Fogo: Da fagulha e cultivo
Há algo no fogo
que agita seus dentros.
Algo fundamental,
elemental.
Ecos primitivos.
Anamneses fossilizados.
Inscritos em rupestre e/ou cuneiforme,
no mais profundo do nosso âmago.
…
Ainda que soterrado,
seu cérebro reptiliano ainda tem
aquele rolo de fita magnética em preto e branco
dos causos de seu tatatatatatatata…tataravô.
Aqueles que, quando jovem,
lhe capturavam a atenção ante a fogueira.
A brava luta contra um tigre na savana;
a emboscada contra um mamute duro na queda;
ou como a tribo sobreviveu ao ataque surpresa
de uma tribo inimiga, em uma fatídica noite.
…
Há sempre algo de familiar no fogo.
Talvez isso se deva ao seu caráter duplo.
E o duplo, se sabe, reverbera conosco
sempre a níveis profundos, irremediáveis.
Isqueiros, caixas de fósforo e fogareiros elétricos
nos tiraram a trabalhosa e prazerosa arte
de se iniciar o fogo.
Não se busca mais faíscas,
pois podemos simplesmente acioná-las
através de algum dispositivo.
Quedas de energia e até mesmo blackouts
viraram nossos grandes momentos.
Eis, então, o momento para o restabelecimento de laços,
o momento para as conversas necessárias,
para ver o que se sobra quando smartphones e televisores
param de ocupar nossos vazios.
Eis a hora de se virar.
Gastar duas caixas de fósforos
e meio litro de álcool,
a fim de trazer uma sobrevida
à fagulha restante.
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José Roberto dos Santos | @_robsings
Zonas Liminares | Substack
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