Fayola Caucaia

Fayola Caucaia

TransPOÉTICA que fala de amor, afeto e liberdade, a partir das minhas subjetividades.

1998-04-08 São Paulo
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Alguns Poemas

FAMÍLIA

"Oi Fay, que saudade de você"
"Oi Fay, quando você voltar traz uma conchinha pra mim, um monte?"
"Fay, saudade de você"

Frases tão inocentes, três crianças que eu tanto amo
Kakau, Kacio, Maria
Elus entenderam e respeitam meu nome com tanta facilidade e amor
Elus não me questionam, o porquê.
Elus me amam e sabem que é recíproco

Minha irmã se esforça pacas
Demonstra o afeto que tem por mim
O amor que está acima de qualquer preconceito
O carinho pela minha pessoa

Minha mãe, minha rainha, de outra época
Mas isso não é pretexto pra não me amar
Como sou, e apenas como sou

Prefere saber se eu tô bem,
Prefere saber se eu tô comendo bem, me cuidando
Do que ficar me questionando, sabe que isso não faz bem
Pra mim, o que eu sou, eu sou por mim, pra mim e isso já basta

Minha mãe é minha inspiração
E a cada dia, apesar da distância em que estamos
Estamos cada dia mais próximas, mais afetuosas
Idealizando nossos encontros no futuro, próximo
De jantares e possíveis viagens, um sonho

Meu irmão, caçula
Tem suas problemáticas sendo hétero
Hoje tá tendo outros olhares sobre mim, aos poucos
Me apoiando, me ajudando como pode e isso é lindo

É tão bom, ser você e ter apoio
De quem tanto esteve presente a vida toda
E agora permanece
É tão bom

Saudades mamis, saudades irmã, saudades irmão, saudades sobrinhes
Eu nasci na família perfeita, pra mim
Com todos os erros e acertos, não poderia ser família melhor

Sou extremamente agradecida por ter essa família, infelizmente ser compreendida são coisas ainda escassa no meio trans e no meio LGBTQI+ em geral. Mas é sempre primordial a troca e escuta, escutem as pessoas trans, a sociedade já é tão agressiva para nossos corpos, nossa casa e nossa família tem que ser nossa fortaleza e apoio para seguirmos em frente, fortalecidas! 
Pessoas LGBTQI+ também possuem família, histórias e sonhos. O amor precisa prevalecer, o apoio tem que reinar, o amor de uma família não pode ser rompido por causa do preconceito, o amor precisa vencer o ódio! 
Para ter essa relação hoje com parte da minha família, eu tive que fazer escolhas adultas sendo apenas uma recente adulta de 17/18 anos, tive que sair de casa por não ser mais suportável lidar com tantas imposições, pela minha presença não ser aceita naquele espaço, tive que sair e consegui conquistar uma narrativa outra, pra minha vida, não virei estatística. Consegui outros caminhos e conquistas, no meu tempo e com muito esforço, não permanecendo no comercio de drogas e prostituição, mas passando por eles brevemente por necessidade e sobrevivência, ralei para chegar hoje o que sou pra minha família, em pouco tempo eu sofri/vivi pacas e tive que amadurecer rápido, me empoderar e acreditar na minha potência. Hoje eu tô na Universidade, a dois anos eu estava vendendo minha alma pro (capitalismo) Telemarketing, faço parte de 10% das manas que não está na prostituição, por conta dessa sociedade doentio, que tentam nos manter a margem, na marginalidade, o mundo é hostil, mas seguimos na luta pois meu lugar é onde eu quiser e precisamos ser respeitadas e HUMANIZADAS. 
Família, ame suas/seus filhes trans, a gente precisa de amor!

EU AMO AMAR

Tá tudo se transformando, eu, essa casa, esse mundo. Nada será como antes, nem o hoje será como o amanhã, são várias vidas que se tem no mesmo corpo, na mesma carcaça que se habita aqui. Eu não sou quem eu era nem sou o que serei, talvez nem sou o hoje, o hoje que me seja.  
Estou me transformando, migrando dentro de mim mesma, me deslocando e reinventando. 
Tenho guardado memórias, pra mim. Tenho problema de esquecimento talvez apagamento, acho que isso me impulsiona mudar, não quero esquecer as coisas mais bonitas e importantes da minha vida, quero que elas fiquem aqui, tenho registrado tudo, feito do poema um desabafo, um reflexo de tudo que passo, proponho, faço ou desfaço, registro essas memórias pra mim, não tive elas antes, não sei de onde veio meus avós, não sei das histórias, das aventuras, das paixões, dores e amores que elus passaram, tô tentando buscar tantos significados, outra narrativa, decolonial, buscado caminhos antes que eu não enxergava como possibilidade, hoje faço das minhas escolhas, minha morada.  
Não quero ter medo, tô fugindo dessa sensação, medo do que não existe, do que se foi ou será, tô refletindo sobre tudo, só, passando por uma transição só, a partir das escolhas que eu fiz, sobre onde estou, por que estou, como estou e até onde vou, escolhi em parte está aqui, estou aqui por que devo estar aqui, estou só, inteiramente só, aprendendo a está só e ficando bem só, estou amadurecendo nesse sentido, tentando não pensar em bobagens, apenas em crescimento, maturidade, me reinventando, me descobrindo. São 13m² de pura imersão, dentro de mim e do cerne e do ápice de onde posso chegar comigo. Nesse espaço, nessa casa, nesse contexto.  
Tô buscando me amar ainda mais, fico as vezes 24h pelada, me olho por inteira, repetidas vezes, vejo possibilidades, onde quero chegar com o meu corpo, quero amar ele constantemente, me amar por inteira, me possibilitar, me pintar, buscar possibilidades sem interferências externas, eu comigo e só comigo, me contemplar.  
Eu amo amar.

DÚVIDAS DE AMOR

As vezes é tantas dúvidas
O que é amar, a que ponto pode chegar?

As vezes tenho dúvida do que é amor
Será que eu sei amar

Sabia, pelo menos eu acho

Será que eu já gastei todo amor?

Aquela dúvida, quase desespero, de pensar
O que é amar?
Aquela lembrança de um velho amor, que amei
Será que gastei todas as fichas do que é amar?

Aquele amor, pulsante, tão intenso que nem precisa de pedido
ou casualidade
Aquele amor que é supeto, a palavra supero sempre aparece
Superar o que?

Aquela dúvida, que lateja, será que é amor?
Apesar de saber que é contexto, vontade, desejo e principalmente arte
Amor é ação
Será que estou em tempo de amar?

Ai que loucura, o que é amor?
Desses avassaladores, de supeto
Quase não supero
Aparece

Será que fica?

Tá! pedido feito. pedido aceito
A impulsividade do momento, sua fofura
O que eu faço nessa encruzilhada?
Não espere que minha carência não me conduza

Até demais

Será? Será que isso é certo? Será que quero continuar a agir assim?
Impulsividade
A carta do louco apareceu pra mim
Ele vai pular do penhasco, e tem certeza da ambivalência de seu ato

Eu não… sei
Será? Será que é loucura. Sei que é risco.
Do que? Pra quem? Por quem? Pra quem? 
O que eu tô fazendo nessa encruzilhada?
Acho que a pressa é inimiga da perfeição, como eu sou perfeccionista
Será? Falei muito nas entrevista, de praxe
O que é ser perfeito?
Por que a dúvida não pode ser movimento?
Acho que a incerteza faz parte da razão, como eu sou racional
Será? Já falei muito pra minha mãe, de praxe

A dúvida da vontade, quero e ao mesmo tempo não quero
Não vou me sentir pressionada
Eu posso cometer erros? Erro
Talvez se não é certeza, a dúvida é sinal de caminho equivocado
Impulso sem ser avassalador, vira o que?

Qual foi dessa dependência emocional, esses são os sinais que eu vejo
Uma semana e já tá namorando
Duas semanas e já quer casar
Eu não escolho a prisão, prefiro a liberdade, com gosto de solitude
Mas só de saber que no final, minhas escolhas é pra mim, já basta
Já basta de mal escolhas

No tarot saiu o louco, seis de espadas, o enforcado
O que significa tudo isso?
A leitura diz, talvez alguns ciclos possa a estar se repetindo, você decide seu caminho
Mudar ou não mudar, ir ou ficar, transmutar ou ficar no conforto… nada confortável
Perguntei sobre ele e toda essa encruzilhada
Me veio o óbvio, eu sou dona da minha jornada
Cinco de ouros, o oito de espadas, o nove de paus
A insegurança está em mim, e nesse texto
Acho que não é medo, eu tô querendo paz, não aperto de mente
Acho que a paz tem que reinar, ciclos devem acabar, começar, recomeçar’
A força, a roda da fortuna
Minha escolha na pergunta, deve ser estratégica
A pergunta feita me fez refletir sobre meu lugar
Dizer não, também é caminhada, faz parte da jogada
Decidi parar e dizer o que sinto
Disse, nisso a epifania do caminho a ser seguido
Ali, aqui, com ele, sem ele, comigo, apenas comigo é a certeza
A incerteza do amor, talvez seja de um coração desiludido

Reflito

Eu não quero me sentir pressionada a tal
Eu não quero me sentir na obrigação de nada por agora
Eu penso em leveza, e não desconfiança
Sim, eu confio no meu taco
Talvez o que venha seja um fato
Será que eu tô pronta pra amar?
Será que eu sinto o mesmo?
Dizer eu te amo… Senti vontade, mas não sei o que significa agora
Eu tenho o direito de errar

O que eu faço nessa encruzilhada?
A vontade é de recomeço, com calma
A vontade é de andança, nessa jornada
Nelson
Oi
09/setembro/2020

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