Aquela imagem do poeta dentro do retrato parece que fala, mesmo estando calado; bem, também, me olha; mexe com eles parados. Enfim, sai de lá, e já não mais está na parede; senta no sofá, deita na rede; diz, ainda, querer um pouco de água para matar sua sede. Em seguida, me pede um café, e logo de pé, tira do bolso um cigarro e um isqueiro; no mesmo instante, o acende e começa a fumar. Eu acho graça em toda a sala cheia de fumaça; com o semblante de mágoa, pede-me o cinzeiro, coloca a mão num papel que estava sobre a mesa. E, assim, do nada, como mágica, faz aparecer, entre os dedos, uma caneta. Escreve um poema que é uma beleza, e queixa, apesar disso, de seu enredo, de sua inspiração; faz alguns riscos e rabiscos, e algumas caretas que não trazem nenhum medo. Em flagrante, encontro-o com o pensamento distante, sabe-se onde; pois, pergunto e ele não me responde, fica, quem diria, dando risada. Desconsolado, dá uma olhada para o lado; de um jeito torto, com toda prática e aprendizado, tenta me convencer ao dizer que bom é o poeta morto. Dali, eu mesmo via que não mais existia no quadro sua imagem, dando margem que nasceu de novo. Dentro dessa "ressuscitação", passou por uma restauração, para ter de volta a fama, caiu na graça do povo, e o povo, como ama, o pôs na crucificação. Mataram-no, deixaram vivo o seu espírito, mas, mesmo depois de morto, deixou o seu grito. Dessa forma, permanecia vivo no quadro da vida, mesmo pregado, agia em forma de poesia; como eu mesmo prego, mesmo com prego, não nego, que continua vivenciado. Enfim, vós vedes que até assim és um poeta imortal, e, de repente, somente, voltastes, afinal, ao quadro da parede.
Maria, Maria, dizem que é santa. Maria, Maria, são tantas. Maria, Maria Madalena. Maria, Maria, que ama José. Maria, Maria, que, às vezes, nem Maria é. Maria, Maria, são quantas? Maria, Maria, com outro nome qualquer. Maria, Maria, mulher, Maria, Maria, que nunca vai sozinha. Maria, Maria, em nossa garganta. Maria, Maria, alta, média, pequena. Maria, Maria, branca,preta, morena. Eta! Maria, Maria, que mesmo não sendo Maria Antonieta, são consideradas rainhas. Talvez, antes de Eva, quando o mundo ainda era trevas, Maria, Maria, já havia em nosso planeta.
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O Papel da Poesia
Passo tudo num papel autêntico; pois, para mim, tudo é papel, até papel higiênico. Deus deve estar me esperando no céu; mas antes de ir para lá, acho que, primeiro, no inferno, terei de passar. Não freio na curva da estrada, sorrio da vida por ser uma piada. Não tenho medo de minha hora chegar; se for hora de morrer, fique sabendo: vou apenas me mudar; seja onde for, aqui, não vou deixar de estar. Se eu mudar para outro plano, deixo pago o hotel, porque estou cansado de ver, em minha porta, cobrarem-me o aluguel. Não deixarei dívidas, nem morto. Isso é o que me conforta, mesmo que a minha preferência fosse o aborto. E, dessa existência, pretendo, somente, levar: meu piano, meu charuto cubano, que nem sei bem se vem mesmo das terras de Fidel. Pretendo, também lembrar o rosto que, sempre, foi posto véu; terminar o pastel; antes que outros, em meu lugar, o provem; em todo resto, meter fogo; depois, misturar com minhas cinzas. Penso em morrer jovem e não terminar como meu avô: velho e ranzinza. Poder ver o sol se pôr; já que, no máximo, acordo ao meio-dia. Mas cadê o papel, pô?! Se bem acabou, nem tô, pois me deu vontade de fazer cocô. E vejo que, por necessidade, vou ter que limpar, custe o que custar, com este mesmo papel que fiz esta poesia.
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Van Filosofia
Prefiro que me prenda no calabouço, arranque minha cabeça e deixe intacto o meu pescoço. Mesmo que alguém aconselhe, ou não queira que, nele, eu me espelhe; ou ainda que, em nós, nada se pareça, pela dúvida, quem sabe, o improvável aconteça, de forma inimaginável obedeça em fazer nossa vida 'correr parelha'. Assim como "Van Gogh", por mais incabível, eu pense em cortar minha orelha minuto a minuto, ou algo que, talvez, se assemelhe, por tanto absurdo que ouço, pois, era preferível estar surdo. De tudo, um pouco; tenho um pouco de tudo. Louco, não por falta de estudo, já que estudo feito louco. Prefiro ser mudo para melhor ser compreendido; e, quando não sou compreendido, ai é que mudo. Iludo, por sentir também, muitas vezes, tão desiludido; atrevo a escrever, não porque escrevo e nem por ser atrevido. Escrevo não só pelo dever, mas porque devo deixar escrito; não posso isso evitar, nem pelo que já evito. Mas isso parece ser um compromisso irrecusável; até quando recuso, uso e abuso de maneira inevitável. Mesmo se tolero, eu não espero tolerar, pelo tanto que já espero. Mesmo se tolero, não espero tolerar de modo tão tolerável. Então, prefiro evitar, também, o preferível e fazer o impossível ser possível, por mais que eu veja que isso impossível seja; vendo que é possível, pois acredito até no inacreditável. Sonho mesmo acordado; acordo como tenho sonhado, de olhos fechados, imagino-me de olhos abertos. Certo estou que estou errado, decerto, com o erro acerto; fazendo o certo, mesmo nas vezes em que, raramente, tenho acertado; pois até estando errado deixo acertado que, mesmo fazendo o certo, não acerto, decerto.