POEMA RECIFENSE
Abraço-te no sonho do não-ter, Recife,
porque sem sonhos nasci em ti
de sonhos me fiz em ti
não me arredo do sonho de te ser
desconfortavelmente debruçado sobre o rio
fétido que o Homem construiu, rio que te navega.
Sois solitária, cidade milionária de habitantes
crepusculária de sorrisos
perdulária de amores
celibatária de quimeras
donatária de sabores
quimera do frevo e da glória.
Abraçar-te não assoma ineditismo
nem assombra teu passado
ou mesmo as canções
que me fulgem na insolência da memória
ouvidas de almocreves e mascates.
Louvar-te é apenas arremedo
daqueles que o fizeram
tecendo o tapete da tua história
rendada de sangue e de poesia.
Nesta gnose atmosférica
o gnomo assoma nos dedos
e reconstrói as calçadas já remotas
levadas com o modernismo das novas ruas
e dos pilares humanos que te cavalgam.
Aceno-te de dentro de mim
para que aqui vibres e altanes
no rio dos teus amores
nos remos dos teus favores
no credo dos teus altares
canto de araponga
retinindo na alma dos teus pilares.
Olinda, 19/03/2023.
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