POEMA CONVEXO PARA JOAQUIM CARDOSO
Imune aos histerismos
de calcinhas rendadas
e panfletos de entrecasca
e ao ciclo dos gritos cavalgadores
fiel de si mesmo
todo princípio todo sonata
tem a mente em caligramas
na mão o peso matinal
das alquimias naturais
olhos de círculos mirantes
o perfil de gênese linear
o sonho de planície
sem murais
a vocação de rasga-mundos,
Cardozo, Joaquim.
De cristal e aço
fez consoantes e vogais
a latiníssima palavra
a pontuação undecimal
a rima quântica
a sindérese das emoções
o verso pernambucanoédrico,
Cardozo, Joaquim.
Sem horizontes provisórios
tua poesia gravitacional:
as contorções estruturais
os pés firmes pés no chão
coordenando os azimutes
da alma essencialmente estética
no lirismo topograficamente humano
sem ingênuos acordes
dessa geometria poética,
Cardozo, Joaquim.
Tua cactácea solidão
tarugo de vigília
entre o eu e o mundo
incorporada ao cristal do aço
na dor trigonométrica
dos quadriláteros humanos,
Cardozo, Joaquim,
cresceu-te de granito
o social do gesto na palavra.
Memórias do Zumbi
do chão varzino
de muitos umbigos nordestinos,
implodiram dinâmica e dias
dias dos sustos das faces aprisionadas
permanentemente torturadas
a anemia da inflação
o arrocho salarial
a tridimensão do silêncio
o nó do desemprego
a pandemia da fome
o escrutínio da miséria
tristes duendes da crônica social
eretos na mecânica do mundo,
onde a cópula do ódio com a dor
também é um conjugado de prismas,
Cardozo, Joaquim.
E esse canto todo agrimensura
se vestiu ventos
também vestiu alertas
do caos contra a semeadura:
enésimos escritórios de espantalhos
atomizando a liberdade
(progresso= vida x destruição2).
Um canto todo vivido
nordestemente entoado,
Cardozo, Joaquim.
Recife, 1981.
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