a flor do capoeirista
certa vez
brotou um homem feito
das pedras britadas da cidade
de costas ao chafariz da praça
em que se apressa o passo
mais do que descansa
era noite de cabos roubados
só um feixe do quarto minguante
atravessadas por nuvens trevosas
o sujeito quase dormia
quando avistou uma flor verdadeira
por detrás da falsa cachoeira
ela era vermelha
a centelha que à visão se iniciava
a guerra que dançava
capoeira
o homem sem recheio
desvitaminado
voltou-se pr'outro lado
e antes que as horas escuras findassem
e a sua fina existência
o rapaz lutou
como se lhe houvessem
muitas pernas e agilidade
era um inimigo
desconhecido
embora tão irmão
na cor na trajetória
na condição
partiu então xangô
na vibração nagô
cuíca atabaque berimbau
agogô
ele agora estava sozinho outra vez
com sangue alheio entre os dedos
e um segredo
a flor ainda permanecia
vívida e vermelha
no centro da praça
onde logo mais teria gente
o indivíduo agora tinha uma escolha
e uma flor em suas mãos
que nunca deixa de sangrar
(kátia surreal: 29/9/2026)
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