Criança em ruínas
Tenho quatro anos
Que fiz no infantário
A mãe diz-me que estamos
A dois do ensino primário
Chega, ao fim da tarde
Conversa co’ a empregada
Por mais que eu a apresse
Ela diz: – Não demoro nada!
Eu quero ir embora
Preciso do meu quarto
É tão tarde esta hora
E eu sinto-me tão farto
Passei o dia inteiro
A cumprir tantos deveres
Que até lhe sinto o cheiro
Em todas as mulheres
Vou dizer ao meu pai
Que a mãe está cansada
Por vezes ela sai
E esquece-se da estrada
Senta-se e chora, perdida,
Como se fora outra alma
Como se fora outra vida!
Vida que não tem calma
E eu perco-me com ela
Ficamos os dois sem norte
Sem porta e sem janela
Que nos traga a luz da sorte
Não me posso dispersar
Preciso de ver o meu pai
Dizer-lhe para ficar
Que sem ele o mundo cai
Mas ele também se perdeu
Esqueceu-se da morada
Ou quem sabe morreu
Sozinho no vão da escada.
Percorro o secundário
Subo e desço as ermidas
Desde o ensino primário
Passaram-se tantas vidas
Preciso do meu quarto
Deitar-me na minha cama
É lá que ouço mais perto
Aquela voz que me chama
É lá onde estou comigo
E teço o meu horizonte,
O meu deserto o meu abrigo
Onde o mundo está distante.
É lá que vou encontrar-te
Ao chegar a minha hora
É lá que eu vou dizer-te:
– Pai, nunca foste embora.
C. A. Afonso
Que fiz no infantário
A mãe diz-me que estamos
A dois do ensino primário
Chega, ao fim da tarde
Conversa co’ a empregada
Por mais que eu a apresse
Ela diz: – Não demoro nada!
Eu quero ir embora
Preciso do meu quarto
É tão tarde esta hora
E eu sinto-me tão farto
Passei o dia inteiro
A cumprir tantos deveres
Que até lhe sinto o cheiro
Em todas as mulheres
Vou dizer ao meu pai
Que a mãe está cansada
Por vezes ela sai
E esquece-se da estrada
Senta-se e chora, perdida,
Como se fora outra alma
Como se fora outra vida!
Vida que não tem calma
E eu perco-me com ela
Ficamos os dois sem norte
Sem porta e sem janela
Que nos traga a luz da sorte
Não me posso dispersar
Preciso de ver o meu pai
Dizer-lhe para ficar
Que sem ele o mundo cai
Mas ele também se perdeu
Esqueceu-se da morada
Ou quem sabe morreu
Sozinho no vão da escada.
Percorro o secundário
Subo e desço as ermidas
Desde o ensino primário
Passaram-se tantas vidas
Preciso do meu quarto
Deitar-me na minha cama
É lá que ouço mais perto
Aquela voz que me chama
É lá onde estou comigo
E teço o meu horizonte,
O meu deserto o meu abrigo
Onde o mundo está distante.
É lá que vou encontrar-te
Ao chegar a minha hora
É lá que eu vou dizer-te:
– Pai, nunca foste embora.
C. A. Afonso
Comentários (0)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.
Outros poemas de participantes
delírio encapsulado
presa estou pela manhã a recolher as lágrimas livre sou à noite ao te recolher em minha cápsula quando me transbordar, a tez partida será…
Kátia Surreal
Dissonantes, se confundem - 09/09/2026
Será que a alegria é irmã da tristeza
Dissonantes, separadas se confundem,
A alegria é a exultação do bem estar
…
Armando A. C. Garcia
Muros de pedra ! - 24/07/2026
Eu tinha o mundo perdido
Na palma de minha mão,
Livre e solto, sacudido
Sem dinheiro, sem tostão.
…
Armando A. C. Garcia
A força inexplicável ! - (soneto) - 25/07/2026
A força inexplicável, chamada sorte,
Como não é constante no indivíduo,
Por não ser ela um predicado assíduo
N…
Armando A. C. Garcia