A tristeza que aprende a morar

A tristeza
não chega
pedindo licença.

Apenas entra.

No começo,

ocupa
todos os cômodos.

Fecha as janelas.

Silencia a música.

Faz o tempo
caminhar
mais devagar.

Depois,

sem que se perceba,

deixa de ser
visita.

Passa a morar.

Não porque
tenha vencido,

mas porque
algumas dores
precisam de tempo
para encontrar
o próprio lugar.

Há quem lute
contra ela
todos os dias,

como se sentir
fosse um erro.

Mas a tristeza
não pede
que seja derrotada.

Pede apenas
que seja escutada.

Porque existe
uma linguagem
que só ela conhece.

É nela
que o coração
reconhece
o que perdeu,

o que mudou,

o que ainda
precisa ser
acolhido.

Então,

bem devagar,

a casa interior
volta a respirar.

A luz retorna
pelas frestas.

O silêncio
deixa de pesar.

E a tristeza,

que um dia
ocupou todos
os espaços,

aprende também

a partir.

Não de uma vez.

Mas aos poucos,

na mesma delicadeza

com que chegou.

Até restar apenas

a memória
de que houve inverno,

e a certeza

de que a primavera
sempre encontra
um caminho
para voltar.

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