Olho, analiso, linha a linha, a ver
Se em mim descubro um traço de tua alma,
Se existe em mim a graça do teu ser.

E o M, gravado sobre a mão aberta,
Pela sua clareza, me desperta
Um grato enlevo, que jamais senti:

Quer dizer — Mãe! este M tão perfeito,
E, com certeza, em minha mão foi feito
Para, quando eu for bom, pensar em ti.

7 436

Soneto

Antes de conhecer-te, eu já te amava.
Porque sempre te amei a vida inteira:
Eras a irmã, a noiva, a companheira,
A alma gêmea da minha que eu sonhava.

Com o coração, à noite, ardendo em lava
Em meus versos vivias, de maneira
Que te contemplo a imagem verdadeira
E acho a mesma que outrora contemplava.

Amo-te. Sabes que me tens cativo.
Retribuis a afeição que em mim fulgura,
Transfigurada nos anseios da Arte.

Mas, se te quero assim, por que motivo
Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura,
Mais que loucura, um crime desejar-te?

2 563

Inocência

Criança ingênua, o dia inteiro,
com os meus caniços de taquara,
ficava eu, ao sol de então,
junto dos tanques, no terreiro,
soprando a espuma, leve e clara,
fazendo bolhas de sabão.

Corando a roupa, entre cantigas,
as lavadeiras, que passavam,
interrompiam a canção...
Riam-se as pobres raparigas,
vendo as imagens que brilhavam,
nas minhas bolhas de sabão.

Cresci. Sofri. Sonhando vivo.
E, homem e artista, ainda agora,
me apraz aquela distração...
E fico, às vezes, pensativo,
fazendo versos, como outrora
fazia bolhas de sabão.

E velho, um dia, de repente,
sem ter, de fato, sido nada,
pois tudo é apenas ilusão,
há de extinguir-se a alma inocente
que em mim fulgura, evaporada
como uma bolha de sabão.


Publicado no livro Verão (1917).

In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.73. (Nossos clássicos, 40
2 823

A Água Toda Secou até nos Olhos

— Meu culto ao Ceará, Coração do Brasil.

O rio vai morrer, sem que nada o socorra,
sem que ninguém, jamais, bendiga o moribundo.
Morre na solidão, no silêncio profundo,
e o malárico mal o mantém em modorra.

A enfermidade faz que da boca lhe escorra
o limo, feito fel, viscoso e nauseabundo.
E o terror se lhe vê das órbitas ao fundo.
Paralítico jaz na estreitez da masmorra.

Tu só, tu, meu Irmão, que a miséria não vence.
Que suportando a sede, a fome, a febre, o frio,
sem que prêmio nenhum teu martírio compense.

Poeta, herói, semideus, sabes o desvario,
a sobre-humana dor, a bravura, cearense,
de quem se suicidou, vendo morrer o rio.


Publicado no livro Guanabara (1936).

In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.47-48. (Nossos clássicos, 40
1 709

Ser Paulista

Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.

Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.

Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.

Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!

4 289

Balada Madrigalesca

À moda clássica, ao sabor
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.

Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.

Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.

OFERTA

Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...


Publicado no livro Verão (1917).

In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.44-45. (Nossos clássicos, 40
1 580

Otelo

Quem minha angústia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.

Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!

Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!

Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!


Publicado no livro Verão (1917).

In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
2 127

Monotonia Rítmica

BORODIN

Era uma noite negra, horrendamente negra,
Horrendamente negra,
como o corvo do Poe, horrendamente negra.

Eu tremia, a gelar, na solidão goiesca,
na solidão goiesca,
inteiramente só, na solidão goiesca.

Nisto, vejo surgir um lívido fantasma.
um lívido fantasma,
um hamlético e longo e lívido fantasma.

Retransido, sem voz, perguntei com os olhos,
perguntei com os olhos,
quem és tu, quem és tu! — perguntei com os olhos —

E o avejão respondeu: — Eu simbolizo o Nada!
— Eu simbolizo o Nada!
E desapareceu... — Eu simbolizo o Nada!


Publicado no livro A Flauta Encantada (1931).

In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.59. (Nossos clássicos, 40
1 782

Na Medida Velha da Ensinança

Menina Briolanja
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.

És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.

À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.

Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.

É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.


Publicado no livro Rosicler (1928).

In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.82-83. (Nossos clássicos, 40
1 442

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Identificação e contexto básico

Nome completo: José Martins Fontes Data e local de nascimento: 23 de julho de 1884, São Paulo, Brasil Data e local de morte: 23 de fevereiro de 1911, São Paulo, Brasil Nacionalidade: Brasileira Língua(s) de escrita: Português Contexto histórico em que viveu: Final do século XIX e início do século XX no Brasil, um período de transição cultural e social.

Infância e formação

Martins Fontes nasceu numa família abastada de São Paulo, o que lhe proporcionou acesso a uma boa educação. Embora tenha tido uma vida relativamente curta, a sua formação intelectual foi moldada pela leitura e pela influência do ambiente cultural da época.

Percurso literário

Martins Fontes iniciou a sua carreira literária cedo, demonstrando aptidão para a poesia. A sua obra, embora não vasta em volume, é marcada por uma maturidade precoce. Foi também ativo como tradutor e editor, áreas que complementaram a sua atuação como poeta.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais: "O Livro de Job" (tradução, 1910), "O Sonho de um Velho" (poesia, póstumo, 1911). Temas dominantes: Amor, saudade, efemeridade da vida, a busca pela beleza, melancolia. Forma e estrutura: A sua poesia demonstra um domínio das formas tradicionais, mas também uma sensibilidade que prenunciava tendências modernas. Recursos poéticos: Uso de metáforas delicadas, ritmo e musicalidade que conferem às suas composições uma sonoridade particular. Tom e voz poética: Lírico, introspectivo, por vezes elegíaco. Linguagem e estilo: Linguagem cuidada, com um vocabulário rico e uma expressividade marcada pela subjetividade. Inovações formais ou temáticas: Embora alinhado com a tradição, a sua sensibilidade prenunciava a renovação estética que viria com o Modernismo. Movimentos literários associados: Pré-Modernismo, com fortes laços com o Simbolismo. Obras menos conhecidas ou inéditas: "O Sonho de um Velho" foi publicado postumamente.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu num período em que o Brasil passava por transformações significativas. A elite intelectual paulistana, a que pertencia, era influenciada pelas correntes estéticas europeias. A sua obra dialoga com a sensibilidade parnasiana e simbolista, mas aponta para uma expressão mais pessoal e introspectiva.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Martins Fontes teve uma vida marcada pela doença, que o levou precocemente. A sua dedicação às letras foi intensa durante o curto período de vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da sua obra ocorreu em grande parte postumamente, com a publicação de "O Sonho de um Velho". A sua sensibilidade e a qualidade da sua poesia foram gradualmente apreciadas pela crítica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciou poetas posteriores pela sua delicadeza lírica e pela exploração de temas existenciais com uma voz própria. A sua obra é um exemplo da poesia brasileira do início do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A sua poesia é frequentemente analisada sob a ótica da melancolia e da busca por um ideal inatingível, refletindo as angústias existenciais da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Martins Fontes também se dedicou à tradução, sendo a sua versão de "O Livro de Job" notável.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Morreu jovem, vítima de tuberculose. A sua memória literária foi preservada através da publicação póstuma da sua obra e do reconhecimento da sua contribuição para a poesia brasileira.