Lista de Poemas
Polícia
Parece que passou, apenas, um segundo;
pois, lembro
das nossas primeiras férias de dezembro.
No fundo, éramos tão crianças;
mas guardo na lembrança,
aquela vez...
Misturando coragem com timidez,
arrependo só de uma coisa que a gente não fez;
que, de repente, foi a única, talvez,
de cada roubar do outro um beijo.
Mesmo com o desejo, tivemos medo;
porém, mais tarde, aquele beijo poderia vir mais cedo.
Como sentíamos, um covarde, de maneira encorajada,
estávamos, assim, do nada,
de mãos dadas.
E logo me veio à pergunta:
O que fazer estando nossas mãos juntas?
E continuando juntas nossas mãos,
como resposta, me levou para a varanda.
Assim, rodou-me feito pião;
e, ali, já depois, estávamos nós dois,
brincando de ciranda.
Por isso digo a importância
da infância;
porque vejo que, naquela época,
não tínhamos nenhuma malícia.
Pensava (não com essa mesma ignorância):
Se eu lhe roubasse apenas um beijo,
poderia você chamar a polícia?
678
Quadro da vida
Aquela imagem do poeta dentro do retrato
parece que fala, mesmo estando calado;
bem, também, me olha; mexe com eles parados.
Enfim, sai de lá, e já não mais está na parede;
senta no sofá, deita na rede;
diz, ainda, querer um pouco de água para matar sua sede.
Em seguida, me pede um café, e logo de pé,
tira do bolso um cigarro e um isqueiro;
no mesmo instante, o acende e começa a fumar.
Eu acho graça em toda a sala cheia de fumaça;
com o semblante de mágoa, pede-me o cinzeiro,
coloca a mão num papel que estava sobre a mesa.
E, assim, do nada, como mágica,
faz aparecer, entre os dedos, uma caneta.
Escreve um poema que é uma beleza,
e queixa, apesar disso, de seu enredo, de sua inspiração;
faz alguns riscos e rabiscos,
e algumas caretas que não trazem nenhum medo.
Em flagrante, encontro-o com o pensamento distante,
sabe-se onde; pois, pergunto e ele não me responde,
fica, quem diria, dando risada.
Desconsolado, dá uma olhada para o lado;
de um jeito torto, com toda prática e aprendizado,
tenta me convencer ao dizer que bom é o poeta morto.
Dali, eu mesmo via que não mais existia no quadro
sua imagem,
dando margem que nasceu de novo.
Dentro dessa "ressuscitação", passou por uma restauração,
para ter de volta a fama, caiu na graça do povo,
e o povo, como ama, o pôs na crucificação.
Mataram-no, deixaram vivo o seu espírito,
mas, mesmo depois de morto, deixou o seu grito.
Dessa forma, permanecia vivo no quadro da vida,
mesmo pregado, agia em forma de poesia;
como eu mesmo prego, mesmo com prego, não nego,
que continua vivenciado.
Enfim, vós vedes
que até assim és um poeta imortal,
e, de repente, somente, voltastes, afinal,
ao quadro da parede.
454
Van Filosofia
Prefiro que me prenda no calabouço,
arranque minha cabeça
e deixe intacto o meu pescoço. Mesmo que alguém aconselhe, ou não queira que, nele, eu me espelhe;
ou ainda que, em nós, nada se pareça,
pela dúvida, quem sabe, o improvável aconteça,
de forma inimaginável obedeça
em fazer nossa vida 'correr parelha'.
Assim como "Van Gogh", por mais incabível, eu pense em cortar minha orelha minuto a minuto,
ou algo que, talvez, se assemelhe,
por tanto absurdo que ouço,
pois, era preferível estar surdo.
De tudo, um pouco; tenho um pouco de tudo.
Louco, não por falta de estudo,
já que estudo feito louco.
Prefiro ser mudo para melhor ser compreendido;
e, quando não sou compreendido, ai é que mudo.
Iludo, por sentir também, muitas vezes, tão desiludido;
atrevo a escrever, não porque escrevo e nem por ser atrevido.
Escrevo não só pelo dever, mas porque devo deixar escrito;
não posso isso evitar, nem pelo que já evito.
Mas isso parece ser um compromisso irrecusável;
até quando recuso, uso e abuso de maneira inevitável.
Mesmo se tolero, eu não espero tolerar, pelo tanto que já espero.
Mesmo se tolero, não espero tolerar de modo tão tolerável.
Então, prefiro evitar, também, o preferível
e fazer o impossível ser possível,
por mais que eu veja que isso impossível seja;
vendo que é possível, pois acredito até no inacreditável.
Sonho mesmo acordado; acordo como tenho sonhado,
de olhos fechados, imagino-me de olhos abertos.
Certo estou que estou errado, decerto, com o erro acerto;
fazendo o certo, mesmo nas vezes em que, raramente, tenho acertado;
pois até estando errado deixo acertado
que, mesmo fazendo o certo, não acerto, decerto.
408
Marias
Maria, Maria,
dizem que é santa.
Maria, Maria,
são tantas.
Maria, Maria Madalena.
Maria, Maria,
que ama José.
Maria, Maria,
que, às vezes, nem Maria é.
Maria, Maria,
são quantas?
Maria, Maria,
com outro nome qualquer.
Maria, Maria,
mulher, Maria, Maria, que nunca vai sozinha.
Maria, Maria,
em nossa garganta.
Maria, Maria,
alta, média, pequena.
Maria, Maria,
branca,preta, morena.
Eta!
Maria, Maria,
que mesmo não sendo Maria Antonieta,
são consideradas rainhas.
Talvez, antes de Eva,
quando o mundo ainda era trevas,
Maria, Maria,
já havia
em nosso planeta.
478
A mais pura miséria
Miséria,
entalada na garganta,
que não enche a barriga, no fundo do prato,
no almoço, na janta.
Miséria,
que não mata as lombrigas,
na boca, no tato;
na mesa,
como sobremesa,
que, quanto mais se alimenta,
mais aumenta.
Miséria,
que se come,
que se consome,
que não some
em nome da fome.
Mesmo com fartura,
eu vejo como séria:
essa mais pura
miséria.
430
O Papel da Poesia
Passo tudo num papel autêntico;
pois, para mim, tudo é papel, até papel higiênico.
Deus deve estar me esperando no céu;
mas antes de ir para lá,
acho que, primeiro, no inferno, terei de passar.
Não freio na curva da estrada,
sorrio da vida por ser uma piada.
Não tenho medo de minha hora chegar;
se for hora de morrer,
fique sabendo: vou apenas me mudar;
seja onde for,
aqui, não vou deixar de estar.
Se eu mudar para outro plano,
deixo pago o hotel,
porque estou cansado de ver, em minha porta,
cobrarem-me o aluguel.
Não deixarei dívidas,
nem morto.
Isso é o que me conforta,
mesmo que a minha preferência fosse o aborto.
E, dessa existência, pretendo, somente, levar:
meu piano,
meu charuto cubano,
que nem sei bem se vem mesmo das terras de Fidel.
Pretendo, também lembrar o rosto que, sempre, foi posto véu;
terminar o pastel; antes que outros, em meu lugar, o provem;
em todo resto, meter fogo;
depois, misturar com minhas cinzas.
Penso em morrer jovem
e não terminar como meu avô:
velho e ranzinza.
Poder ver o sol se pôr;
já que, no máximo, acordo ao meio-dia.
Mas cadê o papel, pô?!
Se bem acabou, nem tô,
pois me deu vontade de fazer cocô.
E vejo que, por necessidade,
vou ter que limpar,
custe o que custar,
com este mesmo papel que fiz esta poesia.
414
Fases
Um dia, a Lua é cheia;
outro dia, é nova;
hoje, já é minguante;
amanhã, crescente.
Cada dia anda diferente;
antes fosse uma coisa somente.
Vive em fases,
não tem uma base.
Uma hora está gorda, ou magra;
outra hora dividida, ou inteira;
ou, então, bonita ou feia;
sempre está de uma maneira: de um jeito dorme; de outro, acorda.
E a gente a flagra,
toda vez, no céu, de uma forma.
Talvez, não se conforme;
não saiba o que quer.
Isso prova
mais até...
que não sabe direito quem na verdade é.
Assim, está a vida sua
como a da Lua,
mulher.
450
Bananices
Eu não posso compreender a incompreensão do ser humano;
na verdade, a humanidade parece mais um engano.
Que grande parte gostaria de ser marciano;
mesmo não sabendo se existe vida em Marte.
Às vezes, prefiro crer que não estou acreditando;
em que não acredito nem mesmo vendo.
Que até tento achar que compreendo;
mas por tudo que venho conhecendo,
a realidade não passa de uma ilusão.
Assim, iludo com tudo; mesmo com a visão,
prefiro enxergar o mundo como cego.
Fico surdo por tanto que já escuto;
ou melhor falando, acharia que o mais certo seria que eu fosse mudo;
já que o que falo eu já calo;
e, mesmo que cante o galo, ainda nego.
Mesmo que ganhem o paraíso eterno,
mesmo sem ordem,
mordem o fruto,
e tornem o paraíso um inferno;
são os filhos, os frutos desse mesmo produto,
são substitutos,
a herdarem tanto o erro materno como, também, o erro paterno.
A viverem essa vida moderna,
que torna pior do que era
na era das cavernas.
E o homem e o macaco são vistos como farinha do mesmo saco
pela teoria da evolução;
por mais que a teoria pareça tolice,
e não queira, com o macaco, nenhuma comparação à raça humana;
por mais que, na prática, faça os homens, na vida, muita macaquice,
ou comam, também, bananas.
533
Acorda
Ando sem caminho, sou peregrino do destino.
Entre todos, estou mesmo sozinho;
no fundo encontro em todo mundo:
com todo mundo, defino.
Por mais que não pareça, sinto como um menino abandonado
que quer amor, carinho e mais cuidado,
até daqueles que me odeiam, sacaneiam, passando a mão pela minha cabeça.
Procurando, em todo lado, rumo certo na vida,
mas que acorda e vê somente rua sem saída;
fico parado para não pisar em campo minado.
Ando por essa estrada que parece não dar em nenhum lugar: chega a nada.
Como miragem, vem imagem de mar e de sereias,
e logo desaparece e começo a sentir nos pés, a areia.
Tento chegar ao morro, mas afundo.
Para onde corro? Pergunto.
No fundo, a areia é areia movediça;
começo a mover, mesmo com preguiça;
grito por socorro.
Queria que estivesse alguém comigo,
para morrermos juntos
e menor ser o perigo.
Desespero por ver que vou me unir a outros defuntos.
Por salvação espero.
Se fosse para estar morto,
bastava, antes, ser submetido ao aborto;
ou, invés de sexo, meu pai praticasse masturbação.
Perplexo, há confusão de pensamento.
Olho e, de repente, me aparece do nada, uma corda
na hora em que eu mais precisava de ajuda:
a mesma que Judas usou em seu enforcamento,
a mesma que tenta me arrancar do fundo do poço.
Penso que, depois de salvo,
possa ser, no mesmo momento, alvo:
já que estou com a corda no pescoço.
457
‘Umildade’
Sou humilde,
mas nem por isso entro em contato com entulhos,
nem deixo de ler Oscar Wilde,
nem colocaria nome em minhas filhas de Matilde e Clotilde.
Sou humilde com todo orgulho,
a ponto de algo, então, fazer,
sem dizer o que foi que eu fiz;
se bem fiz, deixo pra lá.
Sou professor,
e não fico me sujando com giz,
para mostrar que sou isso de verdade.
Como for,
sou mais um aprendiz,
que nem sabe direito o beabá.
Sou tão humilde,
que escrevo humildade
sem agá.
448
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Daniela
Lindo