Aquela imagem do poeta dentro do retrato parece que fala, mesmo estando calado; bem, também, me olha; mexe com eles parados. Enfim, sai de lá, e já não mais está na parede; senta no sofá, deita na rede; diz, ainda, querer um pouco de água para matar sua sede. Em seguida, me pede um café, e logo de pé, tira do bolso um cigarro e um isqueiro; no mesmo instante, o acende e começa a fumar. Eu acho graça em toda a sala cheia de fumaça; com o semblante de mágoa, pede-me o cinzeiro, coloca a mão num papel que estava sobre a mesa. E, assim, do nada, como mágica, faz aparecer, entre os dedos, uma caneta. Escreve um poema que é uma beleza, e queixa, apesar disso, de seu enredo, de sua inspiração; faz alguns riscos e rabiscos, e algumas caretas que não trazem nenhum medo. Em flagrante, encontro-o com o pensamento distante, sabe-se onde; pois, pergunto e ele não me responde, fica, quem diria, dando risada. Desconsolado, dá uma olhada para o lado; de um jeito torto, com toda prática e aprendizado, tenta me convencer ao dizer que bom é o poeta morto. Dali, eu mesmo via que não mais existia no quadro sua imagem, dando margem que nasceu de novo. Dentro dessa "ressuscitação", passou por uma restauração, para ter de volta a fama, caiu na graça do povo, e o povo, como ama, o pôs na crucificação. Mataram-no, deixaram vivo o seu espírito, mas, mesmo depois de morto, deixou o seu grito. Dessa forma, permanecia vivo no quadro da vida, mesmo pregado, agia em forma de poesia; como eu mesmo prego, mesmo com prego, não nego, que continua vivenciado. Enfim, vós vedes que até assim és um poeta imortal, e, de repente, somente, voltastes, afinal, ao quadro da parede.
Quero ser mais do que sou; quero não querer: querer como bem quero. Ser sem ser o ser que sou e já passou. Sendo eu quem for, sendo eu você; sendo eu, apenas, a miragem da imagem que se vê. Mas meu espelho quebrou. O que eu pensava que fosse desaparecer, em mim ficou. E isso só pode acontecer porque prolifero. E, por não ter mais vida própria, no futuro, procuro um sósia, um dublê pela vida. Leia, pense que sou eu uma pessoa alheia; já que, além de mim, existe um sucessor. Pense que sou eu o meu próprio criador, um deus, depois de tanto diabo que me aconteceu, um deus que até mesmo Deus duvida.
420
‘Umildade’
Sou humilde, mas nem por isso entro em contato com entulhos, nem deixo de ler Oscar Wilde, nem colocaria nome em minhas filhas de Matilde e Clotilde. Sou humilde com todo orgulho, a ponto de algo, então, fazer, sem dizer o que foi que eu fiz; se bem fiz, deixo pra lá. Sou professor, e não fico me sujando com giz, para mostrar que sou isso de verdade. Como for, sou mais um aprendiz, que nem sabe direito o beabá. Sou tão humilde, que escrevo humildade sem agá.
461
Tudo aquilo que calo
Vejo de maneira cega, e tudo que vejo me cega dessa mesma maneira; vendo, nos olhos, toda minha cegueira, que não enxergo, por mais que eu mesmo veja; ouvindo o silêncio que vem vindo de forma bem barulhenta; que por mais absurdo que seja, fico mais surdo, pois cada vez mais o silêncio aumenta. E, quando falo, não deixo de estar calado; deixando, também, falado, que tudo que bem falo é tudo aquilo que calo; ou, sobretudo, digo, exatamente, tudo; enfim, consigo responder, mesmo ficando, totalmente, mudo. Isso já é tudo que preciso para dizer.
444
Mesclado
Muitas vezes, o que falo não é escrito, nem é escrito, tudo o que falo. Muitas vezes, calo quando poderia ter dito, mas por achar que deve ser dito, porém, calo. Muitas vezes, sinto que minto em tudo que sinto que acredito. Já que não acredito que sinto, mesmo sentindo que minto com toda sinceridade. Muitas vezes, evito, para evitar, como agora, todas as minhas necessidades, que mesmo evitando, não evito nem por minha vontade o que propriamente necessito.
458
Transfusão
Todo tempo que ocorre tem o tempo certo: Tudo nasce tudo morre. Como lá no deserto, as areias tinham seu tempo determinado, antes até de o relógio ser inventado, para se tornarem ampulhetas. Por favor, se tiver com tempo, leia; desculpe se eu não chegar no final, ainda tendo muito para escrever, afinal. Não se zangue; espero que possa entender: Tempo de vida, também tem a caneta. Mas poderia esperar um pouco mais, que não seria demais. Porque ser agora, não em outra hora? Mesmo se a velha tinta vermelha estiver fraca, não importa; irei pô-la na maca. Encherei, por completo, disso que já injeto o tubo, também de sangue, para não deixar que fique morta.
496
Vice- Versa
Não há mundo todo sem todo mundo. Não há, na verdade, mentira sem a mentira na verdade. Não há felicidade eterna sem a eterna felicidade. Não há, no fundo, ninguém sem ninguém no fundo.
574
Cadáver
Só de pensar, alimento: alimento de pensamento. Quando tenho sede, atravesso o deserto e bebo do meu sangue. Ponho o barco no mangue, subo feito calango nas paredes; inverto as coisas de modo certo. Fumo o cigarro apagado; fumo o cigarro como se não tivesse fumado. Vivo o futuro, pensando no passado; durmo com a insônia na cabeça. Penso e, na mesma hora, penso que o melhor é que de tudo eu esqueça; mas esqueço que esqueci naquilo que vivo sempre pensando; pensando sobre amnésia; assunto sobre o qual, sobra-me ideia. Assim, penso em algo que penso que conheci e que desconheço; penso conforme esqueço. Sou assim: a vida vai passando e eu cultivando somente aquilo que colhi; no mesmo compasso vou mudando os passos; até meus próprios passos ultrapassando. Não escolhi nascer; e só vou morrer depois de viver tudo o que tenho que viver; ainda não sendo esta a vida que escolhi. Ah! Se fosse para ser o que eu quisesse ser; não deixaria de ser o ser que é do meu querer; vivendo sem saber; sabendo no fim, que, enfim, serei sim, um defunto; e, comigo, a vida levarei junto. Então, eis a questão: Ser ou não ser. Mas, como cada cadáver ver de uma maneira, com o crânio da caveira na mão, pergunto: _Ser e não ser, mesmo um cadáver? Cadáver até o fim, pela vida inteira De alguma forma, isso nem seja ruim, . para este, que parece que bem se conforma, e, talvez, viva mesmo, melhor assim.
479
Cabo de mim
Com as mãos, jogaste a semente; assim fui crescendo normalmente. Mas, como me plantaste, depois, plantaste a minha destruição. Cortando-me com o machado, as mesmas mãos que têm me semeado; cortando-me com o machado, sem ter nenhuma escolha; tirando todas minhas folhas, todos os meus galhos; foi tanto trabalho por nada. Enfim, só não fui totalmente derrubada, porque, sim, ficaram no solo minhas raízes. O machado deixou em mim vários cortes: sinais de cicatrizes. Que como uma árvore morta que suporta todos os desastres, toda má fé e má sorte, morri ainda de pé. Sabendo que, da madeira, farão machados e machados, como esse mesmo que, ainda, me corta, a ponto de fazer, também, eu cortar árvores inteiras.
454
Music Match
Anjos não tocam banjos, mas sim harpas douradas. No céu, tão modesto, está Deus com a batuta, comandando com muita luta a orquestra, para ficar bem afinada. Com o diabo, em disputa com o Criador, fazendo um barulho infernal. Assim, o céu todo em festa, como evento musical, promove um festival. Deus inova com um coral, uma música que, além de calma, dá para sentir na alma. Todos ouvem como se fosse uma seresta, aquele canto de louvor. Lúcifer, com integrantes da banda que traziam: guitarra elétrica, contrabaixo, teclado e bateria, apresenta-se no vocal. Enfim, como cantor, sem que impressione a maioria, testa o microfone e começa, após a melodia, ao som de um Rock& Roll totalmente radical. A platéia acostumada a dançar ciranda, como torcida, na hora do gol, festejou muito naquela ocasião; fez uma confusão; mais parecia carnaval. Talvez, pela mudança, pelo escarcéu em geral, até o Pai Celestial entrou na dança. Mas depois que a música chegou ao fim, tudo voltou ao normal. Entre o som da trombeta, anunciou o querubim, que o vencedor não era ninguém mais do que o próprio capeta. Humildemente, o Altíssimo entregou-lhe o troféu e, por favor, pediu discretamente, que não mais volte a cantar no céu.
427
Louco Normal
Aos poucos vou deixando meu psiquiatra louco, pela loucura dele, que ele mesmo trata; pela loucura que vê que não tem cura, e que muitos param no hospício; pelo ofício ou mesmo pelo vício, trata isso como virtude. Ser louco ou não é coisa sã; para vã filosofia, nada é em vão. Importante é a loucura que cada qual assume, e hoje para ser assim, enfim, a de ter atitude. Eu, que tentei ser, mais do que pude, um louco racional, vi que a loucura de ser louco tanto ilude, que não passei de um louco normal.