Cantos

Os cantos são os sítios mais escolhidos para chorar, mesmo quando não existe ninguém por perto no resto da casa ou do jardim.
Os cantos até são os sítios mais escolhidos quando as lágrimas não escorrem. Pior quando as lágrimas abundam e não escorrem. Sempre te disse isto.
A tristeza gosta tanto dos cantos que até lhes lambe os dedos.

Os cantos também são procurados para amar.
Não sei se a escolha dos cantos para amar acontece em igual proporção à escolha deles para chorar.

Os cantos serão mais procurados pelo aconchego ou pelo esconderijo ou pelo ângulo de visão?

Os cantos também servem alegria. Pouca, mas servem.
Mais uma rodada para a mesa do canto. Pediste que eu ouvi.

Os cantos não estavam contentes com a geometria e foram apanhar novos ares.
Os cantos fizeram-se música. Até arranjaram derivações para o gregoriano, o coral e o bel canto. Como se o canto não fosse todo belo. Enfim!
Os cantos até se quiseram meter com o homem do café e enfiaram-se no apelido.
Os cantos acharam piada ao desporto e infiltraram-se no futebol. Os peneirosos tinham que reinventar-se. Podes dizer escanteios, não sabias?
Os cantos quiseram-se métrica e puseram-se a dividir poesia. Dez para os Lusíadas. Quinhentos para Ramayana.

E agora, se não te importas, deixa-me voltar para o meu canto.
Hay un caudal de lágrimas que debemos soltar.


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