Até que sobreviver deixe de ser apenas existir

Nadar com tubarões, caminhar sobre uma espada ou cravar uma faca no próprio peito dói menos do que se decepcionar com aqueles que deveriam te proteger e te amar.


Sua vida, em vez de ser um refúgio de paz, torna-se um inferno silencioso a cada instante.
Desde muito nova, você aprende a viver em estado de alerta, porque basta uma mudança no ar,
um tom de voz diferente, um pequeno detalhe, para que tudo desabe.


Ser a primogênita tem seus privilégios: ser a primeira em tudo. Mas também significa ser a
primeira a apanhar da vida, e de tudo o que existe ao redor dela.


Conviver com o monstro é muito pior do que apenas saber que ele existe.


O monstro é, metaforicamente, o próprio umbigo: o vínculo que ainda te liga àquele que te deu a
vida, mas que, ao mesmo tempo, também destruiu parte dela.


Carregar uma imensidão de sentimentos, emoções reprimidas, lembranças, visões e sensações é
como alimentar, durante anos, um nó preso na garganta. Um nó que ninguém consegue
enxergar. Um peso que quase ninguém consegue compreender.


Ainda assim, por mais que doa, corte e sangre, enfrentar a dor é mais fácil quando se faz isso
antes que ela termine de te matar por dentro.


É preciso recalcular a rota. Permitir-se curar. Recomeçar quantas vezes forem necessárias, até
que sobreviver deixe de ser apenas existir.

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Comentários (1)

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Belo - muito elegante um recomeço e você deva existir - apenas - ademir.