a janela está aberta
sem frestas
com uma grossa cortina dura
sem que passe qualquer partícula
poeira ou até vida
por trás a impossível grade de ferro
por aqui só tédio
sem remédio
nas horas de uma vida inteira
a segunda camada é de vidro
de chofre para o ponteiro
aperta o desespero
o relógio intimista relembra
que a chave da porta foi jogada fora
logo começa o jogo
põe-se cimento e tijolo
do outro lado e o sol a pino
no quarto desatino
o que este deus fez comigo
eis que na parede
a homogeneidade reinante
neste instante sem janela
tenho ainda dois olhos na escuridão
e a luz se desenha com a imaginação
a janela está aberta
se só houver fechada
ainda assim há janela
a janela está aberta
(kátia surreal: 24/9/2026)
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