Cadáver
Só de pensar, alimento: alimento de pensamento.
Quando tenho sede, atravesso o deserto e bebo do meu sangue.
Ponho o barco no mangue, subo feito calango nas paredes;
inverto as coisas de modo certo.
Fumo o cigarro apagado;
fumo o cigarro como se não tivesse fumado.
Vivo o futuro, pensando no passado;
durmo com a insônia na cabeça.
Penso e, na mesma hora, penso que o melhor é que de tudo eu esqueça;
mas esqueço que esqueci naquilo que vivo sempre pensando;
pensando sobre amnésia; assunto sobre o qual, sobra-me ideia.
Assim, penso em algo que penso que conheci e que desconheço;
penso conforme esqueço.
Sou assim: a vida vai passando
e eu cultivando somente aquilo que colhi;
no mesmo compasso vou mudando os passos;
até meus próprios passos ultrapassando.
Não escolhi nascer;
e só vou morrer depois de viver tudo o que tenho que viver;
ainda não sendo esta a vida que escolhi.
Ah! Se fosse para ser o que eu quisesse ser;
não deixaria de ser o ser que é do meu querer;
vivendo sem saber;
sabendo no fim,
que, enfim, serei sim, um defunto;
e, comigo, a vida levarei junto.
Então, eis a questão:
Ser ou não ser.
Mas, como cada cadáver ver de uma maneira,
com o crânio da caveira na mão, pergunto:
_Ser e não ser,
mesmo um cadáver?
Cadáver até o fim,
pela vida inteira
De alguma forma,
isso nem seja ruim, .
para este, que parece que bem se conforma,
e, talvez, viva mesmo, melhor assim.
Comentários (0)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.
Outros poemas de participantes
dopo la tempesta
depois da tempestade é que se sabe trabalhar cansa feito um teorema um dilema na conta do dia depois da tempestade gritos tardios dois r…
Darlan de Matos Cunha
canção para desfile de tropas
música para desfile de tropas aqui não se faz possível mas o mundo é vasto para tanto pasto para tanto risco gestor de si mesmo às avessa…
Darlan de Matos Cunha
Liberdades e opioides
Nem sempre à noite, mas de noite, sempre. As chaves rodam soturnas, esperançosas de um voltar tardio. Lá fora, o fumo passa ao dedo, em r…
Rafael Gonçalves
pender
pender feito cipó procurando algo mais do que o abrigo da árvore gigante busca-se o solo assim é pender de cabeça para baixo - que o noss…
Darlan de Matos Cunha