Mauro Mota

Mauro Mota

1911–1984 · viveu 73 anos BR BR

Poeta, jornalista e professor brasileiro, Mauro Mota destacou-se pela sua lírica profundamente ligada à identidade e à paisagem do Nordeste. A sua obra explora as riquezas culturais e sociais da região, muitas vezes com um tom de exaltação e um olhar aguçado sobre as suas contradições. A sua poesia é marcada por uma linguagem acessível, mas rica em imagens e musicalidade, refletindo uma forte consciência social e um amor genuíno pela sua terra. Tornou-se uma voz representativa da poesia nordestina no cenário literário brasileiro.

n. 1911-08-16, Nazaré da Mata · m. 1984-11-22, Recife

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Natal

Natal, antes e agora 
imutável. Feliz 
noite branca sem hora 
no pátio da Matriz. 

Natal: os mesmos sinos 
de repiques iguais. 
Brinquedos e meninos, 
Natal de outros natais. 

A Banda, vozes, passos 
da multidão fiel. 
Tudo nos seus espaços, 
o mundo e o carrossel. 

Tudo, menos o andejo 
homem que se conclui. 
Olho-me, e não me vejo, 
não sei para onde fui.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Mauro Mota, nome literário de Mauro Bastos Mota, foi um proeminente poeta, jornalista e professor brasileiro. Nasceu e viveu a maior parte da sua vida no Nordeste do Brasil, região que se tornou central na sua obra. Nacionalidade brasileira, escreveu predominantemente em português.

Infância e formação

A sua infância e juventude foram vividas num contexto que lhe permitiu desenvolver um profundo apreço pela cultura e pelas tradições nordestinas. A formação educacional, aliada a uma intensa atividade de leitura e a um contacto próximo com o ambiente social e cultural da sua região, moldaram a sua visão de mundo e a sua sensibilidade poética. Absorveu influências diversas que se refletiram na sua escrita, desde a literatura clássica a manifestações culturais populares.

Percurso literário

Mauro Mota iniciou o seu percurso literário cedo, revelando um talento precoce para a poesia. A sua escrita evoluiu ao longo do tempo, mantendo, contudo, um fio condutor ligado à temática nordestina. Publicou em diversos jornais e revistas, participando ativamente da vida cultural do seu tempo. Paralelamente à sua atividade poética, exerceu o jornalismo e o magistério, profissões que lhe proporcionaram uma visão multifacetada da sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Mauro Mota são notáveis pela sua exploração da identidade nordestina, abordando temas como a paisagem, a cultura, a religiosidade popular, as injustiças sociais e o amor pela terra. O seu estilo é marcado por uma linguagem lírica, acessível e musical, com forte apelo imagético. Frequentemente utilizava formas poéticas tradicionais, mas também experimentava com o verso livre. A sua voz poética é frequentemente confessional e engajada, expressando um forte sentimento de pertença e uma crítica social ponderada. O seu vocabulário reflete a riqueza da língua portuguesa falada no Nordeste. A obra de Mota insere-se frequentemente no contexto do Modernismo brasileiro, com ênfase na valorização da cultura regional. Algumas das suas obras menos conhecidas podem estar dispersas em publicações periódicas ou antologias específicas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mauro Mota viveu numa época de transformações sociais e culturais no Brasil, especialmente no Nordeste. A sua obra dialoga com os movimentos literários do Modernismo brasileiro, que buscavam uma identidade nacional autêntica e a valorização das raízes culturais. A sua posição social e a sua profissão de jornalista deram-lhe uma perspetiva privilegiada sobre os acontecimentos sociais e políticos da sua época, que se refletem de forma subtil ou explícita na sua poesia. A sua poesia é um reflexo da busca por uma expressão cultural autêntica num Brasil em constante mutação.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As relações pessoais de Mauro Mota, nomeadamente os laços familiares e afetivos, assim como as suas amizades e convivência com outros intelectuais, certamente influenciaram a sua sensibilidade. O facto de ter sido jornalista e professor indica uma vida dedicada à comunicação e à educação, profissões que lhe permitiram um contacto direto com diversas camadas da sociedade. As suas crenças e a sua visão de mundo moldaram a sua produção poética, conferindo-lhe profundidade e autenticidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Mauro Mota obteve reconhecimento como um importante poeta nordestino, com uma obra apreciada tanto pelo público quanto pela crítica. As suas contribuições para a literatura brasileira, especialmente na vertente que celebra a cultura regional, garantiram-lhe um lugar de destaque. A sua poesia foi divulgada em diversas publicações e antologias, consolidando a sua presença no cenário literário.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de Mauro Mota reside na sua capacidade de capturar a essência do Nordeste brasileiro na sua poesia. Influenciou gerações de poetas que buscaram inspiração na sua obra para explorar as suas próprias identidades regionais e culturais. A sua poesia continua a ser estudada e apreciada pela sua qualidade literária e pelo seu valor documental e afetivo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mauro Mota pode ser interpretada sob a ótica da valorização cultural e da crítica social. As suas análises sobre a identidade nordestina e as suas reflexões sobre a condição humana em contextos específicos revelam profundidade filosófica e existencial. As suas críticas podem centrar-se na forma como a poesia aborda a realidade social e cultural do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da sua personalidade ou hábitos de escrita podem estar relacionados com a sua rotina como jornalista e professor, que certamente influenciavam o seu tempo dedicado à poesia. A sua ligação íntima com os costumes e a linguagem do Nordeste é um aspeto que certamente permeia a sua criação de forma autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre as circunstâncias da morte e publicações póstumas de Mauro Mota podem complementar o conhecimento sobre o autor e a sua obra, consolidando a sua memória e a difusão do seu legado literário.

Poemas

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Natal

Natal, antes e agora 
imutável. Feliz 
noite branca sem hora 
no pátio da Matriz. 

Natal: os mesmos sinos 
de repiques iguais. 
Brinquedos e meninos, 
Natal de outros natais. 

A Banda, vozes, passos 
da multidão fiel. 
Tudo nos seus espaços, 
o mundo e o carrossel. 

Tudo, menos o andejo 
homem que se conclui. 
Olho-me, e não me vejo, 
não sei para onde fui.
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DENTRO DA NOITE CHEIA DE LUA-CHEIA

Venha cá, meu amor! olhe: a lua prateada
fica zangada quando lhe vê!
É inveja que ela sente de Você!
Você é linda como um Sonho
vestido de seda… É por isso que eu ponho
a minha vida na sua mão de fada…

A minha mão fria na sua
mão… Mas esta carícia silenciosa é pouca
e, até, pode ser feita com artifício…
O silêncio subiu, foi conversar com a lua…
O amor, meu amor, não mede sacrifício:
Uma sua boca à minha boca…

Depois olhe pra mim…
assim… assim…
como só Você sabe olhar!
Como seus olhos são lindos! E eu vejo
os meus olhos lá no fundo do seu olhar…
Dê-me outro beijo.
Meu amor, satisfaça o meu desejo,
dê-me outro beijo porque
se Você não m’o der não lhe darei minh’alma
para Você
guardar dentro de sua alma!…
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VALSINHA DA BANDA DE MÚSICA MUNICIPAL

Música da
Banda Euterpina
Juvenil de
Nazaré da Mata
tocando ao
luar de prata.
(O seresteiro
achando a rima
da serenata.)
Música pelo
Natal; na festa
da padroeira.
(A procissão,
Nossa Senhora
da Conceição.)
Música nos bailes
de carnaval
e em funeral.

Seu Miguel ensaiava de noite, na Rua
da Palha, para as tocatas coletivas.
Nunca mais deixei de ouvir
as suas noturnas melodias na janela.
Sinto que ele acorda e volta de longe nesta madrugada.
Limpa a farda de tempo e areia,
vem do cemitério de São Sebastião,
vem com a sua valsa de antigamente,
vem com o seu clarinete na mão.
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MINHA N. S. DA ESPERANÇA

Eu corri, todo ansioso, a recebê-la
numa manhã sem sol, de cerração,
e ela entrou, como o brilho duma estrela
do céu, para alumiar meu coração.

Tornou-se muito minha amiga então,
Era tão linda! ai quem me dera tê-la
junto a mim! mas já foi, já partiu pela
tarde do meu jardim — rosa em botão! —

É debalde, minh’alma, que lhe gritas.
Neste mundo não há quem a defina
com seu vestido branco e verdes fitas.

Teu brado, na distância, não a alcança.
Pois fiquei a pensar que essa menina
era Nossa Senhora da Esperança…
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Miragem

Amigo:
A vida é um lago cristalino…
Ele guarda consigo
o segredo eternal do teu destino!
Vês? É uma noite de prata!
E, lá no fundo do lago,
a lua se retrata…

Numa atitude de cegonha,
sonhador, como quem sonha
um sonho vago,
contempla aquela imagem lá no fundo
do lago…

Ela é a felicidade deste mundo!

No entanto,
si a buscasses tocando a superfície quieta,
a água se turvaria! morreria o teu canto
de poeta…

É que, por culpa tua,
desvendando o segredo do destino,
jamais verias, no lago cristalino,
a imagem da lua! a imagem da lua!
755

A divina mentira

Eu dizia:
“Quando ela partir eu hei de chorar tanto…
Serei a imagem da melancolia
toda cheia de pranto…”

No entanto,
uma lágrima, sequer, dos meus olhos caiu…
Eu não senti saudade — a mais leve emoção! —
— Quando ela partiu
levou meu coração!…
718

O ROMANCE BANAL DE COLOMBINA E PIERRÔ

Para você…

Entre seda, confeti e serpentina,
desse mundo no imenso carnaval,
tu surjiste, ─ visão de Colombina! ─
para a alma de Pierrô sentimental…

Ante a musica, ante o éter que alucina,
nós tecemos do amor o madrigal…
A essa luz dos teus olhos de menina
Pierrô sonhou um sonho emocional!…

O que foste afinal em minha vida?!
Dize! retira a mascara divina!
─ Quarta-feira de cinzas dolorida!

Mas somente depois que ela passou,
pude ver a chorar que Colombina
era a Felicidade de Pierrô!
696

CHUVA DE VENTO

De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?

Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.

(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)

De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?

Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?

Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
798

SÓROR FELICIDADE

Sob o outono sem luz, nesta tarde amarela,
Uma rosa de Deus lentamente fenece
e se estorce de dor e agoniza na cela…
Lusco-fusco. Tristeza. O sol morre. Anoitece…

Tem quinze anos somente! é tão moça! é tão bela!
Com seus lábios sem cor balbucia uma prece.
Atira o último olhar através da janela:
vê a Vida lá fora e a lua que aparece.

Eis meus olhos ciriais velando-lhe a agonia,
Lentamente fenece e, assim, lívida e calma,
é uma santa do céu! Santa Melancolia!

Mas, súbito, na cela, um frêmito de ânsia corre,
E, no Claustro da Dor Imensa de Minh’alma,
Sóror Felicidade abre os braços e morre.
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Versos ao meu cigarro

Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.

Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…

Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…

Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…

Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!

Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
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