a permanência da memória dos dias de sal

a permanência da memória dos dias de sal

2019

Amo-te

Claro que "belo" é uma aproximação. Um termo terrestre.

Mas foi o que senti ser aquele dia em que depositaste as palavras na
curvatura do meu coração.

Claro que "belo" é uma aproximação do adjectivo que hei-de inventar para ti.

James Bort

Esplendor

Era quase páscoa e escreveu-lhe sobre purificação.
Havia o copo de vinho, o vestido púrpura adamascado aberto nas costas e uma flor sobre a mesa de madeira. Era assim no quadro ao lado da caixinha dos sonhos.
Não escreveu a ressurreição porque os corações assim alinhados, como te disse, e a acompanhar os dias, não percebem nada de morte. A ressurreição precisa de uma morte antes, não é? Ainda é cedo.
Havia os corações, a barra de sabão e a bilha de água. Era assim no laboratório ao lado. A sala de ensaios e de análises que não servem para quase nada. Ao contrário da caixinha dos sonhos que está do outro lado.
Era quase finados, não rezámos pelos mártires e nem sequer pedimos pão-por-deus.
Havia os copos sobre a mesa, a taça de cristal com os olhos - grandes! - embebidos de sorrisos e as mãos a desenharem jardins imensos.


Cristina Faleroni

Celebração

é nos dias longos e opacos
que mais me aproximo da tua imagem.

com as mãos abro uma estrada no negrume
que me leva ao mar dos teus olhos
e encontro os teus braços feitos barcos de outubro
a fazer riscos no céu para roubar as estrelas
iguais ao meu vestido, mas que tu não te lembras,
tal era a pressa de me iluminares.

num quase finados
numa quase noite
a disfarçar a timidez com movimentos de lábios
cumpriu a purificação
que lhe escrevera
a ondulados
no lindo lençol de seda negra.

Herbert List | Liguria, Itália, 1936



Geometria

Tinha tudo para o achar um homem banal. De uma banalidade desinteressante, especificou com gestos minuciosos dos dedos. Mas bastou apanhar-lhe um pedaço de ângulo melancólico na flexão do tronco, para o encher de importância.



James Bort

διαλεκτική



um bocado bom que apanho de ti
- um bocado trabalhoso, mas muito doce -
está naquele interstício em que a construção se ergue dos pedaços que pareciam isolados.

a imagem é a da criança que
por gostar tanto do novo mimo
explora-o para o ver e sentir melhor.
depois, tira os dedos das reentrâncias do brinquedo e volta a ajeitá-lo,
para o ver e sentir melhor, de outra perspectiva.

a dialéctica entre o todo e as partes é uma constante
também no amor.



"The captive fish in its bowl and the open sea symbolize man who, being tied to earth, can never quite break free from matter, and who, while having intimations of a sublime world, is yet unable to immerse himself in it because he is trapped in his body." | Herbert List, Santorini, 1937

(escrito numa tarde triste)

é pela identificação de princípios que gosto de ti
e até são os opostos que fazem sobressair esse princípio

ainda mais quando
é domingo
o mar galga a muralha
as cinzas subiram aos céus
e espreito a caixinha dos sonhos


Mar da Indonésia | Hengki Koentjoro

Clareza

Se eu tivesse que escolher uma cor para as tuas palavras seria o cinza.
Não pelo negrume da tristeza. Bonito, esse teu negrume, sabias?
Seria pela calma. É isso. Pela calma que me trazes às margens das manhãs ou das tardes.
Conforme a inclinação do sol.

As tuas palavras só não têm a cor branca porque não as descobriria nesta folha.
Mas são brancos, esses bordados de luz que te escorrem entre os dedos.


Aráquem Alcantara

Grande

Não são os espaços revestidos a emoções mais pronunciadas - a alegria e a tristeza - que mais me comovem.

A minha perturbação emotiva dá-se melhor naquele altar em que me deixas as palavras e te adivinho o olhar grande.

Zazielona

Quero-te assim

Quanto mais igual te dás
mais desiguais são os meus dias.

Deliciosamente desiguais
esses dias deslumbrados com o sol
que trazes à noite.

Para encher as minhas horas
esventradas de solidão.


Teknari

Brinde

Às vezes o meu coração fica no estado líquido.
E tu demoras tanto a trazer as taças.
a permanência da memória dos dias de sal · Isabel Pires · 2019
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