Noite de estreia
O teatro, lotado.
Sentado à minha cadeira (que não era a que eu queria, mas fazer o quê, quem mandou comprar o ingresso em cima da hora?)
vejo o ator, moreno, vestes pretas, barbudo, barriga saliente,
falando de Kafka e da relação tumultuada que sempre teve com o pai.
O ambiente é soturno
o ar-condicionado um pouco acima do ideal
a plateia...
A plateia é outro departamento.
Na primeira fileira
Ah! a primeira fileira...
Eu era novo e inexperiente
estudante de colégio público
e já reclamava da primeira fileira.
Aqueles grandes enganadores
que passam a vida dissimulando
tentando convencer seus professores de que estão realmente interessados.
Pura balela!
No teatro a primeira fileira é aquele lugar sagrado
dos que querem acreditar piamente
- e com isso fazerem os demais acreditarem também -
que gostam (ou entendem) do assunto.
Outra vez: pura balela.
Os adolescentes que afobadamente se aboletaram
encabeçando a plateia
tiram selfies
fofocam
conversam paralelamente ao espetáculo
não entendem sequer 1% do que está sendo encenado.
É...
O meu professor de filosofia da faculdade estava certo:
não existe nada mais cruel e segregador do que o conhecimento.
E as palavras de Kafka
a sua mágoa
o seu ressentimento
a verdade que está escondida ali dentro
incomoda.
Não bastasse a indelicadeza e a intolerância da juventude
ainda preciso conviver com aqueles casais
que trazem os filhos pequenos
por não terem com quem os deixar.
Não existe pior plateia
do que pessoas que não atendem à classificação indicativa.
E a consequência disso é dividir o espetáculo
com seus ruídos, pitis, reclamações, enfado.
É aquele momento em que o corpo parece querer dizer
"vá embora agora!"
mas você simplesmente esnoba o comentário
e decide encarar a batalha de frente.
Lágrimas
berros
incomunicabilidade
o ator se desdobra no palco
apresenta um dos maiores gênios da literatura mundial
sob uma ótica nada tradicional.
Naquele momento
com aquela plateia discordante
Kafka sou eu.
E eu quero ser Kafka.
Eu tenho inveja do ator que encena o monólogo
eu quero que ele troque de lugar comigo.
Agora.
Ao fim de pouco mais de 70 minutos
os aplausos (mesmo os de quem não entendeu nada)
ele pede um pequeno intervalo
convida para o debate posterior
mas eu tenho um outro compromisso
e não poderei permanecer.
Pena!
Fica a curiosidade de saber o que aconteceu depois:
o festival ensandecido de
fotos+autógrafos+abraços+rasgação de seda
e as perguntas óbvias
e a puxação de saco
etc etc etc.
Quer saber?
Foi melhor assim.
Bendito compromisso.
Uma das gestoras do teatro vem ao palco
para anunciar as próximas atrações da casa:
Ionesco, Suassuna, Joyce.
Fico tentado em perguntar qual Joyce
mas ela desce do palco rapidamente
após agradecer a presença de todos.
E eu vou embora
tentando mais uma vez
compreender que mundo é esse
onde é tão difícil encontrar o silêncio...
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