Meu corpo, minha regra
Desculpa por não ter permitido que viesses ao mundo.
Desculpa por não ter permitido que visses o sol,
Que sentisses o calor,
O vento, a paz e o amor.
Simplesmente porque julgava não estar preparada pra ser mãe.
Meu corpo, minha regra,
Pensei!
Mas tu não eras o meu corpo, eras uma vida.
Eu sei!
E é essa verdade que hoje
Pousa no meu peito
Como um silêncio que não se cala.
Tu não eras regra.
Não eras argumento.
Eras semente de infinito
Num ventre em tempestade.
Eu tinha medo.
Medo de falhar,
De não saber amar do jeito certo,
De te oferecer incertezas
Num mundo que já me parecia duro demais.
Eu tinha medo.
Medo de ser abrigo rachado,
De ser colo inseguro.
Talvez eu não estivesse pronta.
Talvez nunca esteja.
Mas isso não justifica
Eu terminar com a vida
Que existiu por um instante
No meu impiedoso ventre.
E entre o direito e o receio,
Entre a liberdade e a culpa,
Houve um silêncio
E foi nele que te perdi.
Não tive o teu choro,
Nem o teu primeiro sorriso,
Mas carrego a memória invisível
De quem passou por mim
Como uma estrela breve.
Não tive o teu nome,
Nem o teu primeiro passo,
Mas guardo a tua ausência
Como quem guarda uma fotografia
que nunca foi tirada.
Perdoa-me.
Se existe um lugar onde as almas descansam,
Que saibas que foste pensamento,
Foste dúvida,
Foste lágrima,
Foste amor antes do tempo.
E mesmo que o mundo nunca te conheça,
Houve um coração
Que te sentiu.
Por: Sebastião Xirimbimbi
Escritas.org
