Simbolismo       1890 - 1920

Simbolismo é um movimento literário da poesia e das outras artes que surgiu na França, no final do século XIX, como oposição ao realismo, ao naturalismo e ao positivismo da época. Movido pelos ideais românticos, estendendo suas raízes à literatura, aos palcos teatrais, às artes plásticas. Como escola literária, teve suas origens na obra As Flores do Mal, do poeta Charles Baudelaire. Ademais, os trabalhos de Edgar Allan Poe, os quais Baudelaire admirava e traduziu para francês, foram de significativa influência, além de servirem como fontes de diversos tropos e imagens. Fundamentou-se principalmente na subjetividade, no irracional e na análise profunda da mensagem, a partir da sinestesia.
 
Etimologia
O termo "simbolismo" é derivado da palavra "símbolo", que por sua vez deriva de symbolum em latim, um símbolo de fé e symbolus, um sinal de reconhecimento, da língua grega clássica σύμβολον symbolon, um objeto cortado pela metade constituindo um sinal de reconhecimento.
 
Origens e características
A partir de 1881, na França, poetas, pintores, dramaturgos e escritores em geral, influenciados pelo misticismo advindo do grande intercâmbio com as artes, pensamento e religiões orientais, procuram refletir em suas produções a atmosfera presente nas viagens a que se dedicavam.
 
Marcadamente individualista e místico, foi, com desdém, apelidado de "decadentismo" - clara alusão à decadência dos valores estéticos então vigentes e a uma certa afetação que neles deixava a sua marca. Em 1886, um manifesto trouxe a denominação que viria marcar definitivamente os adeptos desta corrente: simbolismo.
 
O simbolismo foi, no início, uma reação literária contrária ao naturalismo e realismo, movimentos anti-Idealistas que exaltavam a realidade cotidiana, renunciando ao ideal. O primeiro escritor a se rebelar foi o poeta francês Charles Baudelaire, hoje considerado patrono da lírica moderna e impulsionador de movimentos como o Parnasianismo, Decadentismo, Modernismo e o próprio simbolismo. Entre as suas obras mais proeminentes estão As flores do mal, Pequenos poemas em prosa e Paraísos Artificiais, tão renovadoras para época que tiveram suas edições proibidas por serem consideradas imorais e obscuras, ao retratar sem meandros a sexualidade, o uso de drogas e o satanismo.
 
Os simbolistas foram separando-se do parnasianismo pois não partilhavam da devoção ao verso perfeito parnasiano. O simbolismo se inclinava mais para o hermetismo, desenvolvendo um modelo de versificação livre desdenhador da objetividade do Parnasianismo. Não obstante, várias características parnasianas foram assimiladas, como o gosto pelo jogo de palavras, a musicalidade nos versos e, sobretudo, o lema de Théophile Gautier da arte pela arte. Os movimentos se fragmentaram completamente quando Arthur Rimbaud e outros poetas (Círculo dos poetas Zúticos) se fartaram do estilo perfeccionista parnasiano, publicando várias paródias sobre o modo de escrever de suas mais imponentes figuras.
 
Manifesto simbolista
Os seguidores deste movimento acreditavam que a arte devia capturar as verdades mais absolutas, as quais podiam ser obtidas através de métodos indiretos e ambíguos. Dessa forma, escreviam armados de um estilo altamente sugestivo e metafórico. O manifesto dessa corrente, concebido ao mundo por Jean Moréas, definia o simbolismo como inimigo da instrução, da declamação, da falsa sensibilidade e da descrição objetiva e assinalava que o seu objetivo não está contido em si mesmo, mas sim em expressar o Ideal: là des apparences sensibles destinées à représenter leurs affinités ésotériques avec des Idées primordiales".
 
(Nesta arte, as cenas da natureza, as ações dos seres humanos e todo o resto dos fenômenos existentes não serão nomeados com o objetivo de expressarem a si mesmos; serão plataformas sensíveis destinadas a encaixar e a mostrar suas afinidades esotéricas com os Ideais primordiais).
 
Movimento
A poesia simbolista possui objetivos metafísicos, além disso, busca a utilização da linguagem literária como instrumento de desenvolvimento cognitivo, encontrando-se entre o mistério e o misticismo. Foi considerado, na época, uma corrente irmã gêmea obscura do Romantismo. Em relação ao estilo, baseavam seus esforços em encontrar uma musicalidade perfeita em rimas, deixando a beleza do verso em segundo plano. Dentre os principais aspectos estão:
 
Subjetivismo
A visão objetiva da realidade não desperta mais interesse, e, sim, está focalizada sob o ponto de vista de um único indivíduo. Dessa forma, é uma poesia que se opõe à poética parnasiana e se reaproxima da estética romântica, porém, mais do que voltar-se para o coração, os simbolistas procuram o mais profundo do "eu" e buscam o inconsciente, o sonho.
 
Musicalidade
A musicalidade é uma das características mais destacadas da estética simbolista, segundo o ensinamento de um dos mestres do simbolismo francês, Paul Verlaine, que em seu poema "Art Poétique", afirma: De la musique avant toute chose... ("A música antes de mais nada...") Para conseguir aproximação da poesia com a música, os simbolistas lançaram mão de alguns recursos, como por exemplo a aliteração, que consiste na repetição sistemática de um mesmo fonema consonantal, e a assonância, caracterizada pela repetição de fonemas vocálicos.
 
Transcendentalismo
Um dos princípios básicos dos simbolistas era sugerir através das palavras sem nomear objetivamente os elementos da realidade. Ênfase no imaginário e na fantasia. Para interpretar a realidade, os simbolistas se valem da intuição e não da razão ou da lógica. Preferem o vago, o indefinido ou impreciso. O fato de preferirem as palavras névoa, neblina, e palavras do gênero, transmite a ideia de uma obsessão pelo branco (outra característica do simbolismo) como podemos observar no poema de Cruz e Sousa:
 "Ó Formas alvas, brancas, Formas claras De luares, de neves, de neblinas!... Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Incensos dos turíbulos das aras..." [...]
 Dado esse poema de Cruz e Sousa, percebe-se claramente uma obsessão pelo branco, sendo relatado com grande constância no simbolismo.
 
Filosofia
A estética de Schopenhauer e o simbolismo possuíam preocupações comuns; ambos tendiam a considerar a Arte como um refúgio contemplativo do mundo da luta e da vontade. Como resultado desse desejo de um refúgio artístico, os simbolistas utilizaram temas característicos do misticismo, um senso agudo de mortalidade e do poder maligno da sexualidade, que Albert Samain definiu como "fruto da morte sobre a árvore da vida". O poema Les fenêtres de Mallarmé expressa com êxito esses temas tão prezados pela estética simbolista.
 
 
Literatura
Os temas são místicos, espirituais, ocultos. Abusa-se da sinestesia, sensação produzida pela interpenetração de órgãos sensoriais: "cheiro doce" ou "grito vermelho", das aliterações (repetição de letras ou sílabas numa mesma oração: "Na messe que estremece") e das assonâncias, repetição fônica das vogais: repetição da vogal "e" no mesmo exemplo de aliteração, tornando os textos poéticos simbolistas profundamente musicais.
 
No Brasil o simbolismo tem início em 1893 com a publicação de dois livros: Missal (prosa) e Broquéis (poesia), ambos de Cruz e Sousa. Estende-se até o ano de 1922, data da Semana de Arte Moderna.
 
Em Portugal liga-se às atividades das revistas Os Insubmissos e Boêmia Nova, fundadas por estudantes de Coimbra, entre eles Eugénio de Castro, que, ao publicar um volume de versos intitulado Oaristos, instaurou essa nova estética em Portugal. Contudo, o consolidador estará, a esse tempo, residindo verdadeiramente no Oriente - trata-se do poeta Camilo Pessanha, venerado pelos jovens poetas que irão constituir a chamada geração Orfeu. O movimento simbolista durou aproximadamente até 1915, altura em que se iniciou o modernismo.
 
Portugal
Com a publicação de Oaristos, de Eugênio de Castro, em 1890, inicia-se oficialmente o simbolismo português, durando até 1915, época do surgimento da geração Orfeu, que desencadeia a revolução modernista no país, em muitos aspectos baseada nas conquistas da nova estética.
 
Conhecidos como adeptos do nefelibatismo (espécie de adaptação portuguesa do decadentismo e do simbolismo francês), e, portanto como nefelibatas (pessoas que andam com a cabeça nas nuvens), os poetas simbolistas portugueses vivenciam um momento múltiplo e vário, de intensa agitação social, política, cultural e artística. Com o episódio do ultimato inglês, aceleram-se as manifestações nacionalistas e republicanas, que culminarão com a Proclamação da República, em 1910.
 
Portanto, os principais autores desse estilo em Portugal seguem linhas diversas, que vão do esteticismo de Eugênio de Castro ao nacionalismo de Antônio Nobre e outros, até atingirem maioridade estilística com Camilo Pessanha: o mais importante poeta simbolista português. Os nomes de maior destaque no simbolismo português são: Camilo Pessanha, António Nobre, Augusto Gil e Eugénio de Castro.
 
Brasil
No Brasil, três grandes poetas destacaram-se dentro do movimento simbolista: Augusto dos Anjos , Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, autor de Sete dores de Maria. Com Cruz e Sousa, a angústia de sua condição, reflete-se no comentário de Manuel Bandeira: "Não há (na literatura brasileira) gritos mais dilacerantes, suspiros mais profundos do que os seus". São também escritores que merecem atenção: Raul de Leoni, Emiliano Perneta, Da Costa e Silva, Dario Vellozo, Arthur de Salles, Ernãni Rosas, Petion de Villar, Marcelo Gama, Maranhão Sobrinho, Saturnino de Meireles, Pedro Kikerry, Alceu Wamosy, Eduardo Guimarães, Gilka Machado, Onestaldo de Penafort e Lívio Barreto.
 
 
Florbela Espanca
Sonhos
Stéphane Mallarmé
Tristeza de verão
Paul Verlaine
Canção de outono
Arthur Rimbaud
A eternidade
Cruz e Sousa
Imortal Atitude
Charles Baudelaire
Harmonia da tarde
Camilo Pessanha
Caminho I
Augusto dos Anjos
Alphonsus de Guimaraens
XXXIII - Ismália
da Costa e Silva
António Nobre
Augusto Gil
Eugénio de Castro
Gilka Machado
Alceu de Freitas Wamosy
Maranhão Sobrinho
Emiliano Perneta
Pedro Kilkerry
Raul de Leôni
Saturnino de Meireles
Marcelo Gama
Onestaldo de Pennafort
Ernâni Rosas
Dário Veloso