o açucareiro era de alumínio, alto e gordo, e servia para guardar o açúcar louro que tinha uma cor acastanhada, mas nem isso fazia com que dissesse açúcar castanho como também ouvia. castanhas eram aquelas pedrinhas que se formavam no açúcar e eu apanhava para levar à boca, como se fossem rebuçados. remexia o açúcar na esperança de apanhar mais, de que estivessem sempre a nascer pérolas e não sabia de onde vinham aqueles tesouros nem me preocupava com isso. 
uma vaga ideia de prémio. apenas isso. as pérolas aconteciam-me. os tesouros apareciam-me.

hoje, à procura de rios para ti, 
braços em alfabeto, pinturas com asas e janelas debruadas a olhos grandes com uma pitada de triste,
vi a mão da miúda a abrir buracos no açúcar para encontrar pedacinhos de ti.

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Comentários (2)

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Isabel Pires Autor
2018-02-23

Obrigada, rosafogo, pelo comentário tão generoso.

2018-02-23

É por isso que eu gosto de ler, viver de lembranças é não deixar morrer a criança em nós, revi-me pois eu adorava esses torrõezinhos de açucar amarelo... hoje recordei com prazer...obrigado.