Relendo Meia Pataca de Chico Peixoto


Aflora em mim uma necessidade
de cantar a tua ausência que dói.
Escorregar pelos teus barrancos
sentindo o teu barro quente junto à pele
queimando os ossos como aguardente no peito,
me jogar em tuas barrentas e frias águas,
ser percorrido pelo frio na espinha
de percorrer-te por dentro.
Ver tua amarelada escuridão
tocar teu leito arenoso, onde abrigavas teu viço,
outrora deflorado por bateadores.


Maldito progresso que te prostituiu.
Rasgaram-te à procura de pepitas
arrancaram teus verdes cabelos,
que nas chuvas eram uma profusão de cores e contas.
Hoje fábricas ejaculam, não sêmen de vida
mas licores negros e mortíferos.
Te pintam de negro, te defecam, te matam.
Como é dolorido te olhar meia pataca.


1982
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