Parece que passou, apenas, um segundo; pois, lembro das nossas primeiras férias de dezembro. No fundo, éramos tão crianças; mas guardo na lembrança, aquela vez... Misturando coragem com timidez, arrependo só de uma coisa que a gente não fez; que, de repente, foi a única, talvez, de cada roubar do outro um beijo. Mesmo com o desejo, tivemos medo; porém, mais tarde, aquele beijo poderia vir mais cedo. Como sentíamos, um covarde, de maneira encorajada, estávamos, assim, do nada, de mãos dadas. E logo me veio à pergunta: O que fazer estando nossas mãos juntas? E continuando juntas nossas mãos, como resposta, me levou para a varanda. Assim, rodou-me feito pião; e, ali, já depois, estávamos nós dois, brincando de ciranda. Por isso digo a importância da infância; porque vejo que, naquela época, não tínhamos nenhuma malícia. Pensava (não com essa mesma ignorância): Se eu lhe roubasse apenas um beijo, poderia você chamar a polícia?
Vossa Alteza: a terra é uma beleza; o nome veio como luz; o monte alto, chamado Monte Pascoal, a terra batizada de Vera Cruz. Índios totalmente nus, índias belas por sinal, isso seduz mais até do que as raparigas de Portugal. Bom fruto, realmente, aqui se produz. Ai Jesus! Aqui é algo que ninguém traduz. Sabendo que nem tudo que reluz é ouro, mas de ouro e prata é cercada toda mata; e, também, de outros tesouros. O capitão mostrou aos nativos: papagaio, carneiro e galinha; eles, com medo, mostraram: gato, lobo e onça-pintada. De tão inocentes, tudo davam a troco de nada pelo que a tripulação tinha. Fossem espelhos, rosários ou pentes, enfim, entregavam, de mão beijada, todas as suas riquezas. Para não levarmos nenhuma flechada, não dávamos risadas, nem ficávamos descontentes; estando certos de que tudo não passava de uma grande gentileza. Nós éramos espertos, tão espertos a ponto de não deixar notar nossa esperteza; e, assim, agíamos pelo o motivo de sermos tão ativos. Com certeza, é mesmo aqui''um país tropical e bonito por natureza". Afinal, desde que foi descoberta por Cabral, a ilha deixou de ser uma maravilha. Dentro dessa garrafa, envio-lhe essa carta, esperando que, em mãos certas, ela parta. Se pudesse, junto mandaria um cartão-postal para mostrar o Corcovado, o Cristo Redentor, o Planalto Central, a Amazônia, o Pantanal, o Futebol e o Carnaval. No entanto, saberá disso só no futuro, porque os correios cobram a quantia, e por fora elevados juros para chegar no mesmo dia. Bom escrever, já que nunca mesmo adivinhará, mas a independência dos coloniais virá de longínquo parentesco. Então, pense antes em querer ter filhos com a rainha; como dizem aqui: ''pimenta nos olhos dos outros é refresco". Assinado: Pero Vaz De Caminha.
421
Louco Normal
Aos poucos vou deixando meu psiquiatra louco, pela loucura dele, que ele mesmo trata; pela loucura que vê que não tem cura, e que muitos param no hospício; pelo ofício ou mesmo pelo vício, trata isso como virtude. Ser louco ou não é coisa sã; para vã filosofia, nada é em vão. Importante é a loucura que cada qual assume, e hoje para ser assim, enfim, a de ter atitude. Eu, que tentei ser, mais do que pude, um louco racional, vi que a loucura de ser louco tanto ilude, que não passei de um louco normal.
421
Music Match
Anjos não tocam banjos, mas sim harpas douradas. No céu, tão modesto, está Deus com a batuta, comandando com muita luta a orquestra, para ficar bem afinada. Com o diabo, em disputa com o Criador, fazendo um barulho infernal. Assim, o céu todo em festa, como evento musical, promove um festival. Deus inova com um coral, uma música que, além de calma, dá para sentir na alma. Todos ouvem como se fosse uma seresta, aquele canto de louvor. Lúcifer, com integrantes da banda que traziam: guitarra elétrica, contrabaixo, teclado e bateria, apresenta-se no vocal. Enfim, como cantor, sem que impressione a maioria, testa o microfone e começa, após a melodia, ao som de um Rock& Roll totalmente radical. A platéia acostumada a dançar ciranda, como torcida, na hora do gol, festejou muito naquela ocasião; fez uma confusão; mais parecia carnaval. Talvez, pela mudança, pelo escarcéu em geral, até o Pai Celestial entrou na dança. Mas depois que a música chegou ao fim, tudo voltou ao normal. Entre o som da trombeta, anunciou o querubim, que o vencedor não era ninguém mais do que o próprio capeta. Humildemente, o Altíssimo entregou-lhe o troféu e, por favor, pediu discretamente, que não mais volte a cantar no céu.
427
Mesclado
Muitas vezes, o que falo não é escrito, nem é escrito, tudo o que falo. Muitas vezes, calo quando poderia ter dito, mas por achar que deve ser dito, porém, calo. Muitas vezes, sinto que minto em tudo que sinto que acredito. Já que não acredito que sinto, mesmo sentindo que minto com toda sinceridade. Muitas vezes, evito, para evitar, como agora, todas as minhas necessidades, que mesmo evitando, não evito nem por minha vontade o que propriamente necessito.
459
Pintura
Vejo água saindo de dentro da pintura em que havia uma cachoeira; e aí, para desligá-la, tive que, rápido, desenhar uma torneira. E a bananeira com cachos de bananas verdes; por não verdes que, com o tempo, já estavam maduras; acabou quando pintei um macaco. Uma criança com os braços levantados que, depois, já era um homem até com cabelos no sovaco. Com muita coisa no quadro que eu havia pintado, abri a janela para entrar na casa o vento; no momento, o fogo que existia na moldura, estava apagado. Até o Cristo crucificado já tinha ressuscitado, e sumia até a cruz. As estrelas viraram estrelas cadentes. O bebê já criava dente. A noite vinha para o Sol perder a luz. O pintinho cantava de galo. A Lua cheia estava minguante. E o cavaquinho virava violão. A água da cachoeira descia pelo ralo; e a chuva enchia, de novo, a cachoeira num instante. Mudava de cor o camaleão. Não tinha nem mais perfume no frasco, e o gambá voltava a cheirar mal. A tartaruga escondia dentro do casco. E o menino que antes lia, estava com o livro fechado, porque leu até o final. O pássaro tinha fugido, levando junto à gaiola; Os meninos que brincavam de bolinha de gude, já estavam jogando bola. Com bastante sede, a baleia fazia o mar virar açude. Era azul o canário que eu havia pintado de amarelo. Como eu não tinha pregos e nem martelo, desenhei, atrás da parede, um pouco de cola; para que, ali, pelo menos, o quadro grude.
610
O Papel da Poesia
Passo tudo num papel autêntico; pois, para mim, tudo é papel, até papel higiênico. Deus deve estar me esperando no céu; mas antes de ir para lá, acho que, primeiro, no inferno, terei de passar. Não freio na curva da estrada, sorrio da vida por ser uma piada. Não tenho medo de minha hora chegar; se for hora de morrer, fique sabendo: vou apenas me mudar; seja onde for, aqui, não vou deixar de estar. Se eu mudar para outro plano, deixo pago o hotel, porque estou cansado de ver, em minha porta, cobrarem-me o aluguel. Não deixarei dívidas, nem morto. Isso é o que me conforta, mesmo que a minha preferência fosse o aborto. E, dessa existência, pretendo, somente, levar: meu piano, meu charuto cubano, que nem sei bem se vem mesmo das terras de Fidel. Pretendo, também lembrar o rosto que, sempre, foi posto véu; terminar o pastel; antes que outros, em meu lugar, o provem; em todo resto, meter fogo; depois, misturar com minhas cinzas. Penso em morrer jovem e não terminar como meu avô: velho e ranzinza. Poder ver o sol se pôr; já que, no máximo, acordo ao meio-dia. Mas cadê o papel, pô?! Se bem acabou, nem tô, pois me deu vontade de fazer cocô. E vejo que, por necessidade, vou ter que limpar, custe o que custar, com este mesmo papel que fiz esta poesia.
430
Bananices
Eu não posso compreender a incompreensão do ser humano; na verdade, a humanidade parece mais um engano. Que grande parte gostaria de ser marciano; mesmo não sabendo se existe vida em Marte. Às vezes, prefiro crer que não estou acreditando; em que não acredito nem mesmo vendo. Que até tento achar que compreendo; mas por tudo que venho conhecendo, a realidade não passa de uma ilusão. Assim, iludo com tudo; mesmo com a visão, prefiro enxergar o mundo como cego. Fico surdo por tanto que já escuto; ou melhor falando, acharia que o mais certo seria que eu fosse mudo; já que o que falo eu já calo; e, mesmo que cante o galo, ainda nego. Mesmo que ganhem o paraíso eterno, mesmo sem ordem, mordem o fruto, e tornem o paraíso um inferno; são os filhos, os frutos desse mesmo produto, são substitutos, a herdarem tanto o erro materno como, também, o erro paterno. A viverem essa vida moderna, que torna pior do que era na era das cavernas. E o homem e o macaco são vistos como farinha do mesmo saco pela teoria da evolução; por mais que a teoria pareça tolice, e não queira, com o macaco, nenhuma comparação à raça humana; por mais que, na prática, faça os homens, na vida, muita macaquice, ou comam, também, bananas.
553
Vice- Versa
Não há mundo todo sem todo mundo. Não há, na verdade, mentira sem a mentira na verdade. Não há felicidade eterna sem a eterna felicidade. Não há, no fundo, ninguém sem ninguém no fundo.
575
Cabo de mim
Com as mãos, jogaste a semente; assim fui crescendo normalmente. Mas, como me plantaste, depois, plantaste a minha destruição. Cortando-me com o machado, as mesmas mãos que têm me semeado; cortando-me com o machado, sem ter nenhuma escolha; tirando todas minhas folhas, todos os meus galhos; foi tanto trabalho por nada. Enfim, só não fui totalmente derrubada, porque, sim, ficaram no solo minhas raízes. O machado deixou em mim vários cortes: sinais de cicatrizes. Que como uma árvore morta que suporta todos os desastres, toda má fé e má sorte, morri ainda de pé. Sabendo que, da madeira, farão machados e machados, como esse mesmo que, ainda, me corta, a ponto de fazer, também, eu cortar árvores inteiras.
455
Persona
Por achar que existe uma multidão em nós, fico comigo a sós, e essa multidão invade minha solidão. Para não me sentir, totalmente, solitário, encontro vários de mim, e comigo estou eu: que sou meu maior adversário. Vejo vários assim, com o mesmo perfil, que são frutos mil, que são meus próprios frutos. Quando, simplesmente, me despacho, num outro me acho. Procuro um substituto que fará parte de mim no futuro. Mas, de todos que sou, vejo que junto, também, estou fazendo parte desse mesmo produto. De todos, no fundo, sou eu, somente, todo assunto, sou eu, somente, todo mundo; ou, mesmo, um indigente no meio de tanta gente; enfim, absoluto. Mesmo eu sendo um, num todo, existe, ainda, algum. Sem todos, sinto um Deus que se torna ateu; de todos, dá nenhum, pois de todos, sou mais eu.