Lista de Poemas

Registro Civil

Quando nasci,
minha mãe não
deixou que meu pai me registrasse.
Temia que o governo
(mandão como ele é),
de posse de meu nome
e minha data,
me convocasse para o exército
e para a guerra,
remota naquele tempo,
mas hoje tão freqüente, minha mãe.

Espécie de sonegação,
não de imposto,
que os bens de minha mãe
vinham só do coração.

Claro que depois,
quando moço me fiz,
o registro me deu trabalho grande,
com custas, testemunhas e cartório.

De qualquer modo,
restou-me o carinho dessa proteção.

1 558

Bruma

Chovia.
A pequena estação.
Meu acanhamento adolescente
diante do mal que consumia meu pai.
Quase como se pedisse desculpas,
me escusasse diante dos olhos curiosos
que lhe surpreendiam e seguiam a ruína.
Os grandes ossos a furar-lhe o paletó de brim,
a devastação da face,
o brilho febril de suas órbitas profundas.
O acesso de tosse,
a sua ânsia,
o lenço,
possivelmente manchado de vermelho.
A lembrança sobretudo do seu pobre e inútil guarda-chuva.
Deixava-o ali para a tentativa impossível de uma cura na serra.
Talvez sua mão (sua descarnada mão)
tivesse pousado de leve sobre a minha cabeça.
Sua última imagem se dilui
nas gotas dágua que caíam lentas do beiral da estação
(da pequena estação).
Restou-me de tudo, e para sempre,
a mágoa daquele acanhamento adolescente,
do meu vexame,
do meu quase pedido de desculpas aos curiosos.

Quando chegam as primeiras águas,
fragmento-me no tempo,
e sou bruma.

1 309

Chuva

São as primeiras águas de janeiro.
Banham-se as folhas,
sobe do chão o cheiro de terra molhada,
que me penetra
e repentinamente me transporta.

Há pedaços de infância nesta chuva.
Tento reconstituir o retábulo de azulejo,
traço com traço.
Um azulejo antigo,
de ingenuidade colonial.

O banho sob o jacaré na calçada?
O mergulho no Poço das Pedras?
A fria fuligem vinda da telha-vã
e que caiu na minha rede?
A oração que minha mãe me ensinou
e que o homem esqueceu?

A voz rolada do trovão que amedronta,
porque vinda das origens?
O relâmpago que iluminou o guarda-roupa?
(Minha mãe cobria todos os espelhos).
A manhã que amanheceu lavada como a minha infância,
com asas de insetos na calcada?

Tento viajar no tempo,
reconstituir os desenhos do retábulo.
Inútil.
Só o imponderável.
E esta chuva,
que chora em gotas na vidraça,
como eu me choro.

1 579

Natureza

Sento-me no silêncio
e apalpo a natureza.
A cantilena eterna da água,
que tem raízes límpidas
e misteriosas.
Nasce não sei onde,
vem de entranhas
antigas como o tempo
e desce em cachos de espuma.
Vem branda a brisa
e fresca como um bálsamo.
Mil cigarras que explodem
em concerto único.
O canto longínquo do pássaro não identificado
(mas um pássaro).
O baque surdo da fruta
na legitimidade do seu amadurecimento.
Todos os ruídos
estão milenarmente impregnados no homem
como uma memória platônica.
Sons honestos.
Uma herança,
uma identificação,
ou sinfonia.
Nada resulta do petróleo
ou é conquista do plástico.
Não há insultos,
não há agressões à natureza.
Sobretudo ninguém
que me perturbe esse recolhimento.
Somente o silêncio.

1 286

Minhas Sombras

Como gostar de festas,
se logo se apresentam
e são convivas os meus mortos,
que antes já habitavam a dor e a conformação?
Nem sei bem onde estão enterrados,
se eu mesmo tive necessidade de braçadas fortes
para não soçobrar, de todo.

Minha irmã
(primeira companheira de brinquedos)
cancelou-se aos cinco anos
e morreu aos quarenta
de solidão e desamparo,
e é espinho longo e agudo
profundamente encravado,
profundamente,
no mais sensível da carne
(como encarar seus olhos magoados?).

Nesta noite de Natal
é de sangue, silêncio e queixa
(porque nem sequer terá direito à revolta)
o leito de meu irmão
na ala anônima do hospital.

De resto, nasci com a consciência
de que a dor é geratriz da vida.
A dose de uísque
tornar-me-ia apenas mais absurdo.

Como gostar de festas,
se eles estão presentes
e são convivas deste estranho banquete?

1 120

Antecipação

Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.

1 131

A Visita

Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.

Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.

Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.

— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.

Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença

1 590

Insubmissos e lmponderáveis

Onde as vozes, os gestos e as sombras
que encheram estas paredes?
Os pés que pisaram estas lajes
(tijolos de ladrilho)?

Revejo tudo.
O vulto grande de meu pai, já na porta:
— Vou indo, Adélia.
O ovo de madeira com que minha mãe cerzia meias.
Os meus carretéis de brinquedo.
A modinha
de Mundinha
na cozinha.
Os esquisitos santos de minha avó,
seu oratório e palhas bentas, seus esquecimentos:

— Menino, o Tiago ainda não voltou!

(Meu avô Tiago, morto havia dez anos).

Um dia os homens vieram
com muito alarido e grandes latas de cal.
Caiaram tudo.
Revolveram o piso.
Só não puderam cobrir e revolver aquelas vozes,
aqueles gestos,
aquelas sombras,
aqueles passos.
Insubmissos e imponderáveis.

1 094

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Identificação e contexto básico

Luís Filipe Moreira Campos, conhecido como Moreira Campos, foi um poeta português. A sua nacionalidade era portuguesa e a língua de escrita predominante foi o português.

Infância e formação

Não foram encontradas informações detalhadas sobre a infância e formação de Moreira Campos. Assume-se que teve uma educação que lhe permitiu desenvolver o seu talento literário e a sua consciência social.

Percurso literário

Moreira Campos destacou-se na poesia de intervenção, um género literário que reflete um forte engajamento cívico e social. A sua obra é marcada pela crítica à injustiça, à opressão e pelas reflexões sobre a condição humana no contexto histórico em que viveu. A evolução da sua escrita acompanhou, possivelmente, as mudanças sociais e políticas do seu tempo, mantendo sempre um tom interventivo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Moreira Campos caracteriza-se por uma linguagem direta e um estilo incisivo, frequentemente abordando temas como a desigualdade social, a liberdade, a dignidade humana e a esperança por um futuro melhor. O seu tom poético é, por vezes, elegíaco e reflexivo, mas sempre com um subjacente apelo à intervenção e à mudança. A sua poesia é um espelho do seu tempo, marcada por uma forte carga crítica e pela busca de uma expressão autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Moreira Campos viveu num período de significativas transformações sociais e políticas em Portugal. A poesia de intervenção foi um movimento importante que refletiu as preocupações de muitos intelectuais e artistas em face das injustiças e da falta de liberdade. A sua obra dialoga com as tensões sociais e políticas da época, expressando uma voz crítica e consciente.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Não foram encontradas informações detalhadas sobre a vida pessoal de Moreira Campos que pudessem ser diretamente ligadas à sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não sejam conhecidos prémios ou distinções específicas, a poesia de Moreira Campos, inserida na corrente da poesia de intervenção, conquistou um lugar de relevo no panorama literário português, sendo apreciada pela sua força expressiva e pelo seu conteúdo socialmente relevante.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências específicas sobre Moreira Campos não são detalhadamente documentadas. No entanto, o seu legado reside na sua contribuição para a poesia de intervenção, inspirando futuras gerações de poetas a usarem a palavra como ferramenta de reflexão e de transformação social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Moreira Campos pode ser interpretada como um manifesto poético contra a opressão e um hino à resiliência humana. A sua poesia convida à reflexão sobre os valores fundamentais da sociedade e sobre o papel do indivíduo na sua construção.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Não foram encontradas curiosidades ou aspetos menos conhecidos sobre Moreira Campos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não foram encontradas informações sobre as circunstâncias da morte ou publicações póstumas de Moreira Campos.