Decúbitos
Decúbitos
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Num hospital a passagem do Tempo é bem diferente daquele com o qual se foi e se está acostumado; tudo ou quase tudo leva à impaciência. A memória traz com ela gentes, objetos, lugares, júbilos, arrependimentos algo tardios, ou não. Num hospital é fácil que nos enamoremos de nós mesmos, como nunca antes, tendo paciência com certos erros de cálculo, com certas trilhas só enganos (e isso fez toda a diferença - diz um famoso poema). Eventual é o silêncio, ou companhia constante, silêncio quebrado por algum grito eventual, alguma expiação severa, um baque de objetos idos ao chão, enfim, os barulhos eventuais ou contumazes de uma casa de saúde onde porventura estejamos como pacientes ou visitantes.
Num leito hospitalar, seja ele cama ou maca, o Tempo parece lesma ou bicho-preguiça, principalmente se a gente não faz ideia de quando poderá ir para casa, ela, algumas vezes quase deserdada, uma casa quase que blindada contra o riso, a leveza, odores de frutas legumes verduras e mais solrisos. Mas, já que uma vez em decúbito ventral ou dorsal, o paciente, a paciente vai de encontro ao lirismo ainda existente em casa, e pode-se então até pensar numa nova pintura, mais um quarto e um banheiro, sim, como não se pensa nisso, isso porque se está na correria do dia a dia, dentro de uma interação com fundos municipais, estaduais e federais, todos, não raro, contra os cidadãos e cidadãs. Sim, providência tenaz se faz necessária, assim que sair deste abrigo, só ou contigo, se não com os pulmões cheios de azul, sem arenga.
Uma bela e melancólica canção pode subir na cama: "O tempo não para no porto / não apita na curva / não espera ninguém." Quase todos estando secos de lágrimas, o que fazer para que o sertão vire mar ? Ah, e por falar em cabelos arrepiados, eis outra dosagem intravenosa, que a gente mal vê, nem sente, porque troca-se o que deve ser substituído, sem que seja necessária uma nova picada. Quer água ? Bem... uma cervejinha iria tão muito bem, mas... Vá delirando com a sua cervejinha. Doutora, tá muito abafado, calor. Posso ficar pelado, ou só de zorba ? Mais um folgado. Nem pensar, não se fala mais nisso. Amanhã, terás banho, caso se comporte. Sim, há pacientes in-su-por-tá-veis.
Dia de visita é especial, não é ? A gente logo se esquece que a semana que passou durou seis milênios, muita incógnita, muitos desejos, tantos planos [Eu preciso melhorar, tomar juízo, domar certas inquietações, certos convívios, cegueiras, taras, sim, melhorar é o que haverá].
Entanto lutamos.*
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