“Nas minhas escolhas os meus pensamentos e nas escolhas da vida os meus sentimentos”

(Então e as gajas?)

 

Já não sei se quero saber assim tanto disso

 

(Então porquê?)

 

A pessoa que eu quero não existe

E ainda que exista

Eu não estou ao alcance dela

Nem ela está ao meu alcance

 

Porque por mais que eu procure por ela

Ou espere que ela venha ao meu encontro

Por mais que eu me envolva em outras atividades

Para distrair os meus pensamentos e sentimentos

Enrolando-me na desprezível máquina social

Ainda assim

A vida não faz essa pessoa esbarrar comigo

 

Então Fred, quando me fazes uma pergunta dessas

É óbvio que eu não tenho muito mais a dizer

Senão o facto de não querer mais falar ou pensar nisso

 

Porque quando o mencionas

Sou inundado em uma tormenta de pensamentos

Que se dividem em dois géneros diferentes

Por um lado

Os meus pensamentos suicidas cada vez mais recorrentes

Pois não vejo qual seria o propósito de continuar a sobreviver a esta vida

Se eu nem o mínimo que qualquer humano deveria viver

Tenho a possibilidade de obter

 

E por outro

Manter a minha estagnação

Por muito ou pouca ação que essa envolve

Apenas na réstia de esperança de que ela há de aparecer

Mas suscita sempre outra questão

Esperança em torno de quê ao certo?

Posso viver a minha vida toda em esperança

E em esperança continuar

E se assim eu fosse acabar

Então para onde estaria a caminhar?

Para o vazio?

O vazio onde já me encontro

E continuaria a caminhar por aí

Isso faz com que mesmo essa breve esperança

Se incline mais para o conforto suicida  

 

Então eu não quero falar sobre isso

Porque agora estou a querer decidir

E é até cruel

Que eu vivi e continuo a viver tão intensamente

Tão à flor de tudo o que não é tangível

Que agora eu sinto palpitações recorrentes no coração

E como se não chegasse a dor interna que isso em mim provocava

Agora também a sinto mesmo no corpo

 

E todas as noites

Eu deito-me com o medo de não acordar mais

De certa forma

Na minha indecisão sobre o que escolher

A vida por mim já está a fazer as escolhas

 

E não deixa de ser curioso

Que apesar de querer ir

Perco a vontade quando chega a hora de deitar

E sinto que a vida me vai levar

Como se a minha escolha

Quando deliberada fizesse sentido e fosse calorosa

Mas quando por uma outra força tomada

Mais pavor em mim se instala

E por isso eu não durmo

É como matematicamente dois negativos acabam por dar um positivo

E por aqui eu fico

 

E como eu amo e odeio tudo isto

Amo tudo o que podia ser e podia ter sido

E odeio tudo o que é e que continua a ser.

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