a permanência da memória dos dias de sal

a permanência da memória dos dias de sal

2019

Amo-te

claro que "belo" é uma aproximação. um termo terrestre.

mas foi o que senti ser aquele dia em que depositaste as palavras na
curvatura do meu coração.

claro que "belo" é uma aproximação do adjectivo que hei-de inventar para ti.

James Bort

Esplendor

era quase páscoa e escreveu-lhe sobre purificação. 
havia o copo de vinho, o vestido púrpura adamascado aberto nas costas e uma flor sobre a mesa de madeira. era assim no quadro ao lado da caixinha dos sonhos.
não escreveu a ressurreição porque os corações assim alinhados, como te disse, e a acompanhar os dias, não percebem nada de morte. a ressurreição precisa de uma morte antes, não é? ainda é cedo.
havia os corações, a barra de sabão e a bilha de água. era assim no laboratório ao lado. a sala de ensaios e de análises que não servem para quase nada. ao contrário da caixinha dos sonhos que está do outro lado. 
era quase finados, não rezámos pelos mártires e nem sequer pedimos pão-por-deus. 
havia os copos sobre a mesa, a taça de cristal com os olhos - grandes! - embebidos de sorrisos e as mãos a desenharem jardins imensos.


Cristina Faleroni

Celebração

é nos dias longos e opacos
que mais me aproximo da tua imagem.

com as mãos abro uma estrada no negrume
que me leva ao mar dos teus olhos
e encontro os teus braços feitos barcos de outubro
a fazer riscos no céu para roubar as estrelas
iguais ao meu vestido, mas que tu não te lembras,
tal era a pressa de me iluminares.

num quase finados
numa quase noite
a disfarçar a timidez com movimentos de lábios
cumpriu a purificação
que lhe escrevera
a ondulados
no lindo lençol de seda negra.

Herbert List | Liguria, Itália, 1936



Geometria

tinha tudo para o achar um homem banal. de uma banalidade desinteressante, especificou com gestos minuciosos dos dedos. mas bastou apanhar-lhe um pedaço de ângulo melancólico na flexão do tronco, para o encher de importância.



James Bort

διαλεκτική



um bocado bom que apanho de ti
- um bocado trabalhoso, mas muito doce -
está naquele interstício em que a construção se ergue dos pedaços que pareciam isolados.

a imagem é a da criança que
por gostar tanto do novo mimo
explora-o para o ver e sentir melhor.
depois, tira os dedos das reentrâncias do brinquedo e volta a ajeitá-lo,
para o ver e sentir melhor, de outra perspectiva.

a dialéctica entre o todo e as partes é uma constante
também no amor.



"The captive fish in its bowl and the open sea symbolize man who, being tied to earth, can never quite break free from matter, and who, while having intimations of a sublime world, is yet unable to immerse himself in it because he is trapped in his body." | Herbert List, Santorini, 1937

Melancolia

é pela identificação de princípios que gosto de ti
e até são os opostos que fazem sobressair esse princípio

ainda mais quando
é domingo
o mar galga a muralha
as cinzas subiram aos céus
e espreito a caixinha dos sonhos


Mar da Indonésia | Hengki Koentjoro

Clareza

se eu tivesse que escolher uma cor para as tuas palavras seria o cinza.
não pelo negrume da tristeza. Bonito, esse teu negrume, sabias?
seria pela calma. É isso. Pela calma que me trazes às margens das manhãs ou das tardes.
conforme a inclinação do sol.

as tuas palavras só não têm a cor branca porque não as descobriria nesta folha.
mas são brancos, esses bordados de luz que te escorrem entre os dedos.


Aráquem Alcantara

Grande

Não são os espaços revestidos a emoções mais pronunciadas - a alegria e a tristeza - que mais me comovem.

A minha perturbação emotiva dá-se melhor naquele altar em que me deixas as palavras e te adivinho o olhar grande.

Zazielona

Quero-te assim

quanto mais igual te dás
mais desiguais são os meus dias.

deliciosamente desiguais
esses dias deslumbrados com o sol
que trazes à noite.

para encher as minhas horas
esventradas de solidão.


Teknari

Brinde

às vezes o meu coração fica no estado líquido.
e tu demoras tanto a trazer as taças.

Carrossel

girava debaixo de um sol escaldante
como o baloiçar dos teus olhos grandes
que vieram a seguir.

e as tuas mãos compridas
a seguir também
como prolongamentos de folhas vivas
que lavram ternura sobre a pele
e narram poemas no meu avesso.

Convento

escolheste a quase metade que tem mais sol e deixei-me ir.
ainda bem!
mais fácil encontrar o fio bom que liga o sorriso acanhado ao lado inteiro do bem.
e que bem o vi!
apesar das abóbadas em sequência imensa de cachos de ninhos.
os arcos são pedaços de abraços.
contámo-los antes de descansar.


Kollerová via a girl who tried to disappear

Era um poema que queria escrever-te

era o dia de hoje. não tão quente mas com muito sol.
feito em sexta-feira.
não havia bolinhos na cidade.
das mesas despenteadas da liberdade longa definimos o nosso terrado com palavras e outras seivas.
não ficou na memória toda a grafia que te empenhaste em desenhar-me apesar das investidas da timidez a morder-te o movimento de lábios. mas senti o teu alimento a circular por mim. como a continuação do ondulado daquela tela negra, que também digo lindo lençol ou manto quando misturo o negrume com brilho de olhos e de sorrisos, e muitas vezes digo mar. seda é sempre.

Momento simples

aquele momento simples, pequenino no tempo, a fazer a maior diferença no encontro com a paz.
como o trajecto feito pela tua mão desde o prato até à boca, enquanto dizias não sei que palavras, mas a textura do som era agradável.
percebi pelos olhos. menos perdidos.

Aperto

se estivéssemos aqui
amparávamos a amargura dos dias
rijos, cansados e desfeitos.

dias nossos
apanhados nas margens
estanques, assépticas e doridas
do tempo que não se faz.


Arno Mikinnen

 

Cacau

a linha de olhar fechado
como um código ou sinal ou sol e lua
para fazer das palavras rabugentas e tristes
braços para brincadeiras boas,
as que têm luz e caminho,
caem em cama macia
e riem no rebordo espelhado
das quadrículas doces
- em claro-escuro
o branco e o negro -
alinhadas com cadências de marés.

Simply complex | Peter Gwisa

Albus

 

comi de vontade as duas tijelas de calma que me obrigaste a engolir sem saberes que me forçavas.
uma de manhã, outra à noite.
como os medicamentos.
houve um branco que me subiu,
que não sei se foi o caldo da incerteza a abanar o meu edifício que eu dizia ser de pedra e cal,
ou se foi uma inundação de paz a tomar conta dos meus poros.
não sei se a paz é branca, como se diz.
mas sei que às vezes é preciso caiarmo-nos de branco por dentro
para voltar a colocar as partículas sacudidas de pó e livres das teias de aranha.
assim parecido com a primeira limpeza grande que se faz na primavera, antes das maias.
limpar, limpar
pintar, pintar
para voltar a vestir
roupa lavada e cachos de flores.
giestas, madressilvas, rosas silvestres.
até os folhados. bem cheirosos e resistentes
que só conheces os maias? não é verdade!
pelas grinaldas com que me enfeitas, percebo bem que sabes das maias.


Jeanloup Sieff

Chiaroscuro

o teu silêncio caiu na zona mais-que-perfeita entre a verdade e a dor.
A terra de ninguém, metade medo metade incerteza.
na guerra é terra temida, aqui é terreno desejado porque necessário.

era verão, mas o discurso saiu-me gelado como o sangue das feridas de Inverno. 
tinha ensaiado durante largo tempo as palavras escovadas de sentir. 
bati-lhes com força, até que cada partícula que costuma carregar emoções, se deixasse de brincadeiras, mariquices sentimentais (entendes?!) e se fingisse pedra.

foi nesse estado de sílabas mortas a construir um túmulo durante dias já a contarem-se em milhares, que decidi alinhar-te as partículas metade pedra, metade gelo.
deitei-as no lençol de seda e soprei.

as palavras sem carne, reduzidas a ossos, são mais cruas que os exercícios estéticos de depuração.
essas palavras, as palavras-cadáver, preenchem e definem o que sobra, quando erguidos do caos.

a luz, a sombra, o volume, a profundidade, a forma que se redesenha.


Jean Dieuzaide | Racine de saule, 1969 | Musée Réattu

Jean Dieuzaide | Racine de Saule, 1969 | Musée Réattu



Curativo

ensaiei uma tela para o lugar da que perdeste. 
com as ligaduras.

lavei-as bem
estiquei-as ao sol
e pu-las a comer a goma que fiz.

vai servir-te quando descobrires as tintas que também largaste
por aí...
ou talvez estejam distribuídas pelas gavetas do homem do divã...
é que nem sabes daquela bem cremosa com que pintavas o ondulado do lençol negro de seda.
a dos cambiantes. Para evitar a obscuridade, brincavas.

depois de espreitar as gavetas do homem de olhar fundo, quase mau,
(- sabes que ao Dali lhe deu para as pintar, às gavetas? -),
com as ligaduras
ensaiei velas de barcos
para largar
por aí...

Daria Endresen

Delonga

e foi na camada intermédia do mar que forra a cidade
que bebeu o ondulado da timidez a adoçar-lhe a figura imponente
onde encaixara o olhar perdido
difícil de segurar.

veio estender-se na praia
à espera de o encontrar.
os olhos perdidos em grãos de timidez costumam fazer cama nos interstícios dos dias.



Belleza Spark | Série: Saying 'no' sometimes is 'ok'

Era domingo

a melancolia também é o deslizar manso das ondas no final da tarde, a comer bocados de areia e a debitar conchas,
o mar liso e plácido a roer a solidão
e o olhar que salta entre a brevidade e a linha do horizonte
da tela negra salpicada a cinza-prata
e a outra cor mais cor
que faz soltar um sorriso
mesmo na tarde imprecisa

era domingo
e pareceu-me o ruído belo e sincopado
dos pássaros.


Herbert List, 1934

Fromia elegans

a vontade que estejas, que voltes e que não vás sem regresso
também me serve para querer ser melhor

como se fosse(s) uma droga
que dá força para erguer
e até correr
e que trava e acalma
até morder um ponto
e entrares no mar

há estrelas assim
maculadas nas profundidades
a vermelho
como o sangue
nas veias e sobre a pele

Sangue

mar amarrado há setenta dias
águas escovadas em vontade grande

dedos que se esticam
até ao horizonte
a desenrolar as ondas para te salvar

pele salpicada de vermelho
com o sangue que te ofereço
na linha esbatida

guardiã de todas as possibilidades
 


Katia Chausheva


Tormenta

sei do tremor dos nós dos teus dedos a compor o mundo
pela cadência e profundidade das nervuras das velas
a rasgar ventos à conta dos estilhaços
ou a desfilar doce com uma réstia de novo.

- e os nós dos teus dedos
a armar palavras como se içam velas
a urdir a grafia de gritos com a urgência de portos - .

sei do bater do teu coração pelo tremor dos nós dos teus dedos
no ondeado negro das noites de mar picado
a morrer no silêncio branco das ondas
que serenam na praia.



Storm, Point Sur, Monterey Coast CA, 1942 | Ansel Adams

Transfiguração

recolhi as figuras deformadas
tristeza branda mordida a luz
camadas de solidão ordenadas por critérios
do silêncio que sobeja.

bojudos ou esticados em filamentos 
reflectidos em magia de espelhos
são os meus figurativos da ausência
cinzelados a vocábulos de maresia.

Brisa

aquela fatia de sol que guardaste todo o dia
até se transformar em folhas de vento
veio à noite
abanar os fiapos do meu medo-paralisia
que aos poucos se transformou no medo da fuga para a frente.
ama-se
(também, sobretudo, mais, menos, muito... o que for)
pelo todo percepcionado no detalhe.

medo há sempre.
mesmo quando não usa o vermelho sangue ou o negro.
o medo até se veste mais de cor-carne
para se passear por aí.



Billy Kidd

E se um diário de bordo for uma missiva de amor?

"Escrever-te sem que tu saibas" - É o conceito unificador de um diário de bordo escrito pelo mar báltico, durante oito dias, um texto por dia.


Dia 1
Sempre tu

À noite, que ali e nestes dias pouco tem de escuro, sentei-me no deck panorâmico.
Ainda estacionados para receber passageiros, as gaivotas saudavam os novos e subiam para me beijar os pés. 
Até nem foi bem assim. Elas beijavam o reflexo no vidro a ‘pensar’ que me beijavam os pés.
Depois, as gaivotas subiram ao coração e sacudiram os fios da minha memória. 
Queria que estivesses aqui. 
Ficaste do outro lado.
Nem sei se algum dia vais poder estar no lado em que eu estiver. Ao meu lado.
Queria que viesses. 
Não posso pedir. Não devo pedir.
O não dever pedir é mais forte do que o não poder fazê-lo.
Agarrei neste caderno, o das folhas antigas e que diz “Dreams come true”, e escrevi-te. Mas tu não sabes.
 
Dia 2
A eterna preguiça que há no mar
 
O mar espalmou as horas e distendeu-as.
O mar juntou trinta minutos a cada hora da terra para ter tempo de preguiçar.
O mar armou-se em engraçado e fabricou um relógio só para ele.
O mar enfiou no relógio as horas espalmadas e distendidas.
O mar engoliu o relógio e ficou com uma barriga muito grande.
O mar às vezes tem a barriga tão grande que lhe crescem dobras onduladas.
O mar deixa que eu, e talvez tu se lhe pedires, acrescentemos mais dez minutos a cada hora. Por causa dos batimentos da alma.
O mar não deixa afogar mágoas. Tem boias de salvação.
O mar não engole as mágoas. O relógio deixou-lhe a barriga a abarrotar e não a dar horas.
O mar deixa lavar as mágoas. Até podem ficar a boiar.
O mar devolve-nos as mágoas bem escovadas para as amanharmos melhor.
O mar chateou-se com as minhas mágoas e enfiou-as no meu caderno dos sonhos.
Escrevi-te. Mas tu não sabes.

Dia 3
Tubos
 
O céu é o que se assemelha mais ao mar.
O céu e o mar são irmãos gémeos. Gémeos falsos.
Nada que tenha a ver com o sexo.
Muito embora o céu tenha anjos.
E tanto se discute acerca do sexo dos anjos.
Já descobriste? Vá, vá, diz-me.
  
A única diferença entre o céu e o mar é o estado do lençol.
No mar, o lençol está sempre encharcado.
No céu, o lençol só deita gotas quando é lavado.
 
Ao longe, pensei-te piano. Os meus olhos até foram buscar um banquinho em que sentei um pianista a interpretar uma peça.
Juro que ouvi o nocturno em modo diurno.
 
Na aproximação, vi-te um conjunto de trombetas a apontar para o céu.
Convoquei os anjos para te usarem a preceito.
Meti-me debaixo de ti para averiguar o estado do lençol.
A cada canudo correspondia um retalho.
Acolchoado de algodão, pedaços de linho, tiras de seda.
Acrescentei comprimento aos braços.
Para compensar a dificuldade em pintar-te sorrisos, escrevi frases em cada retalho.
Saí debaixo de ti, alinhei os pedaços no caderno e escrevi-te. Mas tu não sabes.

Dia 4
Do fim

Pensas na morte?

Perguntei-te junto aos túmulos de alabastro.

Não respondeste.
A morte não se diz.
Dizem para aí.
E tu és desses? Vá diz, diz, diz… 
O meu eco abanou os cordões de ouro.
Mortos pintados a ouro… Valem mais, é?
Qual é a cotação do morto em relação ao vivo?
Também não sabes?

Os teus olhos quiseram calar-me com o fogo roubado aos santos.
E calaram.
 
Voltei costas e escrevi-te sobre a morte.

Tu não sabes que te escrevi?

Ou finges?

 
Eu digo a morte, sim.

Penso nela todos os dias.

Ou quase.

Penso na minha morte, não na dos outros.

Sempre pela possibilidade de ela estar mais certa para mim.
A imortalidade não deixou sobrar uma nesga para mim.


Foi a noite do mármore.

A pedra fria, branca, muito branca… Conspurcada pelo animal danado.

 
Estar no fio da navalha muda o referencial da vida para sempre.

É um pressentir estar aqui pela última vez, mesmo sem motivo para descartar a repetição.
O mais seguro é não estar.
É um viver em despedida, sem vislumbre de retorno.
É um sentir vazio de futuro.
É um perceber constante da vida com sofrimento. Porque a vida tem-no sempre. Mais, muito mais, quando não há amor.
E tu não estás, meu amor.
 
Medo de morrer?
Interroguei-me junto às bochechas rosadas dos anjos.

Não, perdi-o todo de repente.

Ou parece.

Era de noite, estava frio e arrancaram-me tudo.

 
Dia 5
Ao pôr-do-sol
 
Desceste enrolado nas gotas de suor que deslizavam sobre a minha pele.

Percebi-te 

nos arrepios bons

nas picadas ligeiras

nas borboletas na barriga (– Essa é de adolescente?! Tens cá uma graça!)

no mareio da competição com a laranja orgulhosa.
Uma laranja inchada, gorda, redonda,
bola que rebola no negrume ondulado.

 
Irrequietos, profundos, com pinceladas breves de tristeza,
assim são os teus olhos bonitos.
Ainda mais na noite do fogo,
reflectidos nas águas doces do mar.
Sorrimos em modo gigante.

A primeira vez!

E a laranja rabugenta a querer dormir.

Que maçada!

 
Rabisquei à pressa o nosso desenho, 
para juntar à missiva da garrafa cristalina lançada ao mar.

Já chegaram os traços que grafei?

Tu não sabes que te escrevi, pois não?

 
Por ti e para ti, perdi o jogo com a laranja.
Não contente, a malandra voltou a desafiar-me todas as noites.
E tu, não fazes mais nada senão desinquietares-me,
enrolado nas gotas de suor que deslizam sobre a minha pele?
 
 
Dia 6
Da química
 
O trabalho e o amor implicam sempre sofrimento. 
Foi o que disse a rapariga dos olhos azuis e pele muito branca, enquanto nos guiava pelo bosque.
Nós aprendemos a lidar com o sofrimento e por isso dissimulamos as emoções. Os homens ainda falam menos sobre o que sentem e por isso sofrem mais.
Continuou a menina-mulher de semblante triste.
 
Estanquei o coração e quis agarrar-me com força à razão.
Para tentar encontrar algum fio condutor.
Porque, para mim, as mulheres à minha volta pareciam estar dessincronizadas.
 
Na véspera, a matrona, ao explicar um quadro, dissera sem ponta de hesitação que o pintor foi um homem muito feliz. Ela nunca falou com o pintor, nem trocou correspondência… Ela nem sequer viveu na mesma época do homem.
 
[E sem que tu visses, rabisquei à pressa estas notas para ti. Não fazias ideia da minha missiva, pois não?]
 
Os palpites sobre a in|felicidade alheia parecem-me abjectos, por muito frio e cru que tal seja interpretado.
 
No outro dia, o rapaz de trinta e picos e que de longe alinha palavras cuidadosas e doces, dissera-me que o melhor é evitar-se a paixão por causa do sofrimento que vem a seguir. Julgo que ele não acredita no amor. Tão novo, já viste?
 
Como se evita a paixão?
E é preferível evitá-la, caso seja possível?
As vezes penso que seria mais fácil não te desejar com esta força avassaladora... Mas não, fazes-me falta.
 
 
A rapariga de olhos azuis e pele muito branca encontrou um rapaz. Cumprimentaram-se de forma cúmplice e sorriram. 
A pele dela avermelhou-se.


 Dia 7
Apeteces-me

Abri a janela e deixei-te o bilhete que escrevi às escondidas.
Encontraste-o?

Corre, corre!
Vem para a barca.

Deslizaste as mãos pelo meu vestido branco.
Cintaste-me.

Peguei na tua pele e juntei-a à minha pele.
Dão-se bem!
A minha pele com a tua pele.
Deixámo-las brincar às escondidas - tudo às escondidas? - debaixo das pontes.
Tão baixinhas!
Olha a cabeça! - avisavas-me a cada novo buraco.

Sabes que gosto muito de ti?
Sorriste-me com os olhos brilhantes.
Atiro-te para trás.

Dia 8
Nas nuvens

Tudo me parecia muito distante.
Não eram as coisas. Não era um desligar dos procedimentos necessários.
A distância, que eu queria que fosse cada vez maior, era do ruído infindável do caudal de reclamações.
Nada esteve bem. Nada estava bem. Diziam.
Sem que vissem, recolhi-me nos meus pensamentos.
Ou o meu grau de exigência andava pelas ruas da amargura ou aquela mole humana mostrava sinais de ter passado um punhado de dias num campo de concentração. Não para se concentrar, está bom de ver. Naqueles campos à antiga.

Apeteceu-me gritar. Não. Já havia demasiado ruído.
Puxei pelo caderno dos sonhos, aquele em que peguei ao calhas antes de sair de casa, e continuei a registar palavras para ti. Não as viste, eu sei. Um dia... Talvez.

Ali do alto respiro fundo.
Vou para perto de ti. Mais perto, talvez.
Continuo a querer que venhas para o lado em que eu estiver. Para o meu lado.
Sabes que tenho esse sonho muito bem guardado naquela caixinha de que te falei?
De vez em quando vou lá espreitar. Levanto o papel de seda e atiro-te beijos. De volta, sempre os teus olhos bonitos. Irrequietos, profundos, com breves pinceladas de tristeza.

Confissão

senti-te na curva perigosa
aquela em que os gritos sufocados
se desfazem nas entranhas
e erguem pilares de tristeza.

havíamos secado as lágrimas.

o piso
outrora escorregadio pela água derramada
converteu-se na aridez dos corpos cansados
que gritam por ternura.

sincronizados 
depositámos o coração na mão do outro.
Segura bem, dissemos.

havíamos jurado a imortalidade. 


Novic Arman Zhenikeyev


Decantação

tu e a tua possibilidade
- e eu não tenho a certeza se esta possibilidade tem o nome de saudade,
ou se é mais um movimento de mar -
barram-me de um lastro
que permite apanhar a realidade do lado doce.

como as garrafas no fundo do mar
que foram à procura do doce.
não te esqueças que são setecentas
perfeitamente alinhadas debaixo das barcas
cinquenta a cinquenta, alinhadas verticalmente,
e cobertas com o teu lindo lençol de seda negra.

quando provamos?

Herbert List | Taverna below the Poseidon Temple, 1952

Miose

avisto a extensão de negro em que depositas o teu coração em forma de palavras
e perco as minhas pupilas para o mar:
troco as barcas por barcos
visto os pássaros de asas gigantes
agito as águas
empresto sopros ao vento...

às vezes o ondeado das dobras da seda,
negro em filamentos entremeados de luz,
não deixa ver a inclinação do eixo que diz das tuas estrelas.



Foto: Nick Brandt

No amor


no amor
não é a paixão que leva a melhor,
mas sim o que se extrai do amar lento que não exige nada um ao outro,
a não ser a honestidade,
e em que sabes que estás e ficas e queres continuar,
mesmo que seja a tentar,
porque isso continua a acrescentar-te.

Dominique Issermann




Pedido

nunca te esqueças de andar com gaze no bolso.
para limpares os raios de sangue que jorram da alma.

Querer

à conta do intervalo estudado entre as palavras, aprendemos a conter a vertigem. 
repetir para aprender. repetir para não esquecer.

o traçado da zona em que se aloja a intersecção do lastro da tristeza
com o leve da cortina de sorrisos que varre os dias.
ficar assim.
a tocar nas estrelas que desenhámos a brilho dos olhos.
sem pronunciar as palavras que dissemos antes.

voltámos a pegar em tudo,
no nós imenso,
e guardámos na caixinha dos segredos.


Mário Cabrita Gil

Silent wind blowing

mesmo quando não podes e não consegues chegar ao que eu quero,
surpreendes-me sempre pelo lado bonito.
percebo, então, que o que quero pode não ser o mais precioso naquele momento,
ainda que o primeiro sabor que vem à boca seja o de fim de outono.
uma espécie de morno da agonia que sei encontrar lá à frente o quente do quase verão.


Silent Wind Blowing | Vivienne Bellini

Osmose

              em cada gaivota que passeia pelo areal 
              - e são às dezenas - 
              sinto a que imortalizaste no teu lindo lençol de seda negra.

              é essa grande 
              - imensa no porte e na beleza - 
              que guincha, canta e desenha ondas no ar a imitar o mar
              que desfila e me leva a ti.

Às vezes basta

às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.


Áνατέμνω

sofrer e lutar pelas tuas coisas
só porque são tuas
diz muito sobre a resistência do meu músculo cardíaco.

há dias em que lhe acrescento uma quinta cavidade
para guardar os búzios
pendurar as estrelas
abrir a caixinha dos sonhos
ver os teus olhos dançar
sentir o teu sangue bombear
até que o barco alcance um braço de mar.


Laura Makabresku

Breathing

não tenho a certeza
que não vi
se foi com o sorriso em luz, com as palavras curtas ou com uma mão estendida, ou com isso tudo que carregaste e mais aquela tua parte do coração a transpirar bonito,
que te interpuseste
entre os fios puídos e baços dos meus entremeios e as flores do mal

mas
o meu peito fez o movimento de declinação de onda a desfazer-se
e o dia deitou-se na fatia de sol.

Das histórias com borboletas

escrevo as histórias com borboletas que trazes aos meus dias
e descubro que não sei com que palavras se diz o desejo em misturas de inquietação e aconchego
como um murmúrio de mar de águas lisas debruadas a ondas       umas à procura das outras
corpos que se escrevem em desassossego de ternura
 
 
marta bevacqua

Descoberta

mesmo que transmutada

em palavras

ou ondulações de beijos a marcar as marés

ou até em filamentos geométricos de sorrisos

é sempre a tua luz que encurta a minha solidão.


Jordan Sweke

Epigrama

entre véus de nuvens a passar em rajada
catorze
uma brevidade de alinhamentos e um sorriso
é a medida da salvação
a diferença entre a derrota e o voo.


Sirsendu Gayen

Levar-te à boca

o açucareiro era de alumínio, alto e gordo, e servia para guardar o açúcar louro que tinha uma cor acastanhada, mas nem isso fazia com que dissesse açúcar castanho como também ouvia. castanhas eram aquelas pedrinhas que se formavam no açúcar e eu apanhava para levar à boca, como se fossem rebuçados. remexia o açúcar na esperança de apanhar mais, de que estivessem sempre a nascer pérolas e não sabia de onde vinham aqueles tesouros nem me preocupava com isso. 
uma vaga ideia de prémio. apenas isso. as pérolas aconteciam-me. os tesouros apareciam-me.

hoje, à procura de rios para ti, 
braços em alfabeto, pinturas com asas e janelas debruadas a olhos grandes com uma pitada de triste,
vi a mão da miúda a abrir buracos no açúcar para encontrar pedacinhos de ti.

Prata escovada

do veludo azul-noite
em que a encontrei estendida junto ao cais
ponteada a sorrisos da artista
orgulhosa de erguer a manhã na exuberância do arco
desenhou fios de pérolas
a espirais de luz
que se estenderam pelas águas
até encontrar o redondo da tarde
no arco da timidez
em que baloiçam olhos perdidos
que me levam a ti.

Vórtice

é à conta dos ramos de ti em mim que me ergo 
nos dias de voragem silenciosa.
 

Ortografia íntima

habituei-me a ler-te o interior
como se fora um baloiço que oscila entre
as palavras grafadas com todas as letras e
a infância da língua com que me fazes adivinhar
as vogais e as consoantes que preencheriam os intervalos em falta
senão ficassem amarradas ao teu coração.

a permanência da memória dos dias de sal · Isabel Pires · 2019
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