Âmbar
Um tijolo
sabe a casa
e toda sua
mágica linguagem
de portas,
janelas,
outros tijolos
e espaços vazios.
Sabe a linhagem
e o alinhavo
de seus mortos,
as panteras
fosforescentes
de seus vivos.
Um tijolo
sabe a casa
mesmo que
falem apenas
as ruínas
e mesmo
que se calem,
um tijolo
sempre sabe.
Premissa Perdida da Paracelsus
A alquimia das cozinhas
Se assemelha
À alquimia de escrever
E esta, por sua vez
À alquimia de pintar:
Digo do tempero ( A têmpera )
Das palavras,
Seus cheiros de orégano e coentro
E ainda das claras aquarelas
Batidas em neve
( Os conté, alvaiades e aguadas,
Seus doces e seus vinagres... )
Digo da transmutação
E também da mimésis camaleônica
Que tudo transforma,
Tudo com(funde):
Alimento,
Letra,
Tinta...
Rápido Monólogo do Caçador Com Sua Caça
Trago
Pardos
Os olhos
De cobiça
Que atiro
Sobre ti,
Teu verbo/teu sexo:
Tua presa
de
marfim.
Cresente e Decrescente num Mote de Conselheiro
À Lirinha
O sertão
Que eu trago
Junto ao peito
É como a estrela
Cortante
De uma espora,
Como a ave ribaçã
De uma pistola,
Como o olho severo
De um seteiro,
Mas em ti
O sertão
Se torna água
E escorre
Atlântico
Em minha garganta
E em dez pés
Meu galope
Se abranda
E meu pouso
É pacífico
À beira-mar.
O Violino
Entregue a sutil carícia
Da curva do queixo
Mal finge
Que freme mesmo
É ao balé febril
Das pontas dos dedos.
( Talhado em nobre madeira,
O filho de Eros,
É dado ao gozo animal
Ao humano sexo... )
Vampiro
A palavra
querida
do teu nome
é morcego
nas minhas
madrugadas
e consome
o meu sangue
e minha alma.
Consome:
que és incêndio
em minha casa...
Amiga
Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.
Déjà Vu
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
pegam o bonde
e imaginam
ou sonham
ou querem
estar no trenzinho caipira.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
tropeçam na calçada
e brincam
ou fingem
ou querem
estar apaixonados.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
fumam um cigarro
tomam um sorvete
assobiam uma cantiga
escrevem um bilhete
cumprimentam outros olhos
e fazem do boulevard
seu eppor si muove.
Grindley
Os meninos
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
Férias
A adstringência argilosa de tua carne
Pressupõe certas fúrias inauditas,
Iras cintilantes de matéria
Que desmentem toda metafísica.
Escrita em fogo e sal, a tua carne,
É experimentada em incoerentes heresias
( Poema linearmente metrificado
e também dissolutamente corrompido ).
Escrita em fogo e sal, a tua carne,
É carne-álgebra
Ou carne-geometria,
Carne ( e apenas carne )
Somente a carne —:
A carne sem qualquer filosofia.