diego ivan de souza adib

diego ivan de souza adib

n. 1981 BR BR

n. 1981-07-04, guará-SP

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Polícia



Parece que passou, apenas, um segundo;

pois, lembro

das nossas primeiras férias de dezembro.

No fundo, éramos tão crianças;

mas guardo na lembrança,

aquela vez...

Misturando coragem com timidez,

arrependo só de uma coisa que a gente não fez;

que, de repente, foi a única, talvez,

de cada roubar do outro um beijo.

Mesmo com o desejo, tivemos medo;

porém, mais tarde, aquele beijo poderia vir mais cedo.

Como sentíamos, um covarde, de maneira encorajada,

estávamos, assim, do nada,

de mãos dadas.

E logo me veio à pergunta:

O que fazer estando nossas mãos juntas?

E continuando juntas nossas mãos,

como resposta, me levou para a varanda.

Assim, rodou-me feito pião;

e, ali, já depois, estávamos nós dois,

brincando de ciranda.

Por isso digo a importância

da infância;

porque vejo que, naquela época,

não tínhamos nenhuma malícia.

Pensava (não com essa mesma ignorância):

Se eu lhe roubasse apenas um beijo,

poderia você chamar a polícia?
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Poemas

23

Polícia



Parece que passou, apenas, um segundo;

pois, lembro

das nossas primeiras férias de dezembro.

No fundo, éramos tão crianças;

mas guardo na lembrança,

aquela vez...

Misturando coragem com timidez,

arrependo só de uma coisa que a gente não fez;

que, de repente, foi a única, talvez,

de cada roubar do outro um beijo.

Mesmo com o desejo, tivemos medo;

porém, mais tarde, aquele beijo poderia vir mais cedo.

Como sentíamos, um covarde, de maneira encorajada,

estávamos, assim, do nada,

de mãos dadas.

E logo me veio à pergunta:

O que fazer estando nossas mãos juntas?

E continuando juntas nossas mãos,

como resposta, me levou para a varanda.

Assim, rodou-me feito pião;

e, ali, já depois, estávamos nós dois,

brincando de ciranda.

Por isso digo a importância

da infância;

porque vejo que, naquela época,

não tínhamos nenhuma malícia.

Pensava (não com essa mesma ignorância):

Se eu lhe roubasse apenas um beijo,

poderia você chamar a polícia?
693

Quadro da vida



Aquela imagem do poeta dentro do retrato

parece que fala, mesmo estando calado;

bem, também, me olha; mexe com eles parados.

Enfim, sai de lá, e já não mais está na parede;

senta no sofá, deita na rede;

diz, ainda, querer um pouco de água para matar sua sede.

Em seguida, me pede um café, e logo de pé,

tira do bolso um cigarro e um isqueiro;

no mesmo instante, o acende e começa a fumar.

Eu acho graça em toda a sala cheia de fumaça;

com o semblante de mágoa, pede-me o cinzeiro,

coloca a mão num papel que estava sobre a mesa.

E, assim, do nada, como mágica,

faz aparecer, entre os dedos, uma caneta.

Escreve um poema que é uma beleza,

e queixa, apesar disso, de seu enredo, de sua inspiração;

faz alguns riscos e rabiscos,

e algumas caretas que não trazem nenhum medo.

Em flagrante, encontro-o com o pensamento distante,

sabe-se onde; pois, pergunto e ele não me responde,

fica, quem diria, dando risada.

Desconsolado, dá uma olhada para o lado;

de um jeito torto, com toda prática e aprendizado,

tenta me convencer ao dizer que bom é o poeta morto.

Dali, eu mesmo via que não mais existia no quadro

sua imagem,

dando margem que nasceu de novo.

Dentro dessa "ressuscitação", passou por uma restauração,

para ter de volta a fama, caiu na graça do povo,

e o povo, como ama, o pôs na crucificação.

Mataram-no, deixaram vivo o seu espírito,

mas, mesmo depois de morto, deixou o seu grito.

Dessa forma, permanecia vivo no quadro da vida,

mesmo pregado, agia em forma de poesia;

como eu mesmo prego, mesmo com prego, não nego,

que continua vivenciado.

Enfim, vós vedes

que até assim és um poeta imortal,

e, de repente, somente, voltastes, afinal,

ao quadro da parede.
470

Transfusão



Todo tempo que ocorre tem o tempo certo:

Tudo nasce tudo morre.

Como lá no deserto,

as areias tinham seu tempo determinado,

antes até de o relógio ser inventado,

para se tornarem ampulhetas.

Por favor, se tiver com tempo, leia;

desculpe se eu não chegar no final,

ainda tendo muito para escrever, afinal.

Não se zangue;

espero que possa entender:

Tempo de vida, também tem a caneta.

Mas poderia esperar um pouco mais,

que não seria demais.

Porque ser agora,

não em outra hora?

Mesmo se a velha tinta vermelha estiver fraca,

não importa;

irei pô-la na maca.

Encherei, por completo,

disso que já injeto

o tubo, também de sangue,

para não deixar que fique morta.
497

Acorda



Ando sem caminho, sou peregrino do destino.

Entre todos, estou mesmo sozinho;

no fundo encontro em todo mundo:

com todo mundo, defino.

Por mais que não pareça, sinto como um menino abandonado

que quer amor, carinho e mais cuidado,

até daqueles que me odeiam, sacaneiam, passando a mão pela minha cabeça.

Procurando, em todo lado, rumo certo na vida,

mas que acorda e vê somente rua sem saída;

fico parado para não pisar em campo minado.

Ando por essa estrada que parece não dar em nenhum lugar: chega a nada.

Como miragem, vem imagem de mar e de sereias,

e logo desaparece e começo a sentir nos pés, a areia.

Tento chegar ao morro, mas afundo.

Para onde corro? Pergunto.

No fundo, a areia é areia movediça;

começo a mover, mesmo com preguiça;

grito por socorro.

Queria que estivesse alguém comigo,

para morrermos juntos

e menor ser o perigo.

Desespero por ver que vou me unir a outros defuntos.

Por salvação espero.

Se fosse para estar morto,

bastava, antes, ser submetido ao aborto;

ou, invés de sexo, meu pai praticasse masturbação.

Perplexo, há confusão de pensamento.

Olho e, de repente, me aparece do nada, uma corda

na hora em que eu mais precisava de ajuda:

a mesma que Judas usou em seu enforcamento,

a mesma que tenta me arrancar do fundo do poço.

Penso que, depois de salvo,

possa ser, no mesmo momento, alvo:

já que estou com a corda no pescoço.





470

Retrógrado



Continuo

de onde evoluo.

Continuo

dando recuo.

Continuo sem progresso:

muita evolução, pouco avanço;

mais cansaço enquanto mais descanso.

Vejo, sem progresso, o sucesso;

vejo a evolução do avesso.

Vejo todo retrocesso

e acabo voltando a estaca zero.

Onde espero, em todo caso,

a evolução que, para ser sincero,

não mais passa de um grande atraso;

não passando, mesmo, de um atraso,

essa evolução toda que eu atravesso.
503

A mais pura miséria



Miséria,

entalada na garganta,

que não enche a barriga, no fundo do prato,

no almoço, na janta.

Miséria,

que não mata as lombrigas,

na boca, no tato;

na mesa,

como sobremesa,

que, quanto mais se alimenta,

mais aumenta.

Miséria,

que se come,

que se consome,

que não some

em nome da fome.

Mesmo com fartura,

eu vejo como séria:

essa mais pura

miséria.
445

Van Filosofia



Prefiro que me prenda no calabouço,

arranque minha cabeça

e deixe intacto o meu pescoço. Mesmo que alguém aconselhe, ou não queira que, nele, eu me espelhe;

ou ainda que, em nós, nada se pareça,

pela dúvida, quem sabe, o improvável aconteça,

de forma inimaginável obedeça

em fazer nossa vida 'correr parelha'.

Assim como "Van Gogh", por mais incabível, eu pense em cortar minha orelha minuto a minuto,

ou algo que, talvez, se assemelhe,

por tanto absurdo que ouço,

pois, era preferível estar surdo.

De tudo, um pouco; tenho um pouco de tudo.

Louco, não por falta de estudo,

já que estudo feito louco.

Prefiro ser mudo para melhor ser compreendido;

e, quando não sou compreendido, ai é que mudo.

Iludo, por sentir também, muitas vezes, tão desiludido;

atrevo a escrever, não porque escrevo e nem por ser atrevido.

Escrevo não só pelo dever, mas porque devo deixar escrito;

não posso isso evitar, nem pelo que já evito.

Mas isso parece ser um compromisso irrecusável;

até quando recuso, uso e abuso de maneira inevitável.

Mesmo se tolero, eu não espero tolerar, pelo tanto que já espero.

Mesmo se tolero, não espero tolerar de modo tão tolerável.

Então, prefiro evitar, também, o preferível

e fazer o impossível ser possível,

por mais que eu veja que isso impossível seja;

vendo que é possível, pois acredito até no inacreditável.

Sonho mesmo acordado; acordo como tenho sonhado,

de olhos fechados, imagino-me de olhos abertos.

Certo estou que estou errado, decerto, com o erro acerto;

fazendo o certo, mesmo nas vezes em que, raramente, tenho acertado;

pois até estando errado deixo acertado

que, mesmo fazendo o certo, não acerto, decerto.
421

Marias



Maria, Maria,

dizem que é santa.

Maria, Maria,

são tantas.

Maria, Maria Madalena.

Maria, Maria,

que ama José.

Maria, Maria,

que, às vezes, nem Maria é.

Maria, Maria,

são quantas?

Maria, Maria,

com outro nome qualquer.

Maria, Maria,

mulher, Maria, Maria, que nunca vai sozinha.

Maria, Maria,

em nossa garganta.

Maria, Maria,

alta, média, pequena.

Maria, Maria,

branca,preta, morena.

Eta!

Maria, Maria,

que mesmo não sendo Maria Antonieta,

são consideradas rainhas.

Talvez, antes de Eva,

quando o mundo ainda era trevas,

Maria, Maria,

já havia

em nosso planeta.

492

Fases



Um dia, a Lua é cheia;

outro dia, é nova;

hoje, já é minguante;

amanhã, crescente.

Cada dia anda diferente;

antes fosse uma coisa somente.

Vive em fases,

não tem uma base.

Uma hora está gorda, ou magra;

outra hora dividida, ou inteira;

ou, então, bonita ou feia;

sempre está de uma maneira: de um jeito dorme; de outro, acorda.

E a gente a flagra,

toda vez, no céu, de uma forma.

Talvez, não se conforme;

não saiba o que quer.

Isso prova

mais até...

que não sabe direito quem na verdade é.

Assim, está a vida sua

como a da Lua,

mulher.
463

Cadáver



Só de pensar, alimento: alimento de pensamento.

Quando tenho sede, atravesso o deserto e bebo do meu sangue.

Ponho o barco no mangue, subo feito calango nas paredes;

inverto as coisas de modo certo.

Fumo o cigarro apagado;

fumo o cigarro como se não tivesse fumado.

Vivo o futuro, pensando no passado;

durmo com a insônia na cabeça.

Penso e, na mesma hora, penso que o melhor é que de tudo eu esqueça;

mas esqueço que esqueci naquilo que vivo sempre pensando;

pensando sobre amnésia; assunto sobre o qual, sobra-me ideia.

Assim, penso em algo que penso que conheci e que desconheço;

penso conforme esqueço.

Sou assim: a vida vai passando

e eu cultivando somente aquilo que colhi;

no mesmo compasso vou mudando os passos;

até meus próprios passos ultrapassando.

Não escolhi nascer;

e só vou morrer depois de viver tudo o que tenho que viver;

ainda não sendo esta a vida que escolhi.

Ah! Se fosse para ser o que eu quisesse ser;

não deixaria de ser o ser que é do meu querer;

vivendo sem saber;

sabendo no fim,

que, enfim, serei sim, um defunto;

e, comigo, a vida levarei junto.

Então, eis a questão:

Ser ou não ser.

Mas, como cada cadáver ver de uma maneira,

com o crânio da caveira na mão, pergunto:

_Ser e não ser,

mesmo um cadáver?

Cadáver até o fim,

pela vida inteira

De alguma forma,

isso nem seja ruim, .

para este, que parece que bem se conforma,

e, talvez, viva mesmo, melhor assim.

480

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Daniela
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