Dissidente
Dissidente
Sobre a dura meditação,
Que se ampara nas horas silenciosas,
Vem me ao corpo a petrificação;
À fronte algumas vidas lúgubres e brumosas.
Busco, pela força da memória,
Almas que vão aos santos rogando;
Intercepto a etérea linha duma história
Que a melancolia me vai forjando.
Anatomia ainda nova, mas desgastada
Pela força do trabalho que assistiu.
Por todos querida e cumprimentada,
Sobre a morte ninguém mais existiu
(Isto que em certeza é normal, sobre a natureza
Que em objetividade límpida nos beija,
Uma destreza que nos palma em brandura ou dureza,
O que é nosso assim o quer, pois assim o seja).
Eu, contudo, os seus contos presenciei,
Entranhei no tecido do seu sofrimento.
O seu já vertiginoso galgar era lei,
Ia a todo lado, ora rápido ora lento.
Ora rápido ora lento
Ia o seu cancro avançando,
Leveza que leva o vento:
O seu corpo, atrofiando.
Que vida ofegante, que sorte cansada,
Que espera tão dura, tão inflexível:
Tudo o que vinha após a alvorada
Era decadência rumo à morte inilidível.
Ainda andou e andou e andou: três anos lívido
(Três, o número do Omnisciente)
Não arranjou segurança no químico oferecido
Mas na brasa que impelia a sua mente.
Que febre! Que fraca trindade,
Que candeia aberta, se apagando o pavio
Fragilidade em pronta e disposta assiduidade,
Que lhe enferrujava o peito: expirava frio.
Sobre a aragem de qualquer lado, arreguiçado
O débil pelo que o tratamento detinha,
Dissidente, age contra a fraqueira do seu estado:
Em focos hirtos de consciência caminha
Sobre os montes íngremes e pelados,
Sobre a rica e perfumada fauna minhota,
Sobre os seus dons atacados
Pelas fissuras duma respiração rota.
Estava eu na aldeia
Que a genética me deu:
Observei a sua ceia
E o nada que comeu.
Passei a ler o seu fito forte e sisudo,
Leve e sincero, o seu sorriso ocasional:
Era o seu lidar com o fim de tudo,
Um esboço materializando o mundo sepulcral.
Lusco fusco certo:
Não conteve a ânsia...
E eu vi de perto
Chamar-se a ambulância.
Acompanhei-lhe a sola até à sala
Azulada e salubre onde o atraso era feito,
O atraso da morte: curta e estreita escala
Era já a produtividade do seu efeito.
De frente à dura e imperativa,
Chamaram o inem, de seguida um escarro:
Poça de sangue, era a morte viva.
Dissidente: sentou-se e fumou um cigarro.
Enrugou a sua pele que o sol exacerbara.
Dela discorria falta de qualquer mordomia.
Deixou entre as mesas que frequentara
Os nutrientes filosóficos que eu consumia.
Digo a robusta verdade
Em cima da sua matéria dura:
Investidas de sinceridade
Orientadas pela estrela da cura
(Razão só a reta e bem medida, sem hábito mental,
E sobre isso, apatia a tudo o que é, que é incerto
Ele que não era filósofo, mais uma oportuna águia rural
Pousada numa esplanada com o copo vertical e vinho por perto).
E quem se arreliava era desprovido, era burro,
Pensava em mora, nada tinha de sentido visceral.
Pois o caráter contundente duma reflexão, dum murro,
Ensina mais do que os capítulos glusentos de qualquer manual.
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