Amo-te
curvatura do meu coração.


era quase páscoa e escreveu-lhe sobre purificação.
havia o copo de vinho, o vestido púrpura adamascado aberto nas costas e uma flor sobre a mesa de madeira. era assim no quadro ao lado da caixinha dos sonhos.
não escreveu a ressurreição porque os corações assim alinhados, como te disse, e a acompanhar os dias, não percebem nada de morte. a ressurreição precisa de uma morte antes, não é? ainda é cedo.
havia os corações, a barra de sabão e a bilha de água. era assim no laboratório ao lado. a sala de ensaios e de análises que não servem para quase nada. ao contrário da caixinha dos sonhos que está do outro lado.
era quase finados, não rezámos pelos mártires e nem sequer pedimos pão-por-deus.
havia os copos sobre a mesa, a taça de cristal com os olhos - grandes! - embebidos de sorrisos e as mãos a desenharem jardins imensos.

Cristina Faleroni

Herbert List | Liguria, Itália, 1936
tinha tudo para o achar um homem banal. de uma banalidade desinteressante, especificou com gestos minuciosos dos dedos. mas bastou apanhar-lhe um pedaço de ângulo melancólico na flexão do tronco, para o encher de importância.

James Bort


se eu tivesse que escolher uma cor para as tuas palavras seria o cinza.
não pelo negrume da tristeza. Bonito, esse teu negrume, sabias?
seria pela calma. É isso. Pela calma que me trazes às margens das manhãs ou das tardes.
conforme a inclinação do sol.
as tuas palavras só não têm a cor branca porque não as descobriria nesta folha.
mas são brancos, esses bordados de luz que te escorrem entre os dedos.

Aráquem Alcantara
Não são os espaços revestidos a emoções mais pronunciadas - a alegria e a tristeza - que mais me comovem.
A minha perturbação emotiva dá-se melhor naquele altar em que me deixas as palavras e te adivinho o olhar grande.

Zazielona


era o dia de hoje. não tão quente mas com muito sol.
feito em sexta-feira.
não havia bolinhos na cidade.
das mesas despenteadas da liberdade longa definimos o nosso terrado com palavras e outras seivas.
não ficou na memória toda a grafia que te empenhaste em desenhar-me apesar das investidas da timidez a morder-te o movimento de lábios. mas senti o teu alimento a circular por mim. como a continuação do ondulado daquela tela negra, que também digo lindo lençol ou manto quando misturo o negrume com brilho de olhos e de sorrisos, e muitas vezes digo mar. seda é sempre.

a linha de olhar fechado
como um código ou sinal ou sol e lua
para fazer das palavras rabugentas e tristes
braços para brincadeiras boas,
as que têm luz e caminho,
caem em cama macia
e riem no rebordo espelhado
das quadrículas doces
- em claro-escuro
o branco e o negro -
alinhadas com cadências de marés.
Simply complex | Peter Gwisa


ensaiei uma tela para o lugar da que perdeste.
com as ligaduras.
lavei-as bem
estiquei-as ao sol
e pu-las a comer a goma que fiz.
vai servir-te quando descobrires as tintas que também largaste
por aí...
ou talvez estejam distribuídas pelas gavetas do homem do divã...
é que nem sabes daquela bem cremosa com que pintavas o ondulado do lençol negro de seda.
a dos cambiantes. Para evitar a obscuridade, brincavas.
depois de espreitar as gavetas do homem de olhar fundo, quase mau,
(- sabes que ao Dali lhe deu para as pintar, às gavetas? -),
com as ligaduras
ensaiei velas de barcos
para largar
por aí...

Daria Endresen
e foi na camada intermédia do mar que forra a cidade
que bebeu o ondulado da timidez a adoçar-lhe a figura imponente
onde encaixara o olhar perdido
difícil de segurar.
veio estender-se na praia
à espera de o encontrar.
os olhos perdidos em grãos de timidez costumam fazer cama nos interstícios dos dias.

Belleza Spark | Série: Saying 'no' sometimes is 'ok'



sei do tremor dos nós dos teus dedos a compor o mundo
pela cadência e profundidade das nervuras das velas
a rasgar ventos à conta dos estilhaços
ou a desfilar doce com uma réstia de novo.
- e os nós dos teus dedos
a armar palavras como se içam velas
a urdir a grafia de gritos com a urgência de portos - .
sei do bater do teu coração pelo tremor dos nós dos teus dedos
no ondeado negro das noites de mar picado
a morrer no silêncio branco das ondas
que serenam na praia.
Storm, Point Sur, Monterey Coast CA, 1942 | Ansel Adams
recolhi as figuras deformadas
tristeza branda mordida a luz
camadas de solidão ordenadas por critérios
do silêncio que sobeja.
bojudos ou esticados em filamentos
reflectidos em magia de espelhos
são os meus figurativos da ausência
cinzelados a vocábulos de maresia.



tu e a tua possibilidade
- e eu não tenho a certeza se esta possibilidade tem o nome de saudade,
ou se é mais um movimento de mar -
barram-me de um lastro
que permite apanhar a realidade do lado doce.
como as garrafas no fundo do mar
que foram à procura do doce.
não te esqueças que são setecentas
perfeitamente alinhadas debaixo das barcas
cinquenta a cinquenta, alinhadas verticalmente,
e cobertas com o teu lindo lençol de seda negra.
quando provamos?

avisto a extensão de negro em que depositas o teu coração em forma de palavras
e perco as minhas pupilas para o mar:
troco as barcas por barcos
visto os pássaros de asas gigantes
agito as águas
empresto sopros ao vento...
às vezes o ondeado das dobras da seda,
negro em filamentos entremeados de luz,
não deixa ver a inclinação do eixo que diz das tuas estrelas.
Foto: Nick Brandt
no amor
não é a paixão que leva a melhor,
mas sim o que se extrai do amar lento que não exige nada um ao outro,
a não ser a honestidade,
e em que sabes que estás e ficas e queres continuar,
mesmo que seja a tentar,
porque isso continua a acrescentar-te.
Dominique Issermann


para renascer do caos
basta um sopro quente.
tu, feito deus bom.
às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti
para a vida prosseguir

Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.
sofrer e lutar pelas tuas coisas
só porque são tuas
diz muito sobre a resistência do meu músculo cardíaco.
há dias em que lhe acrescento uma quinta cavidade
para guardar os búzios
pendurar as estrelas
abrir a caixinha dos sonhos
ver os teus olhos dançar
sentir o teu sangue bombear
até que o barco alcance um braço de mar.
Laura Makabresku
não tenho a certeza
que não vi
se foi com o sorriso em luz, com as palavras curtas ou com uma mão estendida, ou com isso tudo que carregaste e mais aquela tua parte do coração a transpirar bonito,
que te interpuseste
entre os fios puídos e baços dos meus entremeios e as flores do mal
mas
o meu peito fez o movimento de declinação de onda a desfazer-se
e o dia deitou-se na fatia de sol.
escrevo as histórias com borboletas que trazes aos meus dias
e descubro que não sei com que palavras se diz o desejo em misturas de inquietação e aconchego
como um murmúrio de mar de águas lisas debruadas a ondas umas à procura das outras
corpos que se escrevem em desassossego de ternura
marta bevacqua
mesmo que transmutada
em palavras
ou ondulações de beijos a marcar as marés
ou até em filamentos geométricos de sorrisos
é sempre a tua luz que encurta a minha solidão.
Jordan Sweke
entre véus de nuvens a passar em rajada
catorze
uma brevidade de alinhamentos e um sorriso
é a medida da salvação
a diferença entre a derrota e o voo.
Sirsendu Gayen
o açucareiro era de alumínio, alto e gordo, e servia para guardar o açúcar louro que tinha uma cor acastanhada, mas nem isso fazia com que dissesse açúcar castanho como também ouvia. castanhas eram aquelas pedrinhas que se formavam no açúcar e eu apanhava para levar à boca, como se fossem rebuçados. remexia o açúcar na esperança de apanhar mais, de que estivessem sempre a nascer pérolas e não sabia de onde vinham aqueles tesouros nem me preocupava com isso.
uma vaga ideia de prémio. apenas isso. as pérolas aconteciam-me. os tesouros apareciam-me.
hoje, à procura de rios para ti,
braços em alfabeto, pinturas com asas e janelas debruadas a olhos grandes com uma pitada de triste,
vi a mão da miúda a abrir buracos no açúcar para encontrar pedacinhos de ti.
habituei-me a ler-te o interior
como se fora um baloiço que oscila entre
as palavras grafadas com todas as letras e
a infância da língua com que me fazes adivinhar
as vogais e as consoantes que preencheriam os intervalos em falta
senão ficassem amarradas ao teu coração.