diego ivan de souza adib

diego ivan de souza adib

n. 1981 BR BR

n. 1981-07-04, guará-SP

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Polícia



Parece que passou, apenas, um segundo;

pois, lembro

das nossas primeiras férias de dezembro.

No fundo, éramos tão crianças;

mas guardo na lembrança,

aquela vez...

Misturando coragem com timidez,

arrependo só de uma coisa que a gente não fez;

que, de repente, foi a única, talvez,

de cada roubar do outro um beijo.

Mesmo com o desejo, tivemos medo;

porém, mais tarde, aquele beijo poderia vir mais cedo.

Como sentíamos, um covarde, de maneira encorajada,

estávamos, assim, do nada,

de mãos dadas.

E logo me veio à pergunta:

O que fazer estando nossas mãos juntas?

E continuando juntas nossas mãos,

como resposta, me levou para a varanda.

Assim, rodou-me feito pião;

e, ali, já depois, estávamos nós dois,

brincando de ciranda.

Por isso digo a importância

da infância;

porque vejo que, naquela época,

não tínhamos nenhuma malícia.

Pensava (não com essa mesma ignorância):

Se eu lhe roubasse apenas um beijo,

poderia você chamar a polícia?
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Poemas

23

Bananices



Eu não posso compreender a incompreensão do ser humano;

na verdade, a humanidade parece mais um engano.

Que grande parte gostaria de ser marciano;

mesmo não sabendo se existe vida em Marte.

Às vezes, prefiro crer que não estou acreditando;

em que não acredito nem mesmo vendo.

Que até tento achar que compreendo;

mas por tudo que venho conhecendo,

a realidade não passa de uma ilusão.

Assim, iludo com tudo; mesmo com a visão,

prefiro enxergar o mundo como cego.

Fico surdo por tanto que já escuto;

ou melhor falando, acharia que o mais certo seria que eu fosse mudo;

já que o que falo eu já calo;

e, mesmo que cante o galo, ainda nego.

Mesmo que ganhem o paraíso eterno,

mesmo sem ordem,

mordem o fruto,

e tornem o paraíso um inferno;

são os filhos, os frutos desse mesmo produto,

são substitutos,

a herdarem tanto o erro materno como, também, o erro paterno.

A viverem essa vida moderna,

que torna pior do que era

na era das cavernas.

E o homem e o macaco são vistos como farinha do mesmo saco

pela teoria da evolução;

por mais que a teoria pareça tolice,

e não queira, com o macaco, nenhuma comparação à raça humana;

por mais que, na prática, faça os homens, na vida, muita macaquice,

ou comam, também, bananas.

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Polícia



Parece que passou, apenas, um segundo;

pois, lembro

das nossas primeiras férias de dezembro.

No fundo, éramos tão crianças;

mas guardo na lembrança,

aquela vez...

Misturando coragem com timidez,

arrependo só de uma coisa que a gente não fez;

que, de repente, foi a única, talvez,

de cada roubar do outro um beijo.

Mesmo com o desejo, tivemos medo;

porém, mais tarde, aquele beijo poderia vir mais cedo.

Como sentíamos, um covarde, de maneira encorajada,

estávamos, assim, do nada,

de mãos dadas.

E logo me veio à pergunta:

O que fazer estando nossas mãos juntas?

E continuando juntas nossas mãos,

como resposta, me levou para a varanda.

Assim, rodou-me feito pião;

e, ali, já depois, estávamos nós dois,

brincando de ciranda.

Por isso digo a importância

da infância;

porque vejo que, naquela época,

não tínhamos nenhuma malícia.

Pensava (não com essa mesma ignorância):

Se eu lhe roubasse apenas um beijo,

poderia você chamar a polícia?
691

Persona



Por achar que existe uma multidão em nós,

fico comigo a sós,

e essa multidão invade minha solidão.

Para não me sentir, totalmente, solitário,

encontro vários de mim,

e comigo estou eu: que sou meu maior adversário. Vejo vários assim,

com o mesmo perfil,

que são frutos mil,

que são meus próprios frutos.

Quando, simplesmente, me despacho,

num outro me acho.

Procuro um substituto

que fará parte de mim no futuro.

Mas, de todos que sou,

vejo que junto,

também, estou fazendo parte desse mesmo produto.

De todos, no fundo,

sou eu, somente, todo assunto,

sou eu, somente, todo mundo;

ou, mesmo, um indigente

no meio de tanta gente; enfim, absoluto.

Mesmo eu sendo um,

num todo, existe, ainda, algum.

Sem todos, sinto um Deus que se torna ateu;

de todos, dá nenhum,

pois de todos, sou mais eu.
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Retrógrado



Continuo

de onde evoluo.

Continuo

dando recuo.

Continuo sem progresso:

muita evolução, pouco avanço;

mais cansaço enquanto mais descanso.

Vejo, sem progresso, o sucesso;

vejo a evolução do avesso.

Vejo todo retrocesso

e acabo voltando a estaca zero.

Onde espero, em todo caso,

a evolução que, para ser sincero,

não mais passa de um grande atraso;

não passando, mesmo, de um atraso,

essa evolução toda que eu atravesso.
500

Acorda



Ando sem caminho, sou peregrino do destino.

Entre todos, estou mesmo sozinho;

no fundo encontro em todo mundo:

com todo mundo, defino.

Por mais que não pareça, sinto como um menino abandonado

que quer amor, carinho e mais cuidado,

até daqueles que me odeiam, sacaneiam, passando a mão pela minha cabeça.

Procurando, em todo lado, rumo certo na vida,

mas que acorda e vê somente rua sem saída;

fico parado para não pisar em campo minado.

Ando por essa estrada que parece não dar em nenhum lugar: chega a nada.

Como miragem, vem imagem de mar e de sereias,

e logo desaparece e começo a sentir nos pés, a areia.

Tento chegar ao morro, mas afundo.

Para onde corro? Pergunto.

No fundo, a areia é areia movediça;

começo a mover, mesmo com preguiça;

grito por socorro.

Queria que estivesse alguém comigo,

para morrermos juntos

e menor ser o perigo.

Desespero por ver que vou me unir a outros defuntos.

Por salvação espero.

Se fosse para estar morto,

bastava, antes, ser submetido ao aborto;

ou, invés de sexo, meu pai praticasse masturbação.

Perplexo, há confusão de pensamento.

Olho e, de repente, me aparece do nada, uma corda

na hora em que eu mais precisava de ajuda:

a mesma que Judas usou em seu enforcamento,

a mesma que tenta me arrancar do fundo do poço.

Penso que, depois de salvo,

possa ser, no mesmo momento, alvo:

já que estou com a corda no pescoço.





469

Cadáver



Só de pensar, alimento: alimento de pensamento.

Quando tenho sede, atravesso o deserto e bebo do meu sangue.

Ponho o barco no mangue, subo feito calango nas paredes;

inverto as coisas de modo certo.

Fumo o cigarro apagado;

fumo o cigarro como se não tivesse fumado.

Vivo o futuro, pensando no passado;

durmo com a insônia na cabeça.

Penso e, na mesma hora, penso que o melhor é que de tudo eu esqueça;

mas esqueço que esqueci naquilo que vivo sempre pensando;

pensando sobre amnésia; assunto sobre o qual, sobra-me ideia.

Assim, penso em algo que penso que conheci e que desconheço;

penso conforme esqueço.

Sou assim: a vida vai passando

e eu cultivando somente aquilo que colhi;

no mesmo compasso vou mudando os passos;

até meus próprios passos ultrapassando.

Não escolhi nascer;

e só vou morrer depois de viver tudo o que tenho que viver;

ainda não sendo esta a vida que escolhi.

Ah! Se fosse para ser o que eu quisesse ser;

não deixaria de ser o ser que é do meu querer;

vivendo sem saber;

sabendo no fim,

que, enfim, serei sim, um defunto;

e, comigo, a vida levarei junto.

Então, eis a questão:

Ser ou não ser.

Mas, como cada cadáver ver de uma maneira,

com o crânio da caveira na mão, pergunto:

_Ser e não ser,

mesmo um cadáver?

Cadáver até o fim,

pela vida inteira

De alguma forma,

isso nem seja ruim, .

para este, que parece que bem se conforma,

e, talvez, viva mesmo, melhor assim.

477

Vice- Versa



Não há mundo todo sem todo mundo.

Não há, na verdade, mentira sem a mentira na verdade.

Não há felicidade eterna sem a eterna felicidade.

Não há, no fundo, ninguém sem ninguém no fundo.
573

Cabo de mim



Com as mãos, jogaste a semente;

assim fui crescendo normalmente.

Mas, como me plantaste,

depois, plantaste a minha destruição.

Cortando-me com o machado,

as mesmas mãos que têm me semeado;

cortando-me com o machado,

sem ter nenhuma escolha;

tirando todas minhas folhas,

todos os meus galhos;

foi tanto trabalho por nada.

Enfim, só não fui totalmente derrubada,

porque, sim, ficaram no solo minhas raízes.

O machado deixou em mim vários cortes:

sinais de cicatrizes.

Que como uma árvore morta

que suporta todos os desastres,

toda má fé e má sorte,

morri ainda de pé.

Sabendo que, da madeira,

farão machados e machados,

como esse mesmo que, ainda, me corta,

a ponto de fazer, também, eu cortar árvores inteiras.

453

Transfusão



Todo tempo que ocorre tem o tempo certo:

Tudo nasce tudo morre.

Como lá no deserto,

as areias tinham seu tempo determinado,

antes até de o relógio ser inventado,

para se tornarem ampulhetas.

Por favor, se tiver com tempo, leia;

desculpe se eu não chegar no final,

ainda tendo muito para escrever, afinal.

Não se zangue;

espero que possa entender:

Tempo de vida, também tem a caneta.

Mas poderia esperar um pouco mais,

que não seria demais.

Porque ser agora,

não em outra hora?

Mesmo se a velha tinta vermelha estiver fraca,

não importa;

irei pô-la na maca.

Encherei, por completo,

disso que já injeto

o tubo, também de sangue,

para não deixar que fique morta.
494

Pintura



Vejo água saindo de dentro da pintura em que havia uma cachoeira;

e aí, para desligá-la, tive que, rápido, desenhar uma torneira.

E a bananeira com cachos de bananas verdes;

por não verdes que, com o tempo, já estavam maduras; acabou quando pintei um macaco.

Uma criança com os braços levantados

que, depois, já era um homem até com cabelos no sovaco.

Com muita coisa no quadro que eu havia pintado,

abri a janela para entrar na casa o vento;

no momento,

o fogo que existia na moldura, estava apagado.

Até o Cristo crucificado

já tinha ressuscitado,

e sumia até a cruz.

As estrelas viraram estrelas cadentes.

O bebê já criava dente.

A noite vinha para o Sol perder a luz.

O pintinho cantava de galo.

A Lua cheia estava minguante.

E o cavaquinho virava violão.

A água da cachoeira descia pelo ralo;

e a chuva enchia, de novo, a cachoeira num instante.

Mudava de cor o camaleão.

Não tinha nem mais perfume no frasco,

e o gambá voltava a cheirar mal.

A tartaruga escondia dentro do casco.

E o menino que antes lia, estava com o livro fechado,

porque leu até o final.

O pássaro tinha fugido, levando junto à gaiola;

Os meninos que brincavam de bolinha de gude,

já estavam jogando bola.

Com bastante sede, a baleia fazia o mar virar açude.

Era azul o canário que eu havia pintado de amarelo.

Como eu não tinha pregos e nem martelo,

desenhei, atrás da parede, um pouco de cola;

para que, ali, pelo menos, o quadro grude.





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Daniela
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