Paulo Sérgio Rosseto

Cá do lado esquerdo do meu coração
Sinto algo estranho que não vi chegar

Parece fósforo que aprendeu a se molhar
Não atende por nome não reconhece toques
Range contra a própria língua
E cospe restos de vogais intraduzíveis

Às vezes me dá fôlego de sanfona furada
E volta tonto a se enrodilhar no mesmo fosso
Lateja fora do ritmo exato do que excede
Batendo o que em mim falta

Tentaram extraí-lo com gestos de quem arranca ervas
Mas ele come o vazio e engrossa e se apossa
Sempre no mesmo trecho da artéria
Aonde o sangue hesita antes de ir

Hoje ele cantou uma cólica de sons
E entendi: nem quero mais que se cale
Apenas que não me tropece na própria dança
E firme meus passos no chão

Porque no lado esquerdo do meu coração
Há um morador inconsequente
E talvez seja ele a única voz
Que ainda não ensaiei para os outros

@PSROSSETO

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