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Moranno Portela

Moranno Portela

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Poethomem

É pouco o peito do homem
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.

É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.

Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.

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Poemas

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Poethomem

É pouco o peito do homem
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.

É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.

Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.

962

Maturidade

Tudo finda.
Tudo um dia finda
e nem percebemos
essa morte súbita
e escorregadia a carcomer
os nervos do que foi espanto.

Vem desde antes
mesmo ainda antes
da elaboração do existir
esse morrer constante
que dá-se à vida.

Vida:
nome tanto para
tão pouca fruta
que não cessa de madurar seu fruto
e infalível apodrecer
em semente.

960

Tempo Íntimo

Inscreve teu poema no tempo
como no tempo estás inscrito: —
um silencioso grito
juntando os cacos da solidão.
Estás partido,
e teu poema é só um eco
sem raízes ou audível chão.
Contudo cantas,
e tua voz, rouca, vai desvendando
as faces do mundo
sob tua pele escondidas.
Canta, canta que aprenderás
o tempo, teu relógio de pulso
ecoando efêmero teu coração
— o relógio enorme da catedral

e o silêncio.

953

Homem Moderno

Teus olhos míopes
ouvem a notícia do mundo;
teus ouvidos moucos
vêem o oco do mundo;
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo;
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs, em tuas mãos vazias,
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade.

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