Lista de Poemas

Âmbar

Um tijolo
sabe a casa
e toda sua
mágica linguagem
de portas,
janelas,
outros tijolos
e espaços vazios.
Sabe a linhagem
e o alinhavo
de seus mortos,
as panteras
fosforescentes
de seus vivos.
Um tijolo
sabe a casa
mesmo que
falem apenas
as ruínas
e mesmo
que se calem,
um tijolo
sempre sabe.

1 291

Rápido Monólogo do Caçador Com Sua Caça

Trago
Pardos
Os olhos
De cobiça
Que atiro
Sobre ti,
Teu verbo/teu sexo:

Tua presa
de
marfim.

1 227

Premissa Perdida da Paracelsus

A alquimia das cozinhas
Se assemelha
À alquimia de escrever
E esta, por sua vez
À alquimia de pintar:
Digo do tempero ( A têmpera )
Das palavras,
Seus cheiros de orégano e coentro
E ainda das claras aquarelas
Batidas em neve
( Os conté, alvaiades e aguadas,
Seus doces e seus vinagres... )
Digo da transmutação
E também da mimésis camaleônica
Que tudo transforma,
Tudo com(funde):
Alimento,
Letra,
Tinta...

922

Da Morte pela Manhã

A manhã seguinte
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)

969

Segredo de Camarinha

Cora,
teu retrato amarelado de
moça
fala à minha dor.

Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada
de minha dor.

Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.

Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.

(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)

Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.

1 257

Amiga

Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.

898

Déjà Vu

Olhos que passeiam
pelo boulevard,
pegam o bonde
e imaginam
ou sonham
ou querem
estar no trenzinho caipira.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
tropeçam na calçada
e brincam
ou fingem
ou querem
estar apaixonados.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
fumam um cigarro
tomam um sorvete
assobiam uma cantiga
escrevem um bilhete
cumprimentam outros olhos
e fazem do boulevard
seu eppor si muove.

1 054

Grindley

Os meninos
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.

Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas

(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).

1 069

Feira

Me comove o apurado capricho
Dos meninos carroceiros da feira:
Arrumam da melhor maneira
A mercadoria nas suas
Mais possantes carroças.

1 012

Férias

A adstringência argilosa de tua carne
Pressupõe certas fúrias inauditas,
Iras cintilantes de matéria
Que desmentem toda metafísica.
Escrita em fogo e sal, a tua carne,
É experimentada em incoerentes heresias
( Poema linearmente metrificado
e também dissolutamente corrompido ).
Escrita em fogo e sal, a tua carne,
É carne-álgebra
Ou carne-geometria,
Carne ( e apenas carne )
Somente a carne —:
A carne sem qualquer filosofia.

1 267

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Identificação e contexto básico

Micheliny Verunschk é uma escritora brasileira. Sua obra poética é marcada por uma profunda reflexão sobre a condição humana, a memória, a identidade e as questões de gênero.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância e formação não são amplamente divulgadas em fontes públicas, mas sua obra revela uma sensibilidade apurada e uma forte base cultural.

Percurso literário

O percurso literário de Micheliny Verunschk tem sido marcado pela publicação de livros de poesia que têm recebido atenção da crítica e do público. Sua escrita evolui explorando diferentes facetas da experiência humana, com uma linguagem que busca a precisão imagética e a profundidade de sentido.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras publicadas, destacam-se títulos que abordam temas como o corpo, a feminilidade, a ancestralidade e o tempo. O estilo de Verunschk é frequentemente descrito como lírico, introspectivo e imagético, com um uso cuidadoso da linguagem e uma estrutura que, por vezes, desafia as convenções.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Verunschk insere-se no contexto da literatura brasileira contemporânea, um período de grande diversidade de estilos e temáticas. Sua obra dialoga com discussões atuais sobre identidade, representatividade e memória cultural.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre sua vida pessoal são escassos em fontes públicas, mas sua poesia frequentemente evoca experiências íntimas e universais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Micheliny Verunschk tem sido gradualmente reconhecida por sua qualidade literária, recebendo resenhas e sendo incluída em antologias de poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam detalhadas, a poesia de Verunschk dialoga com a tradição lírica brasileira e com as correntes literárias contemporâneas que exploram a subjetividade e a crítica social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Verunschk convida à reflexão sobre temas existenciais e sociais, com uma abordagem que pode ser interpretada sob diversas perspectivas, incluindo a feminista e a psicanalítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos de sua personalidade e hábitos de escrita não são amplamente divulgados.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Micheliny Verunschk está viva e sua obra continua a ser produzida e a ser objeto de estudo e apreciação.