Existem lágrimas

que nunca
encontram os olhos.

Ficam suspensas
entre o peito
e a alma,

como chuva
que aprende
a cair
por dentro.

Ninguém as vê.

Elas não fazem
barulho.

Não interrompem
a rotina.

Apenas acompanham
os dias,

escondidas
atrás de sorrisos,
de respostas breves,
de silêncios
que poucos percebem.

Há dores
que não pedem
socorro.

Apenas
continuam existindo,

esperando
que o tempo
descubra
como tocá-las.

Porque nem sempre
é possível
explicar
o que pesa.

Alguns sentimentos

não cabem
nas palavras.

Habitam
um lugar
mais profundo,

onde até
a linguagem
aprende
a silenciar.

Mas nenhuma lágrima
é desperdiçada.

Mesmo aquelas
que ninguém vê

vão lavando,
lentamente,

o que a vida
feriu.

Vão abrindo espaço

onde antes
só existia
dor.

E chega um momento

em que o coração
já não chora
pela perda,

nem pela ausência,

nem pelo que
não aconteceu.

Chora apenas

porque finalmente
consegue sentir
que continua vivo.

Então,

o silêncio
deixa de ser
o esconderijo
das lágrimas.

Transforma-se

no lugar
onde elas
descansam.

E é desse silêncio,

quase imperceptível,

que nasce

a primeira paz

depois da tempestade.

4 Visualizações
Partilhar

Comentários (1)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

Eugénio de Andrade foi um poeta português, filho de lavradores (José Saramago, [Prêmio Nobel], só calçou sapatos por volta dos 13/14 anos, segundo o próprio). pessoa de extrema classe pessoal, autor de poemas delicados - sendo que essa observação a respeito de sus Poesia o levou a ser premiado com maior da Língua Portuguesa: o Prêmio Camões de Literatura, em 2001. Fiz essa explanação devido ao belo título deste seu poema aí acima: O Silêncio das Lágrimas. Pois bem, várias vezes repeti em textos meus uma frase de um dos poemas do Eugênio: LÁGRIMA, onde se diz algo assim como que "a lágrima é a breve arquitetura do choro." Bom domingo, Bia.